Hipólito Cabaço: Um pioneiro da Arqueologia Portuguesa

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Hipólito Cabaço: Um pioneiro da Arqueologia portuguesa

zHipoloito Às 24 horas do dia 20 de Setembro de 1885 nascia no lugar de Paiol, freguesia de Aldeia Galega, Concelho de Alenquer, Hipólito Falcão Toar e Athayde Barreto de Almeida da Costa Cabaço, o primeiro filho de Dona Maria da Piedade Barreto de Almeida e Costa e de Manuel da Costa Cabaço, lavrador e comerciante da região.Tendo por objectivo especializar-se no tratamento e fabrico de vinho, Hipólito Cabaço fixa-se, em 1901, na região de Bordéus, sob a protecção do seu padrinho Hippolyte Lassale, conhecido vinhateiro da dita região francesa. Segundo as suas próprias declarações « passava mais tempo nos museus do que nas adegas ». (PEREIRA, 1970) Neles encontrara a sua verdadeira vocação: a Arqueologia.

Com 18 anos regressava a Portugal, dando início às suas primeiras pesquisas arqueológicas. Descobria na Charneca do Espírito Santo instrumentos de pedra lascada, devidamente estudados e classificados por Henri Breuil e Georges Zbyszewski em 1943. O entusiasmo que a descoberta lhe proporcionou levou-o a novos achados, nomeadamente na Charneca do Sabugosa (V. N. da Rainha), na Quinta do César, no Casal do Concelho (Camarnal), e noutros locais do nosso Concelho. Destes sítios retirou um vasto e importante espólio lítico.

Casa em 1913.
De 1920 a 1922 dedica-se às jazidas da Ota. Explora a Caverna da Moura e, em 1925, descobre no Vale das Lajes uma grande jazida paleolítica e uma sepultura, classificada de neolítica pelo Prof. Mendes Correia.

A 24 de Fevereiro de 1927 é chamado a presidir à primeira Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Alenquer. As suas pesquisas continuam e, em 1932, o topónimo Casal da Moura leva-o a localizar o Castelo da Ota, que explorou em 1934. Ainda em 1932 explorou a Gruta de Refugidos. É nesta altura que se relaciona com Rui de Serpa Pinto, pessoa que muito o influencia, e grande responsável pelas pesquisas em Muge. Aí localizou as 2 primeiras grandes jazidas de Muge, Ponte e Pinhal do Coelheiro e, posteriormente, as estações da Malhadinha, Cabeço da Mina, entre outras. Realizou, ainda, prospecções no Castelo de Alenquer.

Os seus trabalhos estenderam-se ao Concelho de Peniche, onde explorou as jazidas paleolíticas da Praia da Consolação, Ferrel, entre outras. A estas juntou novas descobertas no Concelho de Azambuja e de Santarém.

Em 1934 localiza o povoado castrejo da Pedra de Ouro, freguesia de Santo Estevão de Alenquer. Acorreu, ainda, à necrópole lusitano-romana das Paredes.

No ano seguinte, ano de ouro do Mesolítico em Portugal, continuam as investigações na região de Muge, onde descobre o concheiro do Cabeço dos Morros, no Paúl dos Magos. Seguiu-se o achado de concheiros no Concelho de Alenquer. Nessa época terá, muito provavelmente, iniciado pesquisas no Espinhaço de Cão, Ota.

Em 1936 descobre o Castro de Vila Nova de S. Pedro. A partir de 1937 realiza pesquisas nos arredores das Caldas da Rainha, do qual são resultado cerca de dois milhares de quartzites lascadas depositadas, na sua maioria, no Museu Municipal de Alenquer.

No final da década regressa às estações de Muge e faz novas descobertas em Alenquer. Localiza e explora o Monte do Pedregal, vários pontos da Judiaria, do Castelo do Amaral, da Quinta do Bravo.
Descobre, em 1942, em Pedras Moitas, Baleal, restos de um Omosaurus, estudados por G. Zbyszewski. Iniciou as suas recolhas nos terraços do Caia.

Conjuntamente com Eugénio Jalhay estuda a espada de bronze do Moinho do Raposo, descoberta por si em 1943.

Em 1944 vende à Câmara Municipal de Alenquer a sua colecção arqueológica de cerca de 13.000 objectos, e que até então se encontrava instalada na sua Casa-Museu da Calçada do Espírito Santo, Alenquer.

Nos anos 50 retira-se para Abrantes , onde continua a recolher testemunhos do passado. Em 1969 doou ao Museu D. Lopo de Almeida cerca de 100 quartzites lascadas provenientes dos arredores da cidade.

Na Páscoa de 1969, muito diminuído fisicamente pela doença, afirmava ao Pe José Eduardo Martins: « Nunca perdi esta alegria de achar. Só tenho pena de não poder continuar mais tempo».

Autodidacta, por excelência, as ideias e novas descobertas de Hipólito Cabaço abriram novas perspectivas e rasgaram caminhos na investigação científica. Aceitou, resignado, o silêncio que se fez em torno do seu nome, perante uma sociedade que não compreendeu toda a dedicação de uma vida.
«Legou a Portugal a mais extensa e coerente obra de prospecção e exploração dentro dos domínios da Pré-história, realizada na primeira metade do século XX, sobretudo nesse sector ingrato, difícil e controverso que é o Paleolítico». (PEREIRA, 1970)

Falecia a 12 de Fevereiro de 1970, com oitenta e quatro anos de idade, na Quinta da Boa Água, Carregado, deixando de luto a Arqueologia portuguesa, da qual foi um ilustre precursor.


Raquel-Raposo

in Jornal D’Alenquer, 1 de Janeiro de 2000, p. 14
©Raquel Raposo (2000)
Arqueóloga


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