Adeus Macau

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Macau

Qual o lugar que a História reservará para esta “meia” geração de portugueses? Não a história por eles feita, condicionada e adulterada talvez, mas sim a outra História que os nossos netos e bisnetos irão compilar.

Uma espera nem sempre fácil. Tem sido assim desde que pensei criar um novo jornal. Mas se em Alenquer já existiam outros dois haveria espaço para mais um? Penso que sim; cada um tem a sua personalidade própria e os três podem complementar-se trazendo assim um melhor leque de opções de leitura aos cidadãos do nosso concelho.

Para tudo na vida é necessário sorte, e esta também se fabrica com pensamento positivo. Este pensamento está expresso no “Projecto Editorial” que, por razões legais, se publica neste primeiro número.

O Jornal D’Alenquer é pequenino e por isso sentir-me-ia imensamente feliz por ele ter nascido, se não houvesse outros factos muito mais importante para a vida de todos nós, como por exemplo a recente passagem de Macau para a Administração Chinesa e, sobretudo, talvez por Macau ter alguma ligação a Alenquer e não só por Luís de Camões ter lá desempenhado o cargo de “Provedor Mor dos Defuntos e Ausentes”.

Tudo começou em 1261, Ano I do Espírito Santo, quando o rei D. Dinis nasceu. Este e a Rainha Santa Isabel instauraram em Alenquer de forma original e sem paralelo em qualquer outro país, o Culto Popular e as Festas da Coroação do Imperador do Espírito Santo.

Não foi uma espontânea manifestação ingénua, foi antes um acto intencional e pesado de simbolismo. A Coroação do Espírito Santo, misto de ritual religioso, de promessa real, de auto teatral, de Mistério e de festa aristocrática e popular, ou seja, a Festa do Império também conhecida por “Páscoa Rosada”, foi na verdade uma criação simbólica de todo um pensamento que ganhou um novo e diferente carácter e que constituiu o paradigma simbólico e ritual do projecto áureo português.

O Projecto Áureo Português, com a sua “Padeia Lusitana”, estigmatizou pelo menos dois séculos de nacionalidade, não deixando talvez de ainda hoje estar presente no inconsciente colectivo nacional, com a saudade, consciente ou inconsciente, se não o desejo de uma regeneração em novos moldes.

Pensada e realizada a empresa dos Descobrimentos com o seu sentido ecuménico e missionário os portugueses foram os primeiros ocidentais a chegar à China. Em 1513 Jorge Álvares foi bem recebido na Ilha de Lin Tin (os portugueses começaram a chamar-lhe a Ilha de Veniaga), mas só em 1535 mais precisamente, chegaram, ao delta do Rio das Pérolas, a “Haojing” (Espelho do Fosso) que logo baptizaram de “Povoação” e mais tarde de “Cidade do Santo Nome de Deus de Macau”. (Macau deriva de MA OU, a protectora dos navegantes) Mais tarde, por os portugueses terem derrotado um célebre e poderoso pirata (ZHANG SI) foi dada incondicional pelos chineses, como uma dádiva isenta de qualquer ónus e livre de qualquer dependência jurisdicional.

Ao longo de quase quinhentos anos chineses e portugueses sempre tiveram um relacionamento privilegiado e foram mesmos os portugueses que serviram de intermediários quando China e Japão permanentemente estavam em guerra.

Os chineses sentiam-se um povo superior e como tal só queriam manter relações com os portugueses, por isso não admira que a seguir à perda da nossa independência tenham declarado certa hostilidade aos espanhóis e com isso a bandeira castelhana jamais foi hasteada em Macau. Por diversas vezes os Holandeses também tentaram tomar Macau, mas foram derrotados pelos portugueses com a ajuda dos chineses, sendo o dia dessa vitória escolhido para Dia da Cidade. Durante as guerras napoleónicas, os ingleses também quiseram conquistar Macau, mas a população indignada e com a ajuda do Imperador JIAQUING expulsaram os invasores em Dezembro de 1808. Como recompensa para este auxílio chinês, Portugal ajudou a China contra um pirata (KAM PAU SAI) que tinha dezasseis mil homens e mil e duzentas bocas-de-fogo. Este pirata acabou por se render a Arriaga, em 21 de Janeiro de 1810.

A recente crise de Timor deu para ver como os portugueses têm valores e são capazes de lutar por grandes causas e que mostram querer sair do “adormecimento” ou “hipnose” a que tem estado submetidos.

Com a transferência de Administração de Macau para a China, terminou um ciclo iniciado em 1261 e demonstrou que o conceito de Pátria que vem desde D. Dinis, em que a nossa Pátria é para além da Terra que nos viu nascer, também aquela que viu nascer os nossos pais ou os nossos avós, os nossos irmãos ou os nossos filhos, está completamente ausente para uma geração de portugueses, ou talvez nem tanto, mais interessada em “internacionalismos” ou outros “ismos” que se têm disponibilizado mais ao serviço de outras paragens que não Portugal ou mesmo dos jovens países lusófonos.

Qual o lugar que a História reservará para esta “meia” geração de portugueses? Não a história por eles feita, condicionada e adulterada talvez, mas sim a outra História que os nossos netos e bisnetos irão compilar.



INQUÉRITO:

O QUE PENSA SOBRE  A TRANSFERÊNCIA DE ADMINISTRAÇÃO EM MACAU?

Carla-AzevedoCarla Ferreira Azevedo – Comerciante em Alenquer
Se foi um acordo feito há muitos anos, tem que ser cumprido. De qualquer forma é mais uma perca que nós temos. É mais uma perca que Portugal tem em cima de muitas outras. De qualquer forma foi mais bem feito do que o resto. Foi um acordo mal feito mas temos que cumpri-lo.


Celia-RicardoCélia Ricardo – Secretária do Vereador da Cultura
Não acho muito bem pois aquilo já era nosso há tanto tempo e ainda não consegui perceber porque é que tiveram de mudar. Por um lado se calhar foi melhor assim. A cultura deles é um pouco diferente da nossa, pois é metade portuguesa metade chinesa.


Filipe-LourençoFilipe Lourenço – Comerciante em Alenquer
Ainda não me debrucei sobre o assunto. Penso que isso é uma questão de ordenamento do próprio país. Nunca tomei muita atenção ao que foi feito lá por Portugal e agora uma coisa é certa: a China tem muito mais capacidade que o nosso país. Penso que não vão piorar.


in Jornal D’Alenquer, 1 de Janeiro de 2000 (Editorial)
©Hernâni de Lemos Figueiredo (2000)
director do Jornal D’Alenquer


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