Eduardo Henriques: “Era uma honra para mim fazer alguma coisa pela minha terra”

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Entrevista:
Eduardo Henriques

“Era uma honra para mim fazer alguma coisa pela minha terra”

Eduardo Henriq 3Quando, há três meses, fui convidado para este projecto jornalístico, estava longe de imaginar que a minha primeira entrevista seria com um interlocutor deste nível desportivo. Mas, a disponibilidade por ele demonstrada, que publicamente quero enaltecer, fez com que o aprendiz de jornalista se sentisse ainda mais motivado, e a partir daqui tentar fazer mais e melhor.

Para quem, como eu, conhece o Eduardo há cerca de 20 anos, foi extremamente fácil manter uma conversa descontraída. Tentei que se soubesse como começou, como evoluiu, e como vê o desporto, este homem que tem honrado o nome de Alenquer em muitas pistas e estradas de todo o mundo.

O nosso concelho tem atletas de alto nível, que sentem os problemas do nosso desporto; e só com a colaboração deles será possível iniciar um projecto credível de estruturação, para o concelho de Alenquer.

São exemplos como o do Eduardo Henriques, que levam os jovens a iniciar a prática desportiva, acreditando que talvez os sonhos um dia se tornem realidade. Vamos acreditar que o concelho de Alenquer, fará parte desses mesmos sonhos e será o garante dessa realidade.

JORNAL D’ALENQUER: Qual foi o primeiro desporto que praticaste?
EDUARDO HENRIQUES: Foi o atletismo. Aos dez anos fiz a minha primeira prova, a corrida das vindimas nas Paredes, comecei a treinar uma semana antes e ganhei. A partir daí, vinculei-me ao Sporting Clube de Alenquer, fiz meia dúzia de provas, mas como ficava muito nervoso antes das corridas, disse ao meu pai que não queria mais. Aos onze anos fui para o Sport Alenquer e Benfica onde pratiquei hóquei em patins, voltando já com quinze anos ao Sporting Clube de Alenquer e ao atletismo.

Quando sentiste que o atletismo era a tua modalidade?
Quando fui convidado pelo Prof. Moniz Pereira a ser profissional, e morar no centro de estágio do Sporting Clube de Portugal. Foi um pouco complexo, pois como filho único é complicado deixar a casa para enveredar por um desporto que na altura não tinha grande futuro, e que ainda hoje é um risco. Aí comecei a perceber que podia ser alguém, pois pessoas com conhecimento do assunto mostraram interesse em mim.

O que faz um atleta de alta competição, como tu, para manter uma condição física capaz de responder às diversas exigências da época desportiva?
Um atleta faz muito pouco, a não ser treinar, comer e dormir. Tem que se levar um regime muito grande. Conforme os objectivos que se avizinham, nós vamo-nos preparando, mas perdem-se muitas coisas boas da vida.

Disseste um dia que não tinhas gozado a tua juventude. Foi esse o preço que pagaste pelo teu enorme palmarés?
Eu perdi completamente a minha juventude. Nunca fiz noitadas, e hoje se vou à noite a um bar, estou sempre a olhar para o relógio, e até estranho o ambiente e acabo por não me divertir, pois estou a pensar no treino do dia seguinte, que vai ser duro. Nós estamos em estágio permanente, e quando chega a altura das provas aliviamos um pouco para não andarmos sob pressão. Estou a treinar consecutivamente há um ano, não há feriados, fins-de-semana, até no dia de Natal treinei.

O que sentes quando estás em competição com os africanos? Tens alguma sensação especial?
Dá-me bastante gozo quando consigo ter argumentos para ganhar a alguns e equilibrar a competição Europa / África, mas para isso é preciso trabalhar muito, e aguardar. A determinada altura pensei que ia passar ao lado, mas nunca desisti, batalhando muito como sempre me disse o Prof. Moniz Pereira. Consegui agora uma estabilidade muito grande, tanto psicológica como física; ganhei maturidade.

Sei que treinas muito no nosso concelho. Com a tua experiência, pensas que temos condições de traçado para organizar provas de corta-mato a nível nacional, ou até mesmo internacional?
A nível mundial será difícil, porque são necessários determinados requisitos, tais como, a existência de hotéis e outras estruturas envolventes, de apoio. A nível nacional com certeza que sim. Passo por locais onde por vezes vou a treinar e digo para mim, que sítio bom para fazer um crosse.

Que tipo de apoios tens tido por parte da nossa autarquia?
É muito complexo; o único apoio que a autarquia tem dado é a nível psicológico. Mas não posso criticar, porque o problema já vem do Estado: eu tenho bolsas do Estado, de medalhas que conquistei há mais de um ano, e ainda não as recebi. Se o Governo não ajuda, é difícil às autarquias apoiar, pois têm outros assuntos com que se preocupar, é preciso ver que em pleno século XXI ainda estamos a tratar dos esgotos.

Que reservas para o teu futuro como cidadão? Pensas ficar ligado ao desporto?
Em termos de clube (Maratona), não estou a pensar nisso. Eu sonho com um projecto aqui em Alenquer, porque temos bastante matéria-prima, locais de treino, pistas a trinta e poucos quilómetros, mas faltam apoios, e os apoios não podem ser só psicológicos, têm que ser palpáveis. Pode haver muito boa vontade mas se não houver dinheiro não se consegue nada; até os miúdos precisam de incentivos. Levei um jovem para o Maratona, que estava a treinar na Sociedade Recreativa do Camarnal, ele passou agora a júnior e está satisfeitíssimo, porque tem mais e melhores condições para ser um excelente atleta.

A exemplo do que acontece com o Fernando Mamede na Câmara Municipal de Azambuja aceitarias exercer alguma actividade autárquica no nosso concelho?
Gostava de fazer alguma coisa pela minha terra, mas depende da autarquia, e isso não se põe em causa, porque se houvesse algum fumo, e não há fogo sem fumo, já me teriam dito alguma coisa; nem sequer pensam nisso. Em conversa com o meu amigo João Benavente, que me perguntou se já tinha tido algum contacto com a Câmara Municipal de Alenquer, eu disse que não, e ele questionou como é que um atleta do meu nível não é aproveitado para alguma coisa; infelizmente é assim. Podiam fazer-se coisas muito boas no concelho de Alenquer, porque como já disse, há matéria-prima e pessoas humildes; não se pratica desporto sem humildade. Eu vivo em Alenquer, e já fui convidado para colaborar com a Câmara Municipal de Azambuja. Do fundo do coração, fico sentido. Será que sabem o que é que estou a fazer, a que nível estou? Por vezes interrogo-me em relação a isto; é duro de engolir.

Quais as perspectivas como atleta?
O fim da carreira pode ser já amanhã ou daqui por dois, três, quatro anos, quando o corpo quiser, não é bom andarmo-nos a arrastar. O atletismo é uma ilusão, ganha-se bastante dinheiro mas também se gasta depressa. Eu já me precavi formando uma empresa de transportes, mas o meu camião está parado neste momento, porque preciso de me concentrar só nas provas. Vêm aí tarefas muito difíceis, o campeonato do mundo em Março, e como se vai realizar em Portugal, dá-me responsabilidade dobrada. Estamos a três meses e estou numa forma razoável, gostava de não estar tão bem para depois recuperar até Março. O objectivo para 2000, é tentar manter o nível de 1999.

Eduardo Henriq_2Eduardo António Silva Henriques
Idade: 31 anos (24.03.1968)
Naturalidade: Paredes (Alenquer)

Alguns dos últimos resultados de Eduardo Henriques:
03.10.99 – Campeonato do Mundo de Meia-Maratona (Itália) – 5º classificado
07.11.99 – Campeonato Nacional de Estrada (Benavente) – 1º classificado
21.11.99 – Crosse de Toledo (Espanha) – 1º classificado
28.11.99 – Crosse de Llodio (Espanha) – 2º classificado
12.12.99 – Campeonato Europeu de Corta-Mato (Eslovénia) – 2º classificado
19.12.99 – Crosse de Bruxelas (Bélgica) – 1º classificado
26.12.99 – S. Silvestre do Porto – 2º classificado

Próximas provas:
09.01.2000 – Toledo
16.01.2000 – Sevilha
31.01.2000 – S. Sebastian
Pedro Pires 2

in Jornal D’Alenquer de 1 de Janeiro de 2000, p. 17
©Pedro Pires (2000)
Editor de desporto do Jornal D’Alenquer

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