Alenquer: Kallen fecha e deixa 122 pessoas sem trabalho

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CHEGANÇAS:

122 pessoas sem trabalho

Kallen fecha

Surpresa geral. Sem ordenados em atraso e quando tudo parecia correr bem, de França vem a ordem fatídica: encerrar definitivamente as instalações fabris e inicio do processo de despedimento colectivo para todos os trabalhadores. (Ver comunicado à parte).

Jornal D’Alenquer alertado para a situação, esteve presente na manhã do passado dia 2 de Dezembro, às 7:30 horas para assistir à entrada do pessoal e verificou que a consternação era geral, visto entenderem que são demasiados novos para se reformarem e demasiados velhos para procurarem outros empregos ou para a reconversão. Muitos deles estão aqui na fábrica há 25/27 anos. Não foi impedida a entrada dos trabalhadores (119 mulheres e 3 homens) que continuaram a laborar para o stock, o que fazem desde Junho, altura em que o único cliente existente há cerca de dez anos, (Bruno Sant Hilaire-França) deixou de comprar. No entanto já tiveram de fazer uma vigília nocturna, pois havia indícios da existência de um camião, nas proximidades da fábrica, para carregar a mercadoria para a exportação.

Ouvidos dois vizinhos da fábrica disseram que “esta gerência tem feito um bom trabalho, pois não devem nada a ninguém e não têm ordenados em atraso” e “parece muito estranho. Se calhar é para despedirem este pessoal e abrirem com outra gente”.

José António Soares, o gerente da fábrica, disse desconhecer completamente que isto ia acontecer, embora reconhecesse que a Empresa não estava em boas condições. Escusou-se a prestar mais declarações enquanto não chegasse o advogado da Empresa.

Nazaré Rodrigues, funcionária da Kallen e Dirigente Sindical declarou para JA que de momento não tinham dados e que tinha ficado muito surpreendida quando no passado dia 30 de Novembro, pelas 17:00 horas, foi levantar aos CTT de Alenquer, em nome da Comissão Sindical, um documento proveniente dos advogados de Michael Ruscassic a anunciar o triste desenlace. (Despedimento colectivo de todos os trabalhadores e encerramento da empresa).

Também esteve presente uma dirigente do Sindicato de Têxteis, Lanifícios e Vestuário do Sul, Manuela Prates que inicialmente nos disse ser prática no movimento sindical não transparecer nada para a Comunicação Social sem primeiro ouvir os trabalhadores e estes decidirem o que fazer. Qualquer jornada de luta só se fosse assumida por todos os trabalhadores e isso seria resolvido no Plenário convocado para esse dia (02/Dez) pelas 17 horas. Realizado este, os trabalhadores, todos eles associados do Sindicato, mandataram a Comissão Sindical e a Direcção do Sindicato. Entretanto marcaram outro Plenário na fábrica para dia 21/12. Pediram uma reunião na Sub-Delegação do Ministério do Trabalho Vila Franca de Xira, primeiramente marcada para 7/12/99 mas foi adiada para 16/12. Realizada, mostrou-se inconclusiva pois os advogados da Empresa presentes não estavam mandatados para actuar.

O pedido de falência entrou no Tribunal de Alenquer, no passado dia 30 de Novembro. O pedido de falência em si, não pressupõe o encerramento da fábrica, pelo que os trabalhadores continuam a laborar até que se esgote a matéria prima existente ou que seja cortada a energia eléctrica.

As responsáveis sindicais disseram que a entidade patronal prevê que o processo termine em 15/3/2000. Nunca aconteceu nada idêntico pois os trabalhadores se quiserem reclamar só o podem fazer no processo de falência, pois como isto tudo está feito nem ao subsídio de desemprego conseguem candidatar-se. No dia 15 venceu-se o subsídio de Natal e não foi feita qualquer transferência de verba, o que pressupõe não haver subsídio.

Algumas trabalhadoras declararam que, na Câmara foi pedida a desanexação de uns terrenos, mas eles estão considerados no PDM como “reserva agrícola” e o Aeroporto pode estar por detrás desta história toda.

Falaram duma outra fábrica que estaria potencialmente nas mesmas condições. Não quiseram indicar o nome da empresa mas JA chegou lá. Na zona de Pombais, Odivelas fica a HF, Lda., fábrica que só produz casacos. Na impossibilidade de falar com a gerência, que se negou a prestar qualquer declaração, JA ouviu uma funcionária dizer que a fábrica tem 110 empregados e tem mais de um cliente, embora vendam também para França, para VET FRANCE (empresa de Bruno Sant Hilaire? ou de Michael Ruscassic?). Mostrou-se conhecedora do que aconteceu à Kallen, em Cheganças mas também disse que até agora tudo estava normal e, em princípio não temia que o mesmo viesse acontecer nesta fábrica.

Álvaro Pedro

(Presidente da Câmara)

Penso que nesta situação nunca se poderia dar uma falência. Para mim foi uma surpresa. Ainda não tenho informações concretas do que se passou. Estou muito surpreendido como é que se fecha a fábrica dum dia para o outro. Junto do MT de VFX, estou a tentar saber o que é que se pode fazer, pois eu não acredito que seja possível fechar-se assim sem aviso. Sinceramente acho isto muito estranho.

A Câmara não tem nenhum mecanismo de protecção para o pessoal da fábrica.

Sem ordenados em atraso e que tudo parecia correr tão bem. Penso que nesta situação nunca se poderia dar uma falência,

A situação dos terrenos já é muito antiga. Pensou-se em vendê-los para viabilizar a fábrica. A Câmara há um ano passou uma certidão sobre a natureza dos terrenos, consoante estão classificados no PDM e penso que o Aeroporto não influenciou em nada esta situação.



Comunicado Interno

(Comunicado afixado na porta principal da fábrica)
CONFECÇÕES KALLEN (PORTUGUESA) LDA
Para os devidos efeitos informam-se todos os trabalhadores das Confecções Kallen (Portugal), Lda. que a gerência desta empresa decidiu:

1 – Encerrar definitivamente as suas instalações fabris sitas no Casal do Cartaxo, Cheganças, Alenquer.

2 – Apresentar nesta data no Tribunal Judicial da Comarca de Alenquer um pedido de declaração de falência.

3 – Iniciar nesta data o processo de despedimento colectivo que abrangerá todos os trabalhadores.

A decisão agora tomada corre…

Alenquer, 30 de Novembro de 1999

a)) Michael Ruscassic


Hernâni de Lemos Figueiredo

in Jornal D’Alenquer, 1 de Janeiro de 2000, p. 4

©Hernâni de Lemos Figueiredo (2000)

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