Ao correr da pena: memórias… algures numa data qualquer

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AO CORRER DA PENA
Memórias… algures numa data qualquer

Lembras-te quando dizias (num tom marcadamente economicista) que a vida era má e eu te respondia, numa tonalidade a roçar a sensibilidade e a tolerância, que ainda restava o amor e que era urgente cultivar este valor que eu particularmente cultivava?

Convicto, sonhava a vida grande, auroreal, sadia, junto da mulher que era (ou eu julgava ser) o corpo do meu corpo, a alma da minha alma para quem tu fosses sempre o insaciável dos seus encantos, das suas frases, dos seus beijos.

A cada desilusão que me desse a vida, refugiar-me-ia nesse amor, turris eburnea, tão alta e fortemente que podia olhar as estrelas de frente e que nem a morte ousaria derrubar.
Tu, a mulher da minha vida, dar-me-ias então um encanto novo para cada desengano, para cada desânimo eu encontraria em ti a Bíblia nervosa e quente dos teus braços, no anseio louco e perfumado do teu corpo.

Serias a santificação do meu altar, a luz que me iluminaria a vida inteira, a fonte de meigas águas sussurrando melodias celestiais.

Eu contar-te-ia os meus cansaços e tu oferecias-me o teu colo para descansar; serias forte para me defender e acarinhar como se eu fosse ainda uma criança. Terias a cada frase dos teus lábios o coração em festa e os teus beijos seriam abençoados.

Quando eu tivesse sede tu dirias, abrindo as veias: bebe. Quando eu tivesse fome tu unirias a tua boca à minha e alimentavas-me com o teu hálito caricioso e quente e eu viveria só para ti, sem egoísmos, pesadelos, silêncios e paradigmas.

Assim, nesta modéstia de querer sei que poderia ser feliz, imensamente feliz. Porém, todos os meus desejos ruíram e o meu coração sofreu rude golpe, talvez a concretização das mensagens indecifráveis dos meus silêncios ou o desânimo dos meus poemas… mas os anjos de asas feridas hão-de voltar a voar.

  • Nota: A semelhança do conteúdo do texto com qualquer realidade é mera coincidência.
    Bibliografia: Sampaio, A. F., in ” Palavras Cínicas “



Tapadinhas_Assunção

©A. T. Assunção (2000)
licenciado em Administração e Gestão Escolar
in Jornal D’Alenquer, 1 de Janeiro de 2000, p. 16

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