Camões e Alenquer (III): As pretensões de Alenquer – Mais argumentos

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Camões e Alenquer (III)

As pretensões de Alenquer (Mais argumentos)

“Criou-me Portugal na verde e cara Pátria minha, Alenquer…”

Em 1896 Guilherme J. C. Henriques publica o 1.º volume dos Inéditos Goesianos (1). Nele trata das várias mulheres de Rui Dias de Góis, pai de Damião de Góis. Ao tratar da primeira, D. Inês de Oliveira de Macedo, baseando-se no “Nobiliário de Bernardo Pimenta de Avellar Portocarrero, na Torre do Tombo”, chegará a uma curiosa conclusão:

    “(…) Jorge de Macedo viveu em Santarém pelos annos 1470, e depois, segundo outros authores, viveu em Azambuja. Casou com D. F….. de quem teve (…)
    Y – Anna de Macedo que casou com Simão Vaz de Camões, capitão de mar e guerra na Índia, e foram pais do insigne poeta Luiz de Camões.
    Z – Ignez de Oliveira de Macedo (…) que casou com Ruy Dias de Goes. (Vê-se, pois, [palavras de Henriques] que Ruy Dias de Goes, pelo seu casamento, foi tio do grande Épico: e aqui vamos, talvez, encontrar a explicação das linhas: que tantas questões tem levantado. De facto, desde o momento que sabemos que a tia do grande poeta vivia em Alemquer, e que seu esposo Ruy Dias era das principaes pessoas da terra, tendo um único filho do seu casamento [Francisco de Macedo], nada mais fácil do que o joven Luiz de Camões ser convidado a passar longos tempos da juventude na companhia do primo Francisco; e direi mais, nada mais fácil do que a mulher de Simão Vaz de Camões estar em Alenquer, em casa da irmã, na occasião da sua parturição)”.

Parece, de facto, fácil de conjecturar. Mas, como, a seu tempo, se verá, trata-se de um problema bastante mais complexo. Num artigo intitulado “Origens de Camões”, publicado em 1937, Mario Saa(2), depois de tecer algumas considerações sobre – no seu entender – as verdadeiras origens de Camões, relacionando-as, intimamente, com o espaço ocupado actualmente pelo concelho de Alenquer, afirma, peremptoriamente:

    “João Vaz de Camões casou com Inês Gomes da Silva de quem teve Antão Vaz de Camões que serviu no mar. Este casou com D. Guiomar Vaz da Gama e tiveram Simão Vaz de Camões que também serviu no mar; do casamento dêste com D. Ana de Sá de Macedo, natural de Alenquer (como ele era, também) nasceu em 1517, Luiz Vaz de Camões”.

Mas Mario Saa alerta logo de início que “não é este um artigo demonstrativo dos resultados a que cheguei, mas descritivo, reservando-me para outro lugar a demonstração”. A demonstração, a ter existido não a conseguimos localizar. Saa faz ainda uma alusão a uma carta, a primeira, que Camões terá enviado enquanto permaneceu na Índia, e onde diz: “vivo mais venerado que os touros da Merceana”. Para Manuel da Silva que, em 1941, publica na revista Damianus a Goes, “Alenquer – berço de Camões”(3), “naquela época só um natural do concelho, que tivesse visitado a Casa da Senhora da Piedade, rezado à pequenina Imagem, venerada na Merciana e escutado a narração do aparecimento da Virgem ao boi Messano, se lembraria na Índia dos privilégios dos toiros da Merciana e de aludir a êles em circunstâncias da sua vida”. Manuel da Silva escreve isto depois de dizer que “o imortal cantor das glórias lusas nasceu no concelho de Alenquer e possivelmente na própria vila. Não é de ânimo leve que se pode fazer esta afirmação, documenta-se não só com a palavra de Camões, mas ainda com o estudo e interpretação de outros passos da sua obra”. Referia-se este autor ao Soneto C, “que é quasi uma auto-biografia do poeta”, assim o classifica.

Na mesma revista e no ano seguinte, 1962, Armando Sousa Gomes (4) propõe-se reforçar esta tese: “em 1938, ao estudar a Estância 61, do Canto III dos Lusiadas, de que resultou parte do meu trabalho «Subtilezas Camoneanas», publicado no «Instituto», de Coimbra, vol. 93, págs. 101 a 113, ter adquirido a convicção de que a terra onde nasceu Camões era Alenquer. Com efeito, o poeta mostra nessa Estância, conhecimento íntimo da natureza da bonita vila de Alenquer, frisando a característica particularidade da toada da água das suas fontes; e, por sua vez, alude ao murmúrio de Alenquer que a semi-cerca, desdobrando o topónimo nos dois significados deles, de povoação e de rio. Tal pensamento, exprimindo ritmo de som, é, talvez, o reflexo dum sentimento – a saudade da infância, e contrasta com o elogio histórico que, nos Lusíadas, Camões faz doutras povoações”. Sousa Gomes apoia-se ainda no Soneto C, e, no entre outras considerações, estabelece uma curiosa analogia entre a Ilha dos Amores, descrita por Camões nos Cantos IX e X d’ Os Lusiadas e as festas do Espírito Santo que tiveram início em Alenquer.

A partir daqui, e em termos de pretensões alenquerenses sobre a naturalidade de Camões, pouco ou nada, até hoje, se terá avançado.




(1) Guilherme João Carlos Henriques (da Carnota), Inéditos Goesianos, vol. I – Documentos, Lisboa, 1896.
(2) Mario Saa, Origens de Camões, in Dário de Lisboa – Suplemento Literário, 7-10-1937.
(3) Manuel da Silva, Alenquer – Berço de Camões, in “Daminanus a Goes”, ano I, nr, 1, Lisboa, MCMXLI.
(4) Pátria de Camões, in “Damanus a Goes”, ano I, n.º 3, Lisboa, MCMXLII.



Filipe-Rogeiro

©Filipe Soares Rogeiro (2000)
Licenciado em História
in Jornal D’Alenquer, 1 de Março de 2000, p. 27

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