Arqueologia em Ota

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Arqueologia em Ota

A Freguesia de Ota, a mais extensa do nosso concelho, é constituída por uma vasta planura, com ligeiras elevações, quebrada pelo Monte Redondo e pela ribeira de Ota, afluente do Rio Tejo. Com cerca de 46 Km2, esta é, sem sombra de dúvida, uma freguesia com grande potência arqueológica.

Algumas jazidas arqueológicas foram identificados por Carlos Ribeiro, considerado como o pai da Pré-História portuguesa, mas, maioritariamente, a sua descoberta deve-se a Hipólito Cabaço.

Na década de 60 do século passado, aí recolheu o geólogo Carlos Ribeiro, em terrenos que classificou do Quaternário, peças de sílex e quartzite, talhadas por mão humana.

Em 1871, usando a terminologia de Bourgeois, passa a classificar esses solos de terciários, e a designar os objectos que lá havia recolhido de eólitos. No ano seguinte apresentou, no 6º Congresso Internacional de Antropologia e Arqueologia Pré-Históricas, realizado em Bruxelas, uma colecção de eólitos, que classificou de terciários, pretendendo provar a existência humana numa época tão recuada como o Miocénico,(1) É a teoria da existência de uma fase anterior ao Paleolítico: o Eolítico. Na altura, a maioria dos arqueólogos refutou tal classificação.

Pela persistente acção de Carlos Ribeiro, o Congresso Internacional, já acima referenciado, marcou uma sessão em 1880, para Lisboa, tendo como objectivo primordial discutir se haveria, ou não, provas desse Homem Terciário, bem como examinar, no local, as jazidas de Ota, de onde haviam sido recolhidas as tais peças líticas.

Assim, no dia 22 de Setembro de 1880, 150 cientistas visitaram a área arqueológica da Ota. De manhã, prospectaram o Monte Redondo, montanha do Jurássico, com 212 mt de altura. Posteriormente ao almoço seguiram para a colina do Archino, onde examinaram, ao longo de 4,5 km, as camadas de um profundo corte. Aí puderam verificar a sobreposição de diversos estratos miocénicos.

Durante a visita foram recolhidas numerosas peças, tal como lascas e outras parecendo núcleos, às quais a maioria dos investigadores não reconheceu autenticidade, como tendo sido fabricadas pelo Homem.

O Professor Mendes Correia, no seu artigo ” O Homem Terciário em Portugal “, menciona as peças lascadas de sílex e quartzite da região da Ota. Opinou que os objectos encontrados não se tratam de eólitos, mas sim pseudo-eólitos resultantes de causas naturais.

Em Portugal, a teoria dos eólitos terciários teve seguidores, como foi o caso de Nery Delgado que, em 1889, apresentou a comunicação “Os sílex terciários da Ota”, no Congresso Internacional de Paris. Sobre eles trocaram impressões Rui de Serpa Pinto e Hipólito Cabaço em correspondência pessoal datada de 4 de Setembro de 1931.

Em 1942, Henry Breuil e Georges Zbyszewski fazem uma revisão dos designados eólitos terciários recolhidos por Carlos Ribeiro na região da Ota. Concluíram que, na sua maioria, os objectos eram resultantes de acções naturais, como sendo o fogo, a pressão do solo, as acções atmosféricas e tectónicas, bem como acidentes provocados por pancadas de charruas ou carroças. Consideraram que, à volta do Monte Redondo, existem dois níveis do Quaternário, onde existem, dispersos, instrumentos de sílex, quartzo e quartzito datáveis do paleolítico. Desta forma, os Autores concluíram que parte dos objectos recolhidos por Carlos Ribeiro, como os eólitos terciários, é trabalhada, mas datando do Quaternário. (2)

Breuil e Zbyszewski chegaram à conclusão de que a teoria dos eólitos formulada pelo já mencionado geólogo se devia a erros de interpretação na tipologia dos instrumentos líticos, bem como da classificação dos sedimentos de onde haviam sido recolhidos. No entanto, e segundo opinou o Sr. Prof. Doutor M. Farinha dos Santos, a questão dos eólitos não ficou solucionada. A tão contestada tese do Homem Terciário, da qual Carlos Ribeiro foi um acérrimo cultor, pode vir a ser comprovada por achados antropológicos e líticos das últimas décadas.

Entre 1920 e 1922, Hipólito Cabaço, insigne arqueólogo do nosso concelho, dedica-se às jazidas da Ota. Em 1920 explora a Caverna da Moura, retirando daí materiais característicos dos períodos paleolítico e neolítico.

Em 1925, H. Cabaço descobre na Quinta do Vale das Lages, Ota, sua propriedade, uma grande jazida paleolítica. Aí recolheu ossos humanos e sílex talhados, aparecidos em terrenos miocénicos. Localizou, também, uma sepultura, estudada pelo Sr. Prof. Mendes Correia, e que a considerou como datável do neolítico antigo. O Prof. Doutor M. Farinha dos Santos aponta, para este local, ocupações datáveis dos períodos paleolítico inferior, epipaleolítico e calcolítico.

No ano de 1932, seduzido pelo topónimo Casal da Moura, Hipólito Cabaço localiza o castro de Ota, que viria a explorar parcialmente. Situa-se próximo dos “Olhos de Água”, dominando a margem direita da ribeira de Ota, que o torna quase inacessível a oriente.

Elevado no alto de uma elevação jurássica, aproximadamente a 185 m de altitude, o castro encontra-se inacessível, por uma defesa natural, nas encostas abruptas a norte e a sul. Do lado ocidental, em que seria mais dificultada a sua defesa, foram construídas duas ordens de muralhas, identificadas pelo explorador.

No extremo sul, onde se situava a entrada desta fortificação, foram identificados vestígios de um possível bastião, que serviria para defender-lhe o acesso. Ainda dentro do castro foram identificados vários fundos de cabana, circulares e rectangulares.

Deste povoado fortificado foram recolhidos testemunhos de cinco milénios, que vão do neolítico até ao domínio árabe. De entre os objectos recolhidos encontram-se machados polidos, cerâmica, objectos metálicos, cerâmica e moedas romanas, assim como árabes. Actualmente o terreno do castro encontra-se coberto de pinheiros.

Ainda nessa década fez novas descobertas, Casal do Buteco (paleolítico inferior) e Quinta da Moita (paleolítico e calcolítico) à volta das Águas da Ota. Em 1935 teria, muito possivelmente, iniciado pesquisas no Espinhaço de Cão, de onde retirou exemplares de indústrias do paleolítico.

Existem, ainda, na região da Ota, cavidades subterrâneas e abrigos com níveis arqueológicos, que se situam a oriente do referido castro, na margem esquerda da ribeira.

A situação referida no parágrafo antecedente não foi alheia às preocupações de Hipólito Cabaço que, acerca da mesma, dirigiu uma carta ao então Ministro da Guerra, com o propósito de obter ajuda para as suas explorações, sem, contudo, ter obtido os apoios necessários.

Sendo certo que nos últimos anos se elaboraram estudos, tendo como objecto o património arqueológico do nosso Concelho, pode-se afirmar, sem grande margem de erro, que grande parte da história da Freguesia de Ota se encontra, ainda, encerrada nos arquivos da terra, sem terem sido levados a cabo trabalhos exaustivos e sistemáticos que permitam obter um tratamento adequado da matéria.





1 O Miocénico é uma das quatro grandes divisões da Era Terciária – Era em que apareceram os primatas. É anterior ao aparecimento do Homem actual.

2 A Era Quaternária é caracterizada pelo aparecimento do Homem e pela sua evolução. É a era mais recente da história da Terra ( 2 ou 3 milhões de anos




Raquel-Raposo

in Jornal D’Alenquer, 1 de Março de 2000, p. 26
©Raquel Raposo (2000)
Arqueóloga


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