Carregado: quando a agricultura era dominante

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Carregado: quando a agricultura era dominante

A produção cerealífera em Portugal foi invariavelmente sempre deficitária, mas no contexto de deficit crónico, a lezíria ribatejana, de que o Carregado faz parte, poderia considerar-se privilegiada em termos de produção, devido à boa produtividade das suas terras, o que infelizmente não contribuía para que Portugal nunca conseguisse mitigar a fome ancestral da sua população.

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Sendo hoje a freguesia do Carregado onde a agricultura tem menos peso económico no conjunto das restantes freguesias do concelho de Alenquer, assim não foi no passado. Estando o Carregado intimamente ligado à lezíria ribatejana, onde inúmeras quintas a ponteavam, hoje praticamente residuais, estas terras eram muito ricas em termos agrícolas, excedendo quase sempre as necessidades locais, o que levava a que a produção excedentária fosse escoada principalmente para Lisboa.

Esta área era rica em cereais, como sejam o trigo, se bem que a cevada, o milho e até o centeio também aqui se produzissem. O foral de Alenquer de 1212 menciona o trigo e o milho como principais culturas de pão.

O rio Tejo foi, até à chegada do caminho-de-ferro, a grande via de escoamento dos excedentes da produção cerealífera da região ribatejana, a partir de Santarém em direcção a Lisboa.

Nos finais do século XVI o país estava dividido em 29 almoxarifados para efeitos de centralização económica e de cobrança de rendimentos. Em Alenquer havia um deles. O almoxarifado de Alenquer era considerado um dos “maiores”, havendo necessidade de se proceder à sua divisão em almoxarifados “menores”, daí existirem dois nestas condições nas lezírias de Vila Franca e do Paúl de Ota, o que atesta a importância e a dinamização económicas do concelho de Alenquer.

Em anos de escassez o trigo podia atingir valores muito elevados. Em 1238 o alqueire de trigo era avaliado na região de Alenquer em 1 soldo, enquanto em 1317 o preço do alqueire se situava entre os 10 e os 12 soldos; em alturas de fome podia chegar aos 20 soldos.

Nos tempos de ocupação da cidade de Ceuta, existem registos que comprovam que entre 1440 e 1460 a lezíria ribatejana exportava trigo e outros cereais para esta praça do Norte de África.

As colheitas de 1413 foram bastante escassas, levando a que Lisboa gozasse do privilégio de isenção de dízima e de sisa no pão importado pela cidade, quer a importação se fizesse de dentro do país, quer do estrangeiro. Este privilégio foi prorrogado até 1 de Janeiro de 1415, o que levou a que os moradores de vários termos, entre os quais os de Alenquer se recusassem a enviar trigo para Lisboa.

A produção cerealífera em Portugal foi invariavelmente sempre deficitária, mas no contexto de deficit crónico, a lezíria ribatejana, de que o Carregado faz parte, poderia considerar-se privilegiada em termos de produção, devido à boa produtividade das suas terras, o que infelizmente não contribuía para que Portugal nunca conseguisse mitigar a fome ancestral da sua população.

Pode-se afirmar que as grandes necessidades que Lisboa tinha de cereais, e principalmente de trigo, é que leva a que a lezíria cultivasse os cereais para assim responder às necessidades da capital, e dessa forma os lavradores, nomeadamente os da zona do Carregado, conseguissem dessa forma aumentar os seus rendimentos, o que não era líquido se cultivasse outros produtos agrícolas, mesmo que as terras fossem apropriadas para os mesmos.



Paulo Carvalho

©Paulo Carvalho (2000)
director da Biblioteca Municipal do Carregado
in Jornal D’Alenquer, 1 de Maio de 2000, p. 32

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