Entrevista a… Rui Mendes

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Março, mês do Teatro

Entrevista a… Rui Mendes

Actor é a minha profissão e levo-a o mais a sério que posso. Penso que sou um actor genérico, que posso fazer várias coisas. Sei que o posso fazer.


Rui Mendes

Rui Mendes

Um dos actores mais consagrados da cena artística. Estreou-se como actor de teatro, na peça “A Ilha do Tesouro”, no Teatro Gerifauto. A partir daí representou para algumas das principais Companhias Portuguesas. Como intérprete fez “Knack”, “À Espera de Godot”, “O Judeu”, “Os Cavaleiros da Távora Redonda”, “A Escola de Mulheres”, etc. Como encenador foi responsável entre nós de “Como o Sr Mokimpoin se Libertou dos Seus Tormentos”, “Três Irmãs”, “O Valentão do Mundo Ocidental”,etc.

O que se recorda com mais intensidade de quando era criança?
Até aos meus 10 anos vivi em Coimbra. Lembro-me das férias na Figueira da Foz e do Jardim Escola João de Deus, onde andei até aos 7 anos. Depois passei para a Escola Particular Feliciano Castilho, em Coimbra, e depois vim para Lisboa.

Como chegou à Ilha do Tesouro?
Desde os 5 anos que ia ao teatro mas sempre com aquelas cautelas “o teatro é uma vida difícil e perigosa”, devido a uma experiência menos feliz na minha família com o meu avô que foi bom actor mas teve uma carreira incerta. Quando havia récitas no Liceu Camões, só fazia os cenários. Mai tarde, já com 17 anos é que comecei a representar e fui logo para o Gerifauto, onde fiz “A Ilha do Tesouro”.

Porque é que escolheu ser actor? Foi por causa do seu avô?
Não, não foi por isso. Aí como digo, tinha os dois lados, o lado da atracção e o lado da repulsão.

Ser actor é uma profissão ou um “hobby”?
É uma profissão. Nunca foi um “hobby, nem percebo como é que possa ser.

Recorda-se do seu primeiro ordenado?
Sim, foram 800$00, em 1956. Não era lá muito bom.

Como se caracteriza como actor?
Não sei. É a minha profissão e levo-a o mais a sério que posso. Penso que sou um actor genérico, que posso fazer várias coisas. Sei que o posso fazer.

O que mais o atrapalha?
Talvez a ideia de não poder fazer tudo o que queria. Se calhar há muita coisa que eu gostava de fazer e já não vou ter tempo.

Em Portugal os actores têm futuro?
Acho que sim, que têm sempre. Nunca é uma actividade que parará.

Trabalha na rádio, no teatro, no cinema, na TV, entra em telenovelas. Em qual deles acha que a sua mensagem chega com mais facilidade ao público?
Se falarmos em número, é a televisão que numa noite, é vista por milhões, mas o teatro é que me satisfaz mais, completa-me mais.

Alguns historiadores entendem que a actividade teatral não é um vector proeminente da cultura portuguesa, nem no plano do texto, nem no plano do espectáculo.
Já Fernando Pessoa dizia que o “teatro português” é eminentemente lírico, mas não é dramático. Não sei se era um elogio mas tenho a impressão que não era. De facto, ao longo da História, verificamos que Gil Vicente, o nosso primeiro grande dramaturgo, foi o primeiro da Europa, e não houve continuidade. Houve o António José da Silva, O Judeu, que era brasileiro. Depois houve o António Ferreira, já nos séculos XIX e XX; o Álvaro Alfredo Cortez, o Raul Brandão, gente com muita qualidade e, mais recente, Luis Santos Campelo, Bernardo Santareno.

Desde a grande comédia de Molière que foi a “Escola de Mulheres”, interpretou Shakespeare, passando por Tchekhov, Peter Welles, e muitos outros autores estrangeiros. Não tem dado muita importância ao “teatro nacional”. Comunga da opinião de Garrett quando ele diz que nunca houve “teatro nacional”?
Comungo de quase todas as opiniões de Garrett, que hoje ainda são válidas e já lá vão 170 anos. Foi um homem que viveu preocupado e amargurado. De facto, o teatro em Portugal tem pouco apoio, vítima de algumas indiferenças. Não responsabilizo nada o público, porque ele gosta de teatro, está provado. Agora existem razões que às vezes o leva a não sair de casa a ir ao teatro. Muitas vezes não somos nós, actores, quem escolhe as peças. Já propus a várias Companhias representarem só autores portugueses.

Que vê de diferente entre Gil Vicente e Almeida Garrett?
São muito diferentes. Quando a mim, Gil Vicente é um grande homem do teatro e o Garrett é um grande cidadão.

Na peça “Quem tem Medo de Virgínia Wolf”, Odete Santos foi a protagonista; o Professor Freitas do Amaral escreveu a peça “O Magnífico Reitor”. Como vê a intromissão de políticos na área do teatro? Com perfeita naturalidade.

A “Castro”, de António Ferreira e “Frei Luis de Sousa”, de Almeida Garrett.
A “Castro” é uma grande peça de teatro. Ainda há pouco fiz com a minha filha, um trabalho para o liceu sobre “A Castro” e tive de a ler outra vez. Quanto a “Frei Luis de Sousa”, de Garrett, tirando Gil Vicente que não há quem o bata, “Frei Luis de Sousa” é uma boa peça de teatro, é uma tragédia e é a melhor peça de Garrett.

Quer deixar uma mensagem para os seus admiradores do Concelho de Alenquer?
Dar os parabéns pela actividade teatral que tem tido, desejando que nunca acabe e que os apoios sempre indispensáveis apareçam para que assim a actividade seja sempre melhorada.



Rui Jorge de Albuquerque Mendes

    Nasceu em 1937.

Teatro:

    1956 – ESTREIA: “A Ilha do Tesouro” (Teatro da Trindade).
    1961 – “A Tia” de Charley.
    1967 – “Knack”
    1968 – “À espera de Godot”.
    1969 – “ Amanhã digo-te por Música”.
    1971 – “Saídas da Casca”.
    1972 – “Insulto ao Público”.
    1976 – “O Círculo de Giz Caucasiano”.
    1983 – “O Judeu”.
    1986 – “Super Silva”.
    1986 – “A Mulher do Campo”.
    1993 – “A Escola das Mulheres”.

Cinema:
No cinema participou em cerca de vinte películas, entre elas –

    1961 – “Raça”, de Augusto Fraga.
    1961 – “Dom Roberto 2, de José Ernesto de Souza.
    1978 – “O meu Nome é…”, de Fernando Matos Silva.
    1978 – “Nem Pássaro nem Peixe”, de Solveig Nordlund.
    1981 – “Francisca”, de Manoel de Oliveira.
    1983 – “Os Abismos da Meia-Noite”, de António de Macedo.
    1983 – “Paisagens Sem Barcos”, de Lauro António.
    1992 – “O Fim do Mundo”, de João Mário Grilo.
    1995 – “Paraíso Perdido”, de Alberto Seixas Santos.

Televisão:

    1975 – “O Caso Rosenberg”.
    1979 – “Retalhos da Vida de Um Médico”.
    1980 – “Uma Cidade como a Nossa”.
    1982 – “”Origens”.
    1982 – “”Cantor de Ópera” (episódio da série Gente fina é outra coisa).
    1984 – “Chuva na Areia”.
    1985/89 – “Duarte e Companhia”.
    1990 – “Um Amor feliz”.
    1993 – “O bando dos quatro”.
    1996 – “Sim, Sr. Ministro”.
    2000 – “Alves dos Reis”.
    2000 – “Ajuste de Contas”.

Companhias:“Empresa Vasco Morgado”.

    “Grupo 4” (Teatro Aberto), de que foi um dos fundadores).
    “Teatro ABC”,
    “Teatro Adóque” (de que também foi fundador),
    “Teatro da Cornucópia”.
    “Teatro da Malaposta”.
    “Teatro do Gerifalto”.
    “Teatro Moderno de Lisboa”,
    “Teatro Nacional D. Maria II”.
    “Teatro Nacional Popular”.
    “Teatro Popular de Lisboa”.

Trabalhou com diversos encenadores:

    Adolfo Gutkin.
    António Manuel Couto Viana.
    Costa Ferreira.
    Fernanda Alves,
    Fernando Gusmão.
    Francisco Ribeiro.
    João Lourenço.
    João Mota.
    Jorge Lavelli.
    José Peixoto.
    Luís Miguel Cintra.

Encenação:
A partir de 1975 dedicou-se à encenação

    1988 – “Três Irmãs” de Tchekhov (Teatro da Cornucópia).
    1991 – “Sonho de uma Noite de Verão”, de Shakespeare (Teatro da Malaposta),
    1992 – “Descendentes de Kennedy”, de Robert Patrick (Teatro da Malaposta),
    1995 – “A Louca de Chaillot”, de Jean Giraudoux (Teatro Nacional D. Maria II).

Ensino:

    1980-2000 – Professor da Escola Superior de Teatro e Cinema.




Hernâni de Lemos Figueiredo


©Hernâni de Lemos Figueiredo (2000)
director do Jornal D’Alenquer
in Jornal D’Alenquer, 1 de Abril de 2000, p. 13

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