Camões e Alenquer (IV): A questão da naturalidade: as pretensões de Lisboa, Coimbra e Santarém

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Camões e Alenquer (IV)

A questão da naturalidade: as pretensões de Lisboa, Coimbra e Santarém

Depois de aqui terem sido expostas, de forma sucinta, as principais teses que sustentam as pretensões de Alenquer na questão da naturalidade de Luís de Camões, cumpre fazer, tanto quanto possível, idêntica demonstração das teses de Lisboa, Coimbra e Santarém.


Lisboa
A favor de Lisboa, Manuel Correia escreve nos seus Lusiadas Comentados:

    “O Autor deste Livro foy Luis de Camões, Portuguez de nação, nascido e creado na cidade de Lisboa, de pais nobres e conhecidos”. Faria e Sousa apresenta, mais tarde, o licenciado Manuel Correia como “persona de credito, i de la edad del Poeta e su amigo”. O próprio Correia, na obra citada, se dá por ter sido amigo de Camões. Mas estes comentários de Os Lusíadas não chegaram a ser publicados em sua vida. Postos em leilão, os manuscritos foram comprados por Pedro de Mariz, que os imprimiu em 1613. E é na biografia de Camões, que antecede esta edição, numa espécie de prefácio a que deu o nome de Ao Estudioso da Lição Poética, que surge aquela asserção de Manuel Correia. E Mariz, apesar de natural de Coimbra, não contradiz Correia. Sobre Simão Vaz de Camões, pai do poeta, diz, estando em Lisboa, ser “natural desta cidade”.

Manuel Severim de Faria, em nova biografia, datada de 1624, relaciona com a cidade de Lisboa a expressão

    “o patrio Tejo” de um verso dos Lusíadas, a apóstrofe “E vós, Tágides minhas” e conclui, na sua Vida do Grande Luís de Camões: “Nasceu o nosso poeta na cidade de Lisboa, e não em Coimbra, como alguns cuidaram pela vivenda antiga que seus avós ali tiveram. Por esta razão chama tantas vezes ao Tejo pátrio e invoca, no princípio dos seus Lusíadas, as ninfas do mesmo rio”.

Faria e Sousa, na segunda biografia que faz para acompanhar a edição das obras de Camões (pronta em 1649, só publicada em 1685. A primeira é de 1639), encontra um outro argumento, numa das Elegias Camonianas, em que o poeta se diz

    “desterrado da sua patria”. Faria e Sousa acredita que Camões só fora desterrado de Lisboa. Como tal esta cidade era a sua pátria. Este é o seu raciocínio: “Parece que deste lugar se puede inferir que la patria de mi poeta era Lisboa, pues el se compara a Ovidio, desterrado de la suya. En su vida dixe que podia aver nacido ó en Coimbra, ó en Santaren; y entre Santaren y Lisboa es la duda, pero diziendo agora que fue desterrado de la Patria, y siendo el destierro de Lisboa á Santaren, ó á los contornos de aquella villa, dá a entender que ella no era su patria, sinó Lisboa. Opondrá-se que por patria suya se entiende todo Portugal. No puede ser, porque en Portugal escrivio esto!”. Fortalece ainda esta posição com um registo de 1550, onde diz ser Camões “filho de Simão Vaz e Ana de Sá, moradores em Lisboa, à Mouraria”.

Mas em 1550 o poeta teria já 25 anos…

D. Francisco Alexandre Lobo, Bispo de Viseu, segue o mesmo raciocínio:

    “Nasceu pois o poeta na cidade de Lisboa. Alguem tem pretendido attribuir esta gloria antes a Coimbra ou a Santarem, mas o mesmo Poeta parece declarar a sua naturalidade na Elegia III, em que de certo modo se diz desterrado da patria, ao mesmo tempo que he constante que a escreveo andando desterrado de Lisboa”.

Por Lisboa são ainda, por exemplo, Teófilo Braga (História de Camões, 1873) ou Hernâni Cidade (Vida e Obra de Luís de Camões).

Como diz José Hermano Saraiva (Vida ignorada de Camões), e para resumir, das várias hipóteses

    “é a mais votada e baseia-se nas inúmeras alusões a Lisboa e ao Tejo, que se encontram quer em Os Lusíadas quer na Lírica”.



Coimbra
Domingos Fernandes, livreiro da Universidade de Coimbra, afirma na Dedicatória das Rimas de Luís de Camões, por ele editadas em 1607, e dedicadas à mesma Universidade, que Camões nasceu, se criou e estudou nesta cidade:

    “pois se vós (verdadeyra exposição da coroada princesa das misteriosas armas de Coimbra) sois esta que diziamos; para as mais propinquas & remotas partes do Universo, e per nacimento & criação, per officio & obrigação fostes tambem a mesma para com o vosso grande Luis de Camões, pois nacendo elle nessa vossa cidade de Coimbra, a vosso peyto como Mãy natural o criastes tantos annos: com vossa doutrina como Mestra o ensinastes algus, & com vossos louvores, como fiel Amiga, o honrastes tantas vezes, a quem se nam a vós se deve encomendar esta proteyção de hum vosso filho, discipulo & Amigo, & mais sendo elle já morto, para se nam poder defender, & ainda vivo para poder ser offendido”.

Wilhelm Storck, na Vida e Obras de Luís de Camões (1890), é favorável a Coimbra e apoia-se na asserção de Domingos Fernandes, que diz ser mais antiga que a de Manuel Correia, por Lisboa. E, resumindo, diz que
“decide a questão, a meu ver, o facto da residência da família Camões em Coimbra, durante séculos; depois a affeição constante do poeta pela cidade do Mondego; e por ultimo, os versos autobiographicos da quarta Canção”.

Na Canção IV, encontram-se versos, por exemplo, como

    “vão as serenas aguas
    do Mondego descendo
    e mansamente até o mar não param.”

Storck diz ainda que o apelido Macedo – nome de família da mãe de Camões – não era desconhecido em Coimbra, por meados do século XVI.

Hermano Saraiva, refere que

    “quanto a Coimbra, a conjectura assenta apenas nas alusões de três poemas às águas do Mondego. O rio que passa em Coimbra ficou ligado aos amores de Camões e foi junto dele que a sua longa e dramática história de amor começou. É tudo o que, com firmeza se pode dizer”.


Santarém
Faria e Sousa, na primeira biografia de Camões (1639), propõe Santarém como terra natal deste. Diz Storck que

    “evidentemente só com o intuito de contrabalançar por uma ‘novidade’ as asseverações dos seus predecessores […] Os argumentos que fornece a favor de Santarem, são os mesmos com que Severim defendera Lisboa. – Allegando em primeiro logar que o poeta invoca o Tejo como rio seu, e apelida as nymphas do Tejo ‘Tagides minhas’, accrescenta que ‘tanto pode celebrar o Tejo e as suas nymphas um natural de Santarem como outro de Lisboa, pois se banham n’elle com com egualdade’. Em segundo logar diz que de Santarem procedera sua mãe.”

Hermano Saraiva conclui que

    “Santarém apenas aduz que os antigos biógrafos davam como sendo escalabitana a mãe de Camões, ou mais precisamente, uma família Macedo a que ela pertenceria”.

Estes são, de uma forma geral, para cada uma das cidades, os argumentos que conferem consistência às suas pretensões, na questão da naturalidade de Luís de Camões. Como é natural, cada teoria procurou destruir outra concorrente. Os autores citados são apenas alguns dos mais significativos. E é quase impossível conhecer, em tempo útil, tudo o que a este respeito se escreveu. A maneira como cada um “desmontou” a teoria de outro será exposta em devido tempo.

Recorrendo, mais uma vez, a José Hermano Saraiva:

    “A única conclusão que se pode tirar é que não sabemos onde Camões nasceu; das nossas muitas ignorâncias sobre a sua vida, essa não será certamente a mais grave. A naturalidade contou tão pouco na obra de Camões, que ele nunca lhe fez referência identificadora.”


Filipe-Rogeiro

©Filipe Soares Rogeiro (2000)
Licenciado em História
in Jornal D’Alenquer, 1 de Abril de 2000, p. 27

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