Entrevista a… Carmen Dolores

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Março, mês do Teatro

Entrevista a… Carmen Dolores

Acho que sou uma comediante, mas estou disposta a representar qualquer personagem. As pessoas têm a tendência para me rotularem como uma actriz dramática


Carmen Dolores

Carmen Dolores

Uma das artistas com mais distinções: desde o Prémio Nacional de Teatro e do Prémio da Imprensa, em 1969 até à Ordem de Santiago e Espada, em 1991 e à Medalha de Mérito Cultural da Secretaria de Estado da Cultura, Carmen Dolores tem uma vida dedicada à arte de representar. Representou peças de Shakespeare, Gil Vicente, Molière, Garrett, Gil Vicente, Oscar Wilde e muitos outros grandes autores.

O que se recorda com mais intensidade de quando era criança?
O que tenho mais vivo na memória, são os jantares em família, na minha casa com os meus pais e os meus irmãos, onde se falava muito de arte. O meu pai era jornalista e os meus irmãos, que eram muito mais velhos que eu, eram também apaixonados pela arte. Falava-se de tudo, inclusive diziam-se versos. Toda a gente lá em casa sabia versejar. Um começava e dizia o primeiro verso e os outros completavam. Diria mesmo que eram “refeições culturais”. Lembro-me muito desse convívio em família.

Como chegou à Rádio Sonora?
Tinha 14 anos quando cheguei à Rádio Sonora. O meu irmão era tenor e organizava lá uns programas, e eu ia dizer versos. Fizemos uns programas muito agradáveis.

Porquê e como escolheu ser actriz?
Iniciei a vida artística por acaso. Na Rádio, a seguir aos programas do meu irmão, passei para os Programas Infantis e nessa altura fui contactada pelo António Lopes Ribeiro para fazer no cinema a personagem de “Teresa”, do AMOR DE PERDIÇÃO. Só depois de fazer uma série seguida de filmes é que fui para o Teatro. Foi assim que comecei e foi quando percebi que o meu destino era esse.

Ser actriz é uma profissão ou um “hobby”?
Com certeza é uma profissão.

Recorda-se do seu primeiro ordenado?
Sim, foi 7.500$00 no cinema.

Como se caracteriza como actriz?
Acho que sou uma comediante, mas estou disposta a representar qualquer personagem. As pessoas têm a tendência para me rotularem como uma actriz dramática.

O que mais a atrapalha?
Quando faço teatro e tenho a obrigatoriedade de me deitar tarde.

Em Portugal, os actores têm futuro?
Embora comece a haver várias oportunidades, penso que viver só do teatro é um pouco difícil.

Trabalha na rádio, no teatro, no cinema, na TV, entra em telenovelas. Em qual deles acha que a sua mensagem chega com mais facilidade ao público?
Em qualquer das áreas penso que a mensagem é bem recebida. Julgo ter público em qualquer desses sectores do espectáculo.

Entre as inúmeras peças de teatro em que entrou, qual a que pensa ser a mais importante na sua carreira?
Fiz tantas, que é um pouco difícil escolher. Talvez “A Vida de Virgínia Wolf”.

Alguns historiadores entendem que a actividade teatral não é um vector proeminente da cultura portuguesa, nem no plano do texto, nem no plano do espectáculo.
Acho isso um disparate, pois o Teatro é importantíssimo. É uma maneira mais directa de chegar ao público.

Desde Molière até Shakespeare, passando por Tchekhov e muitos outros autores estrangeiros, com excepção de Gil Vicente, não tem dado muita atenção ao chamado “teatro nacional. Comunga da opinião de Garrett quando este diz que nunca houve o “teatro nacional”?
Quando estou numa Companhia, represento tudo o que for necessário, pois sou “free lancer”. Escolho pelo meu gosto e não faço questão de ser nacional ou estrangeira.

Que vê de diferente entre Gil Vicente e Almeida Garrett?
São muito diferentes e de épocas diferentes. O Gil Vicente é o princípio do teatro; o Garrett é o princípio do teatro romântico. Estou particularmente ligada a Garrett, pois fiz muitas vezes o FREI LUÍS DE SOUSA; e fiz muitas vezes a MARIA e a MADALENA, tanto no teatro como no cinema e na TV.

Na peça “Quem tem medo de Virgínia Wolf”, Odete Santos foi a protagonista; o Professor Freitas do Amaral escreveu a peça “O Magnífico Reitor”. Como vê a intromissão de políticos na área do teatro?
Porque não? Um actor também pode ir para a política.

A “Castro”, de António Ferreira e Frei Luís de Sousa”, de Almeida Garrett.
A “Castro” é a essência do teatro poético e é um texto que ainda hoje é muito agradável de ouvir; Gosto muito do “Frei Luís de Sousa”, pois é uma peça muito bem-feita. São as duas peças de maior importância do teatro português.

Quer deixar uma mensagem para os seus admiradores do Concelho de Alenquer?
Felicito-os por terem vários grupos de teatro e desejo que continuem a ter o mesmo entusiasmo que têm tido até aqui e que tenham os apoios que lhes permitam continuar a ter uma actividade cada vez mais desenvolvida.

Carmen Dolores Cohen Sarmento (1924)
Actriz e encenadora, nasceu em Lisboa, em 1924.
Deu-se a conhecer através da rádio onde se iniciou aos 12 anos.
Cinema

    1942 – Apenas com 19 anos estreia-se no cinema, como protagonista de “Amor de Perdição”, adaptação de António Lopes Ribeiro do romance de Camilo Castelo Branco.
    1945 – Seguiu-se “Um Homem às Direitas”, de Jorge Brum do Canto, e “A Vizinha do Lado”, de Lopes Ribeiro.
    1946 – Foi a vez de “Camões”, de Jorge Leitão de Barros.
    1947 – “Três Espelhos”, de Ladislau Vadja.
    1952 – “A Garça e a Serpente”.
    1987 – “A balada da praia dos cães”, José Fonseca e Costa.
    1975 – “O princípio da sabedoria”, de António Macedo
    1987 – Entrou em “Balada da Praia dos Cães”, de Fonseca e Costa.
    1988 – Trabalhou com José Fonseca e Costa, em “A Mulher do Próximo”.

Teatro

    Em 1945, pisou pela primeira vez o palco na Companhia de Comediantes de Lisboa, Teatro da Trindade, na peça “Electra” e “A Mensageira dos Deuses”, ambas de Jean Giraudoux.
    Entre 1950 e 1958, esteve no palco do Teatro Nacional D. Maria II, dirigido por Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro, onde permaneceu oito anos.

      Em 1952, “Sonho de uma noite de Verão”, de William Shakespeare.
      Em 1952, entrou na “Garça e a Serpente”, de Arthur Duarte.
      Em 1953, “Casaco de fogo”, de Romeu Correia.
      Em 1956, “Alguém terá de morrer”, de Luiz Francisco Rebello.
      Em 1957, “Dona Inês de Portugal”, de Alejandro Casona.

    Em 1958, passou pelo Teatro de Sempre (Teatro Avenida), dirigido por Gino Saviotti,

      1958 – “O Gebo e a sombra”, de Raul Brandão
      1959 – “Seis personagens à procura de autor, de Luigi Pirandello.

    Em 1959, passou para o Teatro Nacional Popular (Teatro da Trindade), dirigido por Ribeirinho

      1959 – Lucy Crown, de Irving Shaw.
      1959 – “Amor de Dom Perlimplim com Belisa em seu Jardim”, de Federico García Lorca.

    Entre 1960 e 1965, com Rogério Paulo, Fernando Gusmão, Armando Caldas e Armando Cortez fundou o Teatro Moderno de Lisboa (Cinema Império), que ficou como um marco importante na história do teatro independente.

      1961 – “O tinteiro”, de Carlos Muñiz.
      1962 – “Humilhados e ofendidos”, de Fedor Dostoievski.
      1963 – “Os três chapéus altos”, de Miguel Mihura.
      1964 – “Dente por dente”, de William Shakespeare.
      1964 – “O dia seguinte”, de Luiz Francisco Rebello.
      1964 – “Um mês no Campo”, de Turgueniev.
      1965 – “O render dos heróis”, de José Cardoso Pires.
      1967 – “Frei Luís de Sousa”, de Almeida Garrett, (Com Jacinto Ramos).

    1969 – “Dança da morte”, de August Strindberg, (Casa da Comédia).
    1969 – “Forja”, de Alves Redol (Teatro Laura Alves).
    1972 – “A dança da morte em doze assaltos”, de Friedrich Dürrenmatt, (Casa da Comédia).
    1972 – “Alice nos jardins do Luxemburgo”, de Romain Weingarten, (Casa da Comédia).
    1975 – “As espingardas da Mãe Carrar”, Bertholt Brecht (Teatro Aberto).
    1976 – “O círculo de giz caucasiano”, Bertholt Brecht (Teatro Aberto).
    1983 – “Comédia à moda antiga”, de Alexei Arbuzov (Teatro Aberto).
    1984 – “Confissões numa esplanada de Verão”, de Tchekov, Strindberg e Pirandello. (Teatro Aberto).
    1985 – “Virgínia”, de Edna O’Brien, (Teatro Nacional).
    1991 – “Balanceada”, de Samuel Beckett, com encenação de Mário Viegas.
    1992 – “Espectros”, de Henrik Ibsen, (Teatro Experimental de Cascais).
    1998 – “O jardim zoológico de cristal”, de Tennessee Williams, (Teatro Nacional).
    1998 – “Jardim Zoológico de Cristal”, de Tennessee Williams, (Teatro Nacional).

Televisão

    1988 – “Passerelle” (telenovela),
    1993 – “A Banqueira do Povo” (telenovela).
    1999 – “A Lenda da Garça”, de Victor Cunha Rego (telenovela).
    1971 – “A Senhora das Brancas Mãos”, de Casona.
    1971 – “O Pensamento”
    1973 – “O Leque de Lady Windermere”, de Wilde.
    1974 – “Malteses, Burgueses e às Vezes”
    1975 – “Juan Palmieri”, de Larreta.
    1975 – “O Príncipe da sabedoria”
    1986 – “Comédia à moda antiga”
    1987 – “Balada da Praia dos Cães
    1987 – “O Jardim das Cerejas”
    1987 – “Covardias”
    1990 – “Chuva de Maio”
    1991 – “Claxon”
    1992 – “Retrato de família”
    1993 – “A Chama sagrada”
    1993 – “A viúva do enforcado”
    1993 – “A Viúva do Enforcado”, realização de Walter Avancini.


Prémios e distinções

    1944 – Prémio de Melhor Actriz de Cinema no filme “Um Homem às Direitas”.
    1959 – Prémio de Melhor Actriz na peça «Seis Personagens à procura de um Autor», de Pirandello.
    1959 –Dama da .Ordem Militar de Sant’Iago da Espada.
    1962 – Prémio de Popularidade como actriz de teatro radiofónico.
    1969 – Prémio Nacional de Teatro e o Prémio da Imprensa pela sua interpretação em A Dança da Morte de Strindberg.
    1984 – Prémio da revista Eles e Elas, pelo seu trabalho em Comédia À Moda Antiga de Arbuzov
    1985 – Prémio de Crítica em Virgínia (Vida de Virgínia Woolf) de Edna O’Brian.
    1987 – Troféus de cinema das revistas Nova Gente e Sete, pelo seu desempenho no filme de Fonseca e Costa A Balada da Praia Dos Cães
    1991 – Medalha de Mérito Cultural, da Secretaria de Estado da Cultura
    1992 – Troféu de Prestígio, revista Sete
    1998 – Prémio da Casa da Imprensa pelo seu trabalho em Jardim Zoológico de Cristal de Tennessee Williams.
    1998 – Distinguida pela Federação Iberolatina Americana de Artistas Intérpretes ou Executantes pela sua trajectória profissional e humana




Hernâni de Lemos Figueiredo


©Hernâni de Lemos Figueiredo (2000)
director do Jornal D’Alenquer
in Jornal D’Alenquer, 1 de Abril de 2000, p. 13

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