SHST: Espírito ou Cultura de Segurança

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Espírito ou Cultura de Segurança

Para um não fumador, respirar numa atmosfera viciada com fumo de tabaco durante quatro horas, significa para a saúde o mesmo que fumar dez cigarros sem filtro!…

Praticamente, logo após o nascimento, em atitudes e reacções assumidas, o ser humano manifesta um instinto natural de autodefesa que se vai acentuando no decurso do seu desenvolvimento físico.

Não será, certamente, por acaso, que quando em fase inicial de mobilidade, e na perspectiva de uma queda, o bebé coloca as suas frágeis “mãozitas” à frente, procurando assim impedir que a sua ainda mais sensível “cabecita” sofra com o impacto do corpo no chão. Inúmeras atitudes similares tornam-se mais ou menos evidentes ao longo do tempo, podendo pois, afirmar-se que, por natureza, o ser humano é provido de um espírito instintivo de segurança.

De certo modo, o mesmo acontece com grande parte dos animais ditos irracionais. Atente-se, por exemplo, na posição que um gato toma no ar, ao cair de grande altura. O seu instinto leva-o a procurar uma posição de queda, que lhe proporcione um impacto com o solo o mais amortecido possível e, consequentemente, um mínimo de dano físico. Há pois, implícita, uma intenção de salvaguarda da integridade física. Pode assim concluir-se que, na generalidade, os animais são providos de instinto natural de segurança para a sua própria defesa.

Se assim é, qual será então a razão que leva o homem – ser inteligente e que dispõe cada vez mais de informação e formação científica e tecnológica, que lhe permite tomar, conscientemente, conhecimento aprofundado dos riscos potenciais a que está sujeito – a afastar-se frequentemente desse instinto natural que lhe foi concedido pela Natureza? É certamente assunto de alguma complexidade, a que só especialistas na área comportamental, nomeadamente, psicólogos, antropólogos e sociólogos, poderão dar resposta conclusiva. É legítimo, no entanto, reflectirmos sobre aspectos que observamos quotidianamente, em que o ser humano apresenta atitudes de manifesta fraqueza, deixando-se facilmente vencer por emoções, interesses e vícios adquiridos, muito divergentes da inteligência que efectivamente possui.

Vejamos pois alguns exemplos:
– Todos sabemos os graves malefícios que o tabaco provoca. No entanto, continua a fumar-se “desalmadamente” e, em muitos casos, em recintos fechados, desrespeitando, manifestamente, não só a própria saúde, como também a de todos os circundantes. Atente-se que, o tabaco contém cerca de 3000 substâncias nocivas, e que, para um não fumador, respirar numa atmosfera viciada com fumo de tabaco durante quatro horas, significa para a saúde o mesmo que fumar dez cigarros sem filtro!…

– Todos sabemos as graves implicações que o excesso de álcool provoca e, no entanto, existem cada vez mais, locais onde se incentiva o seu consumo, grande parte deles destinados quase exclusivamente a jovens, encontrando-se Portugal também aqui, no topo dos maiores consumidores de álcool da Europa e até mesmo do mundo.

– Todos sabemos os perigos a que nos sujeitamos pelo não cumprimento do Código da Estrada, mas continua a verificar-se, com grande evidência, o manifesto incumprimento das suas regras mais elementares, apesar dos esforços enormes que as autoridades competentes vêm desenvolvendo para o evitar, sendo que, também aqui, Portugal se encontra, e de que maneira, no topo da Europa a nível de acidentes de viação.

– Será que não somos capazes de inverter esta situação, consubstanciada numa tão manifesta falta de espírito de Segurança, e que, com atitudes simples, pouco ou nada difíceis de consumar, tantos benefícios poderiam significar?

– Será assim tão difícil, por exemplo, ao pretender atravessar uma rua ou estrada, fazê-lo com a devida atenção, no local apropriado, isto é, dentro da faixa reservada aos peões (quando existe), em vez de o efectuar a escassos metros desta, ou mesmo ao lado (como tantas vezes sucede), e que, logicamente, implica um risco muito mais elevado de acidente?

– Será que é lícito continuarmos a praticar atitudes de fachada, aparência e “deixa andar”, tão peculiares entre nós, em vez de estabelecermos maior rigor no cumprimento de regras simples e úteis, devidamente legisladas e cujo frequente desrespeito tanto nos prejudica, especialmente em aspectos relacionados com a actividade laboral?

Vejamos, a este respeito, um simples exemplo:
Para que servem as múltiplas sinalizações de segurança legalmente afixadas em painéis, nas mais diversas obras de construção deste país, indicando obrigatoriedade na utilização dos vários Equipamentos de Protecção Individual (EPI) e outras com idêntica relevância, se a maior parte delas não é minimamente cumprida e os próprios responsáveis directos pouco ou nada fazem para modificar a situação?

Será que nós, portugueses, com tantas e tão relevantes provas dadas por todos os cantos do mundo, só no estrangeiro somos capazes de cumprir satisfatoriamente algumas dessas obrigações fundamentais, particularmente naqueles países em que o seu incumprimento poderá significar prejuízo imediato ou onerosa punição?

Com mais de oito séculos de existência, o nosso país encontra-se já suficientemente amadurecido, e conta ainda, felizmente, com vasta percentagem de cidadãos honestos, sensatos, trabalhadores e competentes, nos mais diversos sectores de actividade laboral, pelo que, deveremos considerar como absolutamente legítima, a aspiração em obter resultados bem mais positivos em todas estas matérias.

Será lógico, pois, apelar para que cada um de nós passe a reflectir um pouco mais sobre estes e tantos outros aspectos que se nos deparam, e que, com algum empenho e a nossa inteligência, alimentemos positivamente o aludido instinto de que fomos naturalmente dotados. Se assim vier a acontecer, certamente alcançaremos um efectivo “espírito ou Cultura de Segurança”, que virá a repercutir-se, significativamente, na saúde, no respeito por nós próprios e pelo nosso semelhante e, consequentemente, num melhor desenvolvimento económico e bem-estar social.



Helder-Baptista

in Jornal D’Alenquer, 1 de Fevereiro de 2000, p. 20
©Helder A. Baptista (2000)
Lic.º Engª Máq. Especializado em SHST (IST)

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