O Teatro de Revista em Alenquer

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O Teatro de Revista em Alenquer

Irá Alenquer deixar morrer a tradição que conquistou pela sua perseverança e amor pelo Teatro? Alenquer terá a última palavra a dizer….

A tradição do teatro de revista é longa em Alenquer. É certo que no Teatro Ana Pereira, de entre muitas comédias lá representadas, lembramo-nos de lá ter visto, talvez no princípio dos anos 40, uma revistinha intitulada “O Pardal Telhado”, cujo “compère” – o Pardal – satirizava o Barral, um comerciante muito conhecido em Alenquer e que tinha a sua loja no Largo de Espírito Santo, ao lado da igreja. Este homem, de língua afiada, invectivava as obras do açude que se estava a construir ao fundo do parque Vaz Monteiro e que no dizer nele, iria provocar enchentes no rio quando estivesse construído. Asserção inteiramente certa como mais tarde se veio a verificar. Era uma revistinha modesta como modesto era o seu guarda-roupa e a sua montagem. Deu 3 ou 4 representações e não fez história.

A tradição começa em 1945 com a estreia no Sporting de uma revista do alenquerense Vítor Santos – que foi mais tarde um grande jornalista do jornal “A Bola”, e que se intitulava “Alenquer, Tantos de Tal…”. Aí, sim. O público, não só de Alenquer mas de muitas terras do Concelho aderiu a esse espectáculo – que era engraçado, tinha uma boa montagem, uma música muito bonita de Valdemar Moreira e com um naipe esplêndido de bons amadores – e encheu a casa durante as suas 15 representações. Seguiu-se dois anos mais tarde, do mesmo autor e no mesmo espaço, o Sporting, outra revista – que viria a ser última de Vítor Santos e que se chamava “Sua Alteza, Alenquer…”

Passaram 7 anos e durante este lapso de tempo não mais houve revista em Alenquer, até que…

Em 1954, um pequeno grupo, muito jovem, de amadores e que já tinha apresentado umas peças em 1 acto na garagem do Martinho Abreu, em Stª Catarina com o patrocínio do Sport Alenquer e Benfica, que foram dirigidos por Salomão de Lemos Figueiredo, ensaiou e apresentou num palco desmontável da antiga Auto-Mecânica, uma revista intitulada “Alenquer e a Cepa Torta”.

Essa revista, em que ninguém acreditava antes de ser apresentada, transformou-se logo na estreia no maior êxito teatral que Alenquer tinha conhecido até então. Deu, só em Alenquer, 20 representações seguidas, 2 em Alhandra e 2 em Vila Franca de Xira. O público acorreu de todo o Concelho para ver esse espectáculo e que um crítico de teatro classificou no semanário “ A Verdade” de “Milagre de Gente Humilde…” Foi o primeiro trabalho escrito pelo autor destas linhas, de colaboração com o seu tio Pilí.

A tradição da revista cimentou-se em Alenquer devido, não só ao êxito dessa revista, mas também ao gosto pelo teatro e persistência do seu autor que, a partir daí escreveu até hoje, além da Cepa Torta, Alenquer, Isto e Aquilo, Arraial Saloio, Alenquer de Cima a Baixo, Água-Pé Nova, Revista é P’ra Ser Revista e Alenquer Ponto por Ponto. Além das operetas Dia de Festa, A Florista da Rua e a peça infantil A Menina Pobre e os Cómicos, isto só em Alenquer.

Três factores contribuíram para o cimentar desta tradição: um conjunto de amadores que se manteve unido durante 46 anos; o aparecimento contínuo de novos amadores com muito talento; o cuidado das montagens e no guarda-roupa que atingiu um nível raramente visto fora do Parque Mayer.

Infelizmente a revista parece ter morrido em Portugal. Apenas a província mantém a apetência para esse espectáculo – que era o mais popular em Portugal.

Irá Alenquer deixar morrer a tradição que conquistou pela sua perseverança e amor pelo Teatro? Alenquer terá a última palavra a dizer…



Manuel-Girio_100

©Manuel Gírio (2000)
Autor de Teatro
in Jornal D’Alenquer, 1 de Abril de 2000, p. 12

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