A “Chemina” morreu

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No Dia Nacional dos Centros Históricos, ficamos mais pobres

A “Chemina” morreu

Desapareceu um "ex-líbris" de Alenquer e para a sua recuperação vai ser necessário a convergência de muitos esforços, tanto financeiros como políticos e sobretudo a sensibilidade necessária e o devido respeito para com o património arquitectónico local.

Desapareceu um “ex-líbris” de Alenquer e para a sua recuperação vai ser necessário a convergência de muitos esforços, tanto financeiros como políticos e sobretudo a sensibilidade necessária e o devido respeito para com o património arquitectónico local.

Não é classificada como imóvel de interesse público, mas está “arrumada” lá num cantinho muito especial dos corações dos alenquerenses, principalmente dos menos novos, os que passaram largos anos da sua actividade laboral dentro daquelas paredes que agora ficaram prisioneiras das chamas. Afastados a observarem o desencadear das labaredas, ao longo da Avenida 25 de Abril, desde o Largo Palmira Bastos até à Ponte de Santa Catarina, no Largo da Câmara, onde a visão era soberba até na IC2, onde o trânsito parou totalmente, mesmo os mais afoitos que se aproximaram até poderem, era vê-los com as lágrimas a correrem pelo rosto, frustrados com a sua impotência para impedirem tal desiderato

A “Chemina” ardeu. Densas nuvens de fumo envolveram a parte baixa da Vila de Alenquer e o espectáculo oferecido a quem passava na IC2, era dantesco. Foi no passado dia 28 de Março, cerca das 15 horas quando tudo aconteceu. A zona afectada situa-se entre o Parque Vaz Monteiro, a Rua dos Guerras, a Avenida António Maria Jalles e o Rio de Alenquer, mesmo em frente ao Mercado Municipal e à Biblioteca Municipal de Alenquer, tendo só o rio a separá-los

A Empresa de Lanifícios Tejo, a “nossa” FÁBRICA DA CHEMINA, já há cerca de 7 anos que não laborava. O complexo engloba a nova sede da SUMA, o Pavilhão Polivalente, a ATL e a futura sede da Junta de Freguesia de Santo Estêvão, que ocupam o antigo sector administrativo da fábrica, que felizmente nada sofreu com o desastre. Também fazem parte deste imóvel o antigo sector produtivo, composto por naves de três andares, que era a parte mais degradada do complexo, onde se encontravam alguns armazéns temporários. Terá, aliás, sido num dos armazéns que o fogo teve origem, alastrando, depois, de uma forma que não se conseguiu controlar. Mais que o tempo decorrido entre o alerta e a chegada efectiva dos bombeiros ao local, que foi quase imediata, cerca de 5 minutos apenas, um dos factores determinantes da gravidade do sinistro foi a estrutura ser muito velha e de madeiras totalmente apodrecidas, o lixo que estava armazenado num armazém assim como grande quantidade de produtos inflamáveis que estava noutro armazém, cedido a uma conhecida empresa comercial da nossa vila.

Tanto Álvaro Pedro como Horácio Corado pouco esclareceram quanto às causas que provocou o incêndio. Do desconhecimento de um à impossibilidade do outro de falar do assunto, por “estar em segredo de justiça”, foi precisamente este último facto que nos alertou para a situação, pois é normal em qualquer incêndio, apontar-se de imediato as causas prováveis. Jornal D’Alenquer começou a ouvir a “fala” de populares e para alguns os causadores deste incêndio foi “o descuido de três rapazinhos que se encontravam por lá a brincar”.

E assim desapareceu um “ex-líbris” de Alenquer e para a sua recuperação vai ser necessário a convergência de muitos esforços, tanto financeiros como políticos e sobretudo a sensibilidade necessária e o devido respeito para com o património arquitectónico local.

Segundo Guilherme J. Carlos Henriques, (Alenquer e seu Concelho – Parte X – “A Vila de Alenquer” – fls 150/154),

    “A Fábrica foi devida à iniciativa dos Srs. José Joaquim dos Santos Guerra e Salomão dos Santos Guerra, dois industriaes intelligentes e trabalhadores … A construção do edifício começou em abril de 1889 e a inauguração effectuou-se em junho do anno seguinte”. ” O pessoal é de cerca de 200 operários de ambos os sexos e a machina a vapor é da força de 50 cavallos”. “O mais machinismo compõe-se de 31 teares mechanicos, 10 teares manuaes, 1240 fusos, 3 sortidos de cardas, lavadouro de lã completo, máchinas de torçer, encarretar e encher canellas, urdideiras mechanicas e manuaes, lavadeira, pisão, percha, machinas de acabamento e duas prensas”. “O edificio principal, construído em harmonia com os modernos processos de hygiene, consta de tres pavimentos, onde se acham installadas as officinas de tecelagem, acabamento de barretes, escriptorio, machina motora, machinas de cardação, fiação e de limpeza, lavagem de lãs, fios, fazendas, etc., etc … Toda a fabrica é illuminada a luz electrica pelo systema allemão. …As cachemires e os chales, especialidade da fabrica, são um primor de tecido … rivalisam com os melhores do estrangeiro. … Enfim, todos os seus productos são aperfeiçoadissimos, fabricados com materia prima de primeira qualidade”


Horácio Pereira Corado – Comandante Interino dos Bombeiros de Alenquer
Horacio-Corado_100Receberam a chamada às 15 horas e apesar da resposta ser imediata, pois enviou logo uma primeira viatura. Quando, de seguida saiu e chegou ao primeiro cruzamento verificou logo que não havia janela alguma da estrutura que não estivesse em chamas.

Estiveram presentes 125 homens e 36 viaturas, de Corporações da nossa zona operacional, de Lisboa e do Oeste. Algumas vieram de Loures, Alhandra e Vila Franca de Xira. Talvez mais de 16 corporações. Também esteve um auto tanque da ex-BA2.

Disse não poder pronunciar-me quantos às causas do incêndio, porque estava tudo em segredo de justiça, tendo vindo cá os técnicos do Serviço Regional de Bombeiros e também a Polícia Judiciária.

Álvaro Pedro – Presidente da Câmara Municipal de Alenquer
Alvaro-Pedro_100Ouvimos Álvaro Pedro, Presidente da Câmara de Alenquer, que se mostrava pesaroso pelo acontecido. Informou-nos que estava tudo no seguro e que a Câmara assumiu de imediato, pagar os prejuízos causados aos vizinhos da Chemina. Calcula em alguns milhares de contos esses prejuízos.

Disse desconhecer as causas do incêndio e que a Câmara tinha temporariamente autorizado apenas a armazenar ladrilhos, cimento e tijolos num armazém da estrutura.

Convocou de urgência uma Reunião de Câmara Extraordinária, para avaliar a situação e onde foi reconhecido o brio e valor, tanto dos Bombeiros, devido à sua rápida intervenção, como à GNR, devido à sua intervenção ao isolar a zona sinistrada e ao controle do trânsito na Vila. Foi uma atitude tomada por unanimidade e solidariedade.

Álvaro Pedro informou-nos que agora vai recuperar o mais rápido possível a estrutura para adaptá-la àquilo a que estava destinada, isto é, a um complexo escolar, com refeitórios, ateliers, salas de ensino para deficientes, etc.




Hernâni de Lemos Figueiredo


©Hernâni de Lemos Figueiredo (2000)
director do Jornal D’Alenquer
in Jornal D’Alenquer, 1 de Abril de 2000, p. 4

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