Entrevista a… Andrade Santos

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“Viagens na Nossa Terra” ou troca de experiências culturais

Entrevista a… Andrade Santos
(Director do Gabinete de Estudos Torreenses)

“Deve-se criar uma barreira entre a nossa cultura e a das grandes metrópoles, não temos nada a ver com ela. Podemos ter um intercâmbio de trocas, mas não nos podemos deixar “engolir” pela cultura metropolitana”.


Andrade Santos

Andrade Santos.
Escritor, Sociólogo.
Director do Gabinete de Estudos Torreenses.
(Licenciado em Sociologia Aplicada)


Como é que entende estes intercâmbios culturais?
O intercâmbio cultural está feito, e vai continuar na base de um programa que o Gabinete de Estudos da Câmara Municipal de Torres Vedras tem, cuja denominação é “Viagens na Nossa Terra”. Tem por base aquilo que tem a ver com a cultura tradicional local, e também com a cultura erudita. Vai haver trocas de experiências, em determinados conceitos. Já fizemos uma experiência destas em Caldas da Rainha, e esperamos continuar experiências desta natureza, nomeadamente nas câmaras da Região Oeste.
No caso de Alenquer, resultou de um conjunto de contactos que existiram entre sectores da cultura. Tive todo o gosto de conhecer o vereador Luís Rema e fiquei bastante surpreendido pela sua capacidade, pela sua dinâmica e pela forma como está a introduzir em contextos destas natureza, e pelo grande apoio que dá às associações, às bandas de música, ao teatro, a tudo isso. O facto do vereador Luís Rema e nós estarmos na mesma sintonia, levou a que houvesse facilidades nesse tipo de contactos. O vereador prometeu que vai, ainda este ano, fazer uma troca de experiências, com a cultura de Alenquer em Torres Vedras.

O projecto é seu?
O projecto faz parte do Gabinete de Estudos Torreenses, do qual sou director.

Está nos vossos horizontes, que este intercâmbio entre municípios, se alargue a outros sectores, como por exemplo desporto e economia?
O programa “Viagens na Nossa Terra” é caracterizado pela troca de experiências culturais, é esse perfil do programa. É lógico que se estamos a tratar de trocas de experiências culturais, vamos colocar isto sempre nessa tónica. Porque não há interesse em fazer trocas de experiências ao nível do sector económico, político e até do desporto, que obviamente também será interessante, mas que não faz parte deste programa.

O artesanato é uma realidade comercial, embora tenha uma raiz cultural atrás de si.
Acho que o artesanato é um sector que poderá estar incluído amanhã, num programa desta natureza. Inclui-se aí uma cultura já ligada à economia, à venda de determinados produtos. A raiz é a génese cultural. A cultura de artesão tem muito valor.

Como está a decorrer esta jornada de intercâmbio?
Quero manifestar a forma como está a decorrer esta experiência, bastante dinâmica, com espectáculos, exposições e colóquios. É uma troca de experiências de pessoas de uma mesma região, que sente que conhece o problema da sua região que tem as suas características e que tem a sua antropologia muito própria. É essa troca de experiências que queremos continuar e motivar. Para além de haver uma troca de amizades entre as pessoas, que inclui mesmo os sectores políticos, embora tenham vertentes e tenham raízes ideológicas completamente diferentes.
A importância que tem a cultura, é que é dos poucos instrumentos de discussão, de criação que o Homem tem, onde pode apagar determinadas clivagens que podem existir ao nível ideológico e ao nível político. Têm interesses comuns, é a identidade, são os valores da sua terra, é o património cultural e humano, o trabalho ligado à própria gente. Nestas manifestações está tudo incluído. Um programa desta natureza terá sempre êxito, porque vai congregar à sua volta pessoas com um tipo de experiências de vida, que embora tenham pensamentos ideológicos ou políticos diferentes, o tipo de vida e a forma de estar é muito igual, que é a sua terra.
A forma como quer continuar a manter as suas divisões e, nomeadamente, numa palavra só é a identidade dos lugares, das terras e das regiões. Se não forem os oestinos a trocarem solidariedade entre si, não serão as outras regiões do pais, que vão aqui encontrar soluções para a nossa unidade. A nossa unidade é construída entre nós, e é nessa vertente que é muito importante haver encontros desta natureza.

Há um vasto sector da sociedade que entende ser mais uma divisão administrativa, do que uma divisão cultural. As pessoas sentem-se mais próximas de Lisboa, do que propriamente da região Oeste.
É uma discussão muito complexa, e poderíamos estar aqui horas a falar sobre isso. Eu tenho escrito pessoalmente, sobre o Oeste. Sou talvez a pessoa, da área, dentro do panorama jornalístico, que tem escrito mais. Tenho estudos, e ao longo desta minha experiência de 30 ou 40 anos, o que verifico é que há, de facto uma caracterização do Homem Oestino, da geografia humana e física, muito caracterizadora de uma determinada região.
A estrutura sociológica pode ser explorada, do ponto de vista do estudo e da dinâmica de encontrar soluções para classificarmos essa interrogação que me deu há pouco. Isto carece de estudos mais aprofundados, do ponto de vista da antropologia, da etnografia, da sociologia, e só depois destes estudos é que podemos traçar um mapa mais correcto de tudo isso.
No entanto, considero que há perfil suficiente para uns 10 ou 12 concelhos que vão desde Mafra, Alenquer, Cadaval, Rio Maior e cobrindo aquela faixa até ao mar, Nazaré e Alcobaça. Desde a zona litoral, até estes contornos, digo que há uma região caracterizadora do Oeste, que não têm nada a ver, nem de perto nem de longe, com as culturas de uma grande metrópole, como é Lisboa.

Aí há choques de culturas muito violentos. Há grandes fluxos de imigrantes, que estão na zona territorial da metrópole. Povos que vêm das ex-colónias. Há uma miscigenação da cultura, em situações da degradação do parque habitacional. Há uma forma de convivência, que por vezes não é a mais saudável. Não falo só de Lisboa, mas no geral das grandes metrópoles. Há outras coisas como o crime, a prostituição, o desemprego. É toda uma situação que não é a situação das zonas interiores.
Aqui a situação é mais rural, não tem uma clivagem tão urbana, não tem esse choque de culturas. Alenquer, Torres Vedras, Bombarral, Caldas da Rainha têm um outro ritmo de vida. Eu sociólogo tenho em mente e aconselho sempre a identidade. Deve-se criar uma barreira entre a nossa cultura e a das grandes metrópoles, não temos nada a ver com ela. Podemos ter um intercâmbio de trocas, mas não nos podemos deixar “engolir” pela cultura metropolitana.

O que é que leva da visita a Alenquer?
A visita ao centro histórico foi muito interessante. Digamos que tenho uma visão mais intimista de Alenquer, caracterizada pelo seu presépio, mas também uma grande qualidade no seu património. Mas surpreenderam-me alguns detalhes que apanhei nesta visita e, em certa medida, o que me dá a atender, é que é uma gente muito aberta. As pessoas que contactámos neste 2 dias, são pessoas que estão abertas a tudo isto. Inclusivamente a própria imprensa. É o amor à sua terra, que tem muita coisa para mostrar. Continuem na ligação às coisas do património, porque o património é a vida do povo.



Hernâni de Lemos Figueiredo


©Hernâni de Lemos Figueiredo (2000)
director do Jornal D’Alenquer
in Jornal D’Alenquer, 1 de Março de 2000, p. 12

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