À memória de… Teófilo Carvalho dos Santos

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À memória de… Teófilo Carvalho dos Santos

Transformou Alenquer num santuário da Democracia, onde os seus adoradores vinham uma vez por ano em peregrinação, procurar ânimo para as suas lutas.


Dr. Teófilo Carvalho dos Santos

Dr. Teófilo Carvalho dos Santos

Pediu-me o Director do “Jornal D’Alenquer” que lhe preste a minha colaboração, escrevendo algumas linhas para invocar a memória do Dr. Teófilo Carvalho dos Santos, que pretende homenagear.

Acedi de imediato e gostosamente, até porque, à partida, a tarefa se me apresentava extremamente fácil. Verifico agora, a ligeireza dessas primeiras impressões, pois que, à medida que vou alinhavando mentalmente algumas ideias, sinto que estou longe de possuir as capacidades necessárias para desempenhar a contento a tarefa que me foi cometida, tão multifacetada e tão rica é a vida do biografado. Peço, pois, desculpa pela modéstia do trabalho e, sobretudo, por nele incluir algumas recordações de índole pessoal, que poderão parecer despropositadas.

Conheci o Dr. Carvalho dos Santos a quando, com os meus infelizmente já longínquos dez anos de idade, deixei a escola do professor Gonçalves, a sua célebre régua e a sua não menos célebre bengala, e armado da minha quarta classe fui trabalhar para o Tribunal, como empregado do escrivão Adalberto Silva. Foi esse o meu primeiro contacto com aquilo que viria a ser toda a minha vida e que, então e apropriadamente, se chamava a “família judicial”.

Magistrados, advogados, solicitadores, funcionários, constituíam na realidade uma autêntica família, o que era facilitado pelo então reduzido número dos seus membros. Basta dizer que os advogados eram apenas cinco, e solicitadores apenas dois. Mas depressa me apercebi que nessa família, o Dr. Carvalho dos Santos, com o seu prestígio, era considerado como aquilo a que os latinos chamaram de “primus inter pares”, gozando da maior consideração, quer pessoal, quer profissional entre todos.

A partir daí o nosso contacto não mais se perdeu e veio a atingir aspectos de grande amizade, que muito me honrou e que sempre tentei colocar no devido lugar, pois era muito o respeito e a consideração que a sua figura me merecia.

Veio o MUD – Movimento de Unidade Democrática, de que foi um dos maiores entusiastas fundadores e animadores, e lembro-me bem que, apesar da minha juventude, assisti entusiasticamente a algumas sessões que se realizaram em Alenquer, e lembro-me bem que, a seu pedido, o meu pai montou na nossa casa um “escritório” onde as pessoas de Paredes iam fazer ou assinar requerimentos, a pedir a sua inscrição nos cadernos eleitorais, como à época era obrigatório, a maior parte dos quais tiveram o inglório destino do cesto dos papéis da Câmara Municipal, onde foram entregues.

Como disse, houve depois um contacto quase diário, que a nossa vida profissional, muito próxima, nos proporcionava e também, porque não dizê-lo, o seu exemplo a servir de moldagem às minhas convicções políticas, moldagem essa que teve, para além do seu exemplo, a colaboração de mais alguém… o meu pai, entusiasta da oposição ao chamado Estado Novo e que , dentro das suas possibilidades, tinha algum passado de intervenção nesse campo, o Dr. Mário de Brito, primeiro meu patrão, depois meu padrinho e depois meu colega de escritório, aquando da minha independência profissional, e o Dr. Moura Gomes, médico que à medida que ia dedicada e gratuitamente tratando das minhas maleitas, me ia entusiasmando com as suas histórias de resistência à ditadura, nos seus tempos de estudantes. Curiosamente, todos eles com uma coisa em comum – a admiração pelo trabalho do Dr. Carvalho dos Santos na luta pela Democracia.

Foi pela mão do Dr. Carvalho dos Santos, seu iniciador, que fui, então com os meus quinze anos, ao meu primeiro jantar do 5 de Outubro, ao que me recordo, realizado na velha pensão do Zé Galinha, na Rua Triana, onde me juntei a uma plêiade de republicanos e de opositores ao Governo da época. E por aí continuei até chegar, por algumas vezes, a ser responsável oficial por esse evento, assinando os requerimentos em que se pedia ao Governador Civil autorização para a sua realização, com o argumento de que não haveria intervenções de ordem política, mas apenas brindes alusivos à data que comemorava!…Claro que os Governadores Civis não engoliam a patranha e era o elevado conceito em que, apesar da sua situação de oposicionista, tinha o Dr. Carvalho dos Santos e o prestígio que dele resultava que conduzia no deferimento do pedido.

Acerca desses jantares disse um dia o meu querido Amigo Dr. Almeida Santos, com toda a elegância da sua palavra, que o Dr. Carvalho dos Santos tinha transformado Alenquer num santuário da Democracia, onde os seus adoradores vinham uma vez por ano em peregrinação, procurar ânimo para as suas lutas. E era verdade!

Quando nos debruçamos sobre o que foi a história dos quase 50 anos de luta contra a ditadura e o salazarismo, metido no que foram as grandes manifestações públicas dessa luta – o MUD, as campanhas presidenciais do General Norton de Matos, do Almirante Quintão Meireles, do General Humberto Delgado, metido no que foram os mais sigilosos aspectos dessa luta, que a história agora vai pondo a claro, como sejam as mais diversas tentativas revolucionários, infelizmente fracassadas, vamos encontrar constantemente o nome e a figura do Dr. Carvalho dos Santos, sempre na primeira linha, sempre a dar a cara, mesmo sabendo os dissabores que daí poderiam resultar, como algumas vezes resultaram, como todos sabemos, pois foi por diversas vezes “hóspede” e em alguns períodos prolongados, das cadeias da PIDE.

Foi o Dr. Carvalho dos Santos um dos fundadores do Partido Socialista e mais uma vez nos encontramos ambos nos primórdios da luta pela afirmação política e nas que lhe seguiram, para a defesa da Democracia e da Liberdade, onde, às vezes, o seu exemplo e o seu entusiasmo nos contagiava para ultrapassarmos situações difíceis, onde, outras vezes, a sua palavra experiente e assisada servia de travão para os nossos entusiasmos extemporâneos.

Poderia, então ter desempenhado os mais elevados cargos políticos, pois não lhe faltaram convites para tal e insistências para que os aceitasse. Nunca aceitou ser ministro ou o desempenho de outras funções que não as de deputado.

E aí chegou à Assembleia da República, cargo que desempenhou com a mesma descrição com que sempre se conduziu na vida democrática, mas com a maior dignidade, o que lhe mereceu o maior respeito e o maior carinho de todos os seus pares. Sucedendo a figuras prestigiadas, soube honrar, de forma a merecer os maiores elogios, essas funções de segunda figura da República.

Todos os que com eles contactamos nessa época, nos recordamos, com simpatia, das dificuldades em aceitar as peias que o cargo lhe trazia, sobretudo em questões de segurança e o entusiasmo com que, em cada fim-de-semana e mal chegava a Alenquer, nos procurava para saber as tarefas que havia para desenvolver, o que fazia como se fosse o mais simples militante do Partido, tal o entusiasmo que punha nesse convívio semanal connosco.

Com a chegada da Democracia aos órgãos autárquicos, foi o primeiro candidato do Partido Socialista à presidência da Assembleia Municipal de Alenquer, cargo que desempenhou com a mesma dignidade e a mesma vontade de servir que viria a desempenhar depois o de Presidente da Assembleia da República.

Todos nos lembramos que a época não era fácil e, embora então já houvesse uma ampla maioria do Partido Socialista na Assembleia, a direcção dos trabalhos revestia-se, por vezes, de algumas dificuldades, que sempre soube ultrapassar, graças ao bom senso e tem cordato que punha na sua direcção.

Ainda hoje, para mim, que orgulhosamente ocupo, por vontade dos meus pares, o lugar que foi seu, constituí um precioso ponto de referência. O próprio Álvaro Pedro, Presidente da Câmara Municipal, várias vezes se tem referido à influência do Dr. Carvalho dos Santos na sua aproximação à vida política e quando preciosos foram para ele – e para todos nós, diga-se, os conselhos que dele recebeu nos primeiros mandatos.

Antes de terminar, peço licença para me apropriar de duas afirmações que retratam perfeitamente o que foi o Dr. Teófilo Carvalho dos Santos e a sua intervenção, quer pela restauração da Democracia no nosso País, quer posteriormente, ambas feitas no dia do seu funeral.

No cemitério, disse o Manuel Alegre que o Dr. Teófilo dos Santos foi um homem do 25 de Abril, antes do 25 de Abril ter sucedido, pois foi figura preponderante na plêiade de lutadores que “adubaram” a seara que permitiu aos militares que a Revolução fosse o êxito que todos nós saudamos. Um jornalista, creio que do extinto semanário “O Jornal”, escreveu, nessa data, que apesar da modéstia com que se apresentava, o Dr. Carvalho dos Santos foi o socialista mais socialista que conheceu, impondo-se pela sua conduta exemplar.

Termino, com a certeza do que terei correspondido muito mal ao pedido que me foi feito, pois que, por muito engenho e arte que fosse possível trazer para este trabalho – e não é esse, tudo quanto escrevesse ficaria necessariamente aquém da figura que me foi pedido para retratar.

Agradeço ao Director do “Jornal de Alenquer” por me ter feito este convite, que me permitiu dizer alguma coisa sobre alguém que me é muito caro e fazer, ao mesmo tempo, uma viagem rápida por alguns aspectos do meu passado, uns mais remotos, outros mais recentes.

Peço desculpa por ter abusado desse convite, com algumas alusões de ordem pessoal.


Carlos-Cordeiro



©Carlos Cordeiro (2000)
in Jornal D’Alenquer, 1 de Março de 2000, p. 21

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