A lição do Prof. Guapo

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Alenquer

A lição do Prof. Guapo

Rui Pinheiro, Pe José Eduardo, Prof. Rodrigues Guapo e o próprio anfitrião, juntos num acontecimento cultural, que só é possível devido ao prestígio de João Mário

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Galeria João Mário, em Alenquer, 6 de Fevereiro de 2000. Lá estávamos todos… e mais alguns! À “velha-guarda” (avós e bisavós) juntou-se a juventude e os pais da juventude. Éramos – na estimativa repentina do Padre Zé – cerca de 150 pessoas. Sentados e em pé; assistindo e participando. O Padre Zé prendeu os que iam chegando (“quem não tiver lugar fica em pé…”), aglutinando-os à volta da vontade de participação: – «aqui estou porque o assunto me interessa e quero contribuir para a divulgação destes acontecimentos únicos em Alenquer!»

É verdade: este tipo de acontecimento cultural é mesmo único e só uma pessoa como o João Mário consegue realizá-lo. É o prestígio dele que o torna possível. É a sua característica de saber receber e mostrar o que tem para mostrar – uma vida inteira dedicada às formas de arte e de humanismo que aprecia e que cultivou naturalmente. São, ainda, aqueles pedaços de vida expressos na sala atrás do auditório (mal conhecida do público e ainda incompleta) – uma espécie de cantinho das recordações: a família, a actividade de pintor, os amigos, a vivência da Câmara, a juventude, os mestres, e aquela frase (não fiel) que diz que “se não tens recordações, talvez não tenha feito sentido viveres”.

Joao-Mario2Perante isto, não importa discutir se a arte do João Mário é figurativa ou não-figurativa. É claro que é figurativa, tantos são os temas da sua galeria que o demonstram: espaços agrícolas, terras, vilas e cidades, rios e atracção da água, Alenquer em todos os seus ângulos – antigos e modernos -, grandes edifícios históricos, aproximação ao divino. Nas suas diversas formas de expressão artística, há no João Mário a preocupação de fixar e perpetuar o que viu, escolheu, leu, estudou, pensou. Como ele mesmo disse, pode ter levado mais de um ano a discutir consigo mesmo a luz, os reflexos, a hora, o enquadramento e a oportunidade de um motivo, mas o que passou à tela reflecte a sinceridade da sua visão do mundo (além da técnica apurada, claro).

É obrigatório também falar do professor Rodrigues Guapo e da naturalidade, eficiência, espontaneidade e simplicidade com que se exprimiu naquela tarde. Não quis dar-nos uma lição. Falou de uma forma de aproximação à história da arte e de tudo o que o estudo e o gosto implicam no plano do pensamento. Não deixou até de nos abrir portas: teceu considerações sobre a arte “figurativa” mas não deixou fechadas – antes pelo contrário – as possibilidades de nos interessarmos por outros (tantos!) movimentos nos caminhos da arte.

Dentro dos limites do tempo disponível quis explicar-nos, em linguagem acessível,

• Que o João Mário e o Rui Pinheiro eram dois pintores figurativos, mas não meros copistas da natureza.
• A conquista da profundidade – contrariando a rigidez da sua falta durante tantos séculos, ao nível do plano a duas dimensões.
• A importância da perspectiva revolucionada por Filippo Brunelleschi [1377-1446] e elogiada por Leonardo da Vinci [1452-1519], quer em termos de convergência quer em termos de perspectiva aérea.
• A técnica de utilização de fotografia (ou de câmara-escura) como base da pintura. Degas [1834-1917] usou-a. Maurice Utrillo [1883-1955] também. Em muitas paisagens urbanas trabalhou frequentemente a partir de fotografias de postais ilustrados.
• Respondendo a uma pergunta da assistência, a utilização da luz artificial não é em si mesma um óbice. Por exemplo, Van Gogh gostava de pintar à noite, à luz de velas.
• A diferença entre a pintura a aguarela e a pintura a óleo e as diferentes técnicas usadas desde a “têmpera”, forte e translúcida [a aglutinação de pigmentos em pó com um agente solúvel em água], ao óleo [Jan van Eyck – 1390-1441] e ao fresco – técnica de pintura mural, na qual são aplicados pigmentos sobre argamassa húmida [Itália, entre os séculos XIII e XVII, com Giotto, Masaccio, Miguel Ângelo e muitos outros, até ao século XX com Orozco e Rivera].
• As dificuldades da aguarela [técnica na qual são usados pigmentos aglutinados com goma em base aquosa] que requer grande perícia, já que a sua translucidez interdita o recurso a camadas de tinta sobrepostas.
• A invenção da bisnaga que tornou possível a pintura ao ar livre e, consequentemente, o movimento revolucionário do impressionismo.
• A importância da força mental que preside ao acto de pintar, já destacada por Leonardo da Vinci.
• A experiência constante como exigência do pintor “não há pintores de domingo”.
• A importância fundamental do desenho como base da pintura, pelo menos na perspectiva figurativa “o impressionismo é uma revolução onde o desenho ainda está presente, mas a forma começa a ser alterada”.
• As referências, embora apressadas por falta de tempo, às tendências impressionistas, abstractas, cubistas, hiper-realistas, etc.
• A função social do artista-pintor: a admiração e o interesse dos outros que despertou e desperta, e a luta que teve de travar para se organizar fora das corporações nas quais esteve inserido durante séculos.
• As lutas de libertação desencadeadas pela inserção na arte liberal, e o exemplo de Miguel Ângelo quando recusou ao Papa cobrir com mantos os corpos nus do Juízo Final.
• A admiração por Cézane pela luta que teve de travar em vida (quase expulso da sua terra; apupado pelos miúdos que o mandavam “pintar macacos”; não conseguindo vender um quadro; etc.) comparada com a actual idolatria em Aix, onde as suas próprias pegadas estão marcadas no terreno.

Está claro que – para além das confusões que eu próprio possa ter criado nesta descrição sumária das palavras do professor Rodrigues Guapo – houve muitíssimo mais que ficou por dizer sobre a história da arte e da pintura em particular. É normal que assim aconteça: as pistas lançadas são apenas isso – pistas para investigar melhor, ler, compreender, discutir, apurar. Ficaram, porém, as bases que o professor apontou e o estímulo que obriga à continuação.

Joao-Mario3Independentemente de toda esta importante lição, ainda bailam na cabeça as palavras finais do João Mário: – “Um quadro não vale só pela técnica de pintura. Vale também pelo motivo e pelo enquadramento”. E, já agora, aquela outra problemática levantada por ele: “levo muito tempo a conceber um quadro – às vezes mais de um ano. A luz, a hora, a oportunidade, o motivo e o enquadramento arrastam-se no tempo – mas quando tomo a decisão sou rápido”. Como, ao que parece, acontecia com o seu mestre Álvaro Duarte de Almeida: – “sim, porque eu para fazer isto em meia-hora levei 20 anos a pensar no assunto!”

Depois desta lição de arte, é pouco significativo saber quem ganhou: se o João Mário (óleo) se o Rui Pinheiro (aguarela). João Mário apresentou o que fez apenas com um comentário que justificou a utilização de cores mais escuras em primeiro plano, as quais empurram o olhar para os planos mais afastados; Rui Pinheiro justificou o facto de considerar imperfeito o que pintou com a alegação de que precisava de mais meia-hora – faltava ali alguma força, o que para o leigo na matéria não salta à vista.

Uma sugestão minha para o futuro: embora a execução de pintura à vista de todos não deixe de ser uma ideia interessante, creio que seria ainda melhor se as palavras do João Mário, Rui Pinheiro, professor Rodrigues Guapo e Padre Zé fossem acompanhadas por exemplos já pintados, cabendo aos oradores discuti-los, comentá-los, enquadrá-los quanto às técnicas, escolas, tendências e história artística. É apenas mais uma ideia que aproveitarão ou não. Caso fosse possível, poderia até recorrer-se à utilização de vídeos e projecções. A ideia central seria ensinar as pessoas a ver, apreciar e discutir um quadro.

Mas, acima de tudo, o importante é continuar a apostar na divulgação cultural, em paralelo com outras actividades do mesmo tipo que têm sido desenvolvidas no concelho de Alenquer.

Fotos de: Mário Pires



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©Pedro Soares e Silva (2000)
in Jornal D’Alenquer, 1 de Março de 2000, p. 14

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