Camões e Alenquer (V): Raízes – A família paterna

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Camões e Alenquer (V)

Raizes: a família paterna

Manuel Severim de Faria (1583-1655), chantre e cónego na Sé de Évora, fez publicar, em 1624, Discursos Vários Políticos. Esta obra inclui uma “Vida do grande Luís de Camões, com noticias que se não acham nas edições impressas”. Nela apresenta Severim uma genealogia dos Camões, de quem também descendia, justificando-a deste modo: «E, porque a pobreza com que viveu [Luís de Camões] tinha escurecido em parte, a clareza de seus antepassados, começaremos esta relação de sua vida dando-a um pouco mais larga de sua família, para que sobre este ilustre fundamento fique mais estimado seu engenho.»

Porque para tentar clarificar uma relação de Luís de Camões com Alenquer é obrigatório mergulhar nas suas raízes familiares, apresentamos um esquema genealógico baseado nas informações de Severim de Faria. Além do esquema, algumas notas retiradas ao mesmo autor, sobre os antepassados pela linha varonil: o trisavô, Vasco Pires, o bisavô, João Vaz, e o pai Simão Vaz. Sobre o avô, Antão Vaz, Severim nada acrescenta à informação sobre o seu casamento.

Camões e Alenquer Raízes: a família paterna

Camões e Alenquer – Raízes: a família paterna

O trisavô
«A família de Camões é natural do reino da Galiza, do qual se passou a Portugal Vasco Pires de Camões em tempo de el-rei D. Fernando, por ter seguido suas partes contra el-rei D. Henrique de Castela, o Bastardo. A este fidalgo deu el-rei D. Fernando, neste reino, em lugar do que deixara em Galiza, as vilas de Sardoal, Punhete, e Marão e Amêndoa, com o concelho de Gestaçô, e as herdades e terras que foram, em Estremoz e Avis, da infanta D. Beatriz. E o fez alcaide-mor de Portalegre e Alenquer e um dos principais fidalgos de seu Conselho. Obrigado Vasco Pires destas mercês, seguiu depois as partes das rainhas D. Leonor e D. Beatriz contra el-rei D. João I de Portugal, como largamente se contém tudo nas crónicas do mesmo rei. Pelo que, sendo preso na batalha de Aljubarrota, perdeu todos os vassalos e fortalezas que tinha no Reino. E somente lhe deixou a benignidade real as terras e herdades de Estremoz e Avis e outros bens particulares que tinha em Alenquer e Lisboa, de que seus descendentes instituíram, depois, morgados rendosos, principalmente em Avis e na cidade de Évora, às quais pelo apelido deu o povo o nome de Camoeiras»

O bisavô
«João Vaz de Camões, filho segundo do primeiro Vasco Pires de Camões, foi vassalo de Sua Alteza D. Afonso V (título muito principal naquele tempo) e serviu ao mesmo rei nas guerras de África e Castela. Viveu na cidade de Coimbra, da qual foi benemérito cidadão, indo por seu procurador às Cortes daqueles trabalhosos tempos da criação del-rei D. Afonso (Governo do Infante D. Pedro). Teve o cargo de corregedor daquela comarca, ofício então de grande jurisdição, porque não havia mais que seis no Reino, e ordinariamente eram fidalgos muito honrados. E não professavam letras, como ainda agora se usa em algumas partes de Espanha.

Tudo isto consta do epitáfio de sua sepultura, que está em uma capela da crasta da Sé de Coimbra que o mesmo João Vaz de Camões mandou fazer, onde, à parte do Evangelho, se vê um túmulo levantado, de mármore, todo lavrado de figuras de meio-relevo, e nos cantos, duas maiores, com escudos das suas armas nas mãos, e em cima do túmulo está a figura do mesmo João Vaz, armado ao modo antigo com uma espada na mão, e aos pés um rafeiro. Esta capela tem agora o arco quase tapado de uma parede de tijolo, porque, como faltaram os descendentes, ficou devoluta e sem haver quem a ornasse e tivesse cuidado dela. O letreiro da sepultura diz assim: ‘Aqui jaz João Vaz de Camões, vassalo del-rei D. Afonso V, que fez muitos serviços nas guerras de Castela e África. Nasceu na cidade do Mondego, de que foi procurador nas Cortes e corregedor da comarca. Feneceu a 26 de Julho de 1493. Requiem aeternam dona ei, Domine. »


O pai
« […] Simão Vaz de Camões, que indo por capitão de uma nau à Índia, segundo Pêro de Mariz, se perdeu na Costa da Terra Firme, e, escapando do naufrágio, morreu pouco depois na mesma cidade.»



Esta foi, durante muito tempo, a genealogia conhecida e comummente aceite desta família. Já neste século, estudos mais profundos sobre as origens de Camões vieram revelar alguns novos dados.


Filipe-Rogeiro

©Filipe Soares Rogeiro (2000)
Licenciado em História
in Jornal D’Alenquer, 1 de Maio de 2000, p. 33

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