O rosto do medo

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Um olhar sobre a União Europeia

O rosto do medo

Com todo este mediatismo, o partido de Haider poderá beneficiar da extraordinária promoção mundial que os outros países da UE têm feito. Pelo menos já beneficiou do facto de que 70% da população austríaca está a favor do novo executivo, ou seja mais 16% do que aqueles que votaram nos dois partidos que formam governo.

Ultimamente muito se tem falado e criticado sobre a ascensão ao poder de um partido de extrema-direita na Áustria, mais concretamente o FPO de que é líder o agora muito conhecido Joerg Haider.

Quero deixar bem claro que não partilho de forma nenhuma a ideologia defendida pelo FPO, acho que a humanidade já sofreu demais com governos xenófobos sendo o maior exemplo o governo de Hitler na Alemanha nazi. Mas o que me leva a escrever sobre este tema é sobretudo, pela reacção europeia face à entrada da extrema-direita no governo da Áustria, decretando o seu isolamento.

Será que a política condenatória seguida pelos 14 membros da UE (União Europeia) terá eficácia ? E que sentimentos poderá desencadear ?

Pelo menos para a presidência Portuguesa da UE o êxito mediático ficou garantido. O Eng. Guterres não precisa de se preocupar se não conseguir avançar nas pastas prioritárias para a presidência Portuguesa, que eram o emprego e o alargamento da UE. Porque durante estes meses a Áustria é o único tema, dando assim muito jeito para disfarçar a falta de iniciativa ou de poder de decisão, chegando ao ridículo de na última cimeira em Lisboa, cujo tema principal era a discussão de medidas para combater o desemprego na Europa, ocupar-se a maior parte do tempo de antena nos órgãos de comunicação social a discutir se uma simples fotografia era de grupo ou de família, tudo devido há presença nessa fotografia do chanceler Áustriaco Wolfgang Schussel. Quanto a medidas concretas para combater o desemprego, nada se soube !
Com todo este mediatismo, o partido de Haider poderá beneficiar da extraordinária promoção mundial que os outros países da UE têm feito. Pelo menos já beneficiou do facto de que 70% da população Áustriaca está a favor do novo executivo, ou seja mais 16% do que aqueles que votaram nos dois partidos que formam governo. E ninguém se surpreendia se o Sr. Haider provocasse novas eleições, fazendo com que caísse o actual governo e alcançasse a maioria, chegando a chanceler ? Então ai o que seria desta Europa ?

Porém, é bom que se diga que não é a primeira vez que nas últimas duas décadas o mesmo partido que hoje é dirigido por Haider, contribuiu para viabilizar um governo. Entre 1983 e 1986 este partido, então liderado por um ex-oficial das «Waffen SS», Friedrich Peter, apoiou o governo socialista Áustriaco dirigido por Bruno Kreizsky. Embora na altura o FPO representasse menos de 5% dos votos, ninguém protestou, ou se o vez foi sem êxito.

A democracia não se pode desrespeitar a si própria. Como se explica aos 27% dos eleitores que votaram em Haider, (que acreditaram no sistema democrático) que o seu voto não vale ?

Existe uma discriminação de eleitores, criando-se leis que valem só para alguns e não para todos. A democracia assim entra em contradição. Se regimes democráticos não respeitarem os resultados eleitorais, como pretendem que outros os respeitem ?

Para mim esta reacção poderá ser a confissão dos medos da Europa, e todo este frenesim à volta de Haider, denunciam fraqueza, insegurança, mostrando recear os movimentos da extrema-direita, que fervilham alguns ocultos, outros nem por isso na Europa.

Como se sabe a melhor maneira de ser mordido por um cão, é mostrando-lhe medo. E é obvio que a extrema-direita Europeia apercebeu-se desse medo, e com certeza irá tentar novas aventuras daqui para a frente, estando mais moralizada para agir.

É um erro tentar marginalizar os movimentos extremistas, sejam eles de direita ou de esquerda, é necessário, pelo contrário, fazer com que eles façam parte do sistema democrático, levá-los a aceitarem as regras da democracia, do estado de direito, a participarem nas eleições; e temos como exemplo deste método a democratização de muitos ex-partidos comunistas. Impedindo-os de participarem na vida democrática só os fortalecerá tornando-os mais duradouros. Assim a sociedade poderá estar a legitimar o recurso a actos antidemocráticos.

É importante perceber o aparecimento em muitos países Europeus de movimentos neopopulistas de um nacionalismo agressivo e xenófobo. (Na França com a Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen, em Itália o Movimento Social Italiano de Alexandra Mussolini, na Rússia o partido de Vladimir Jirinovski, na Espanha e na Alemanha as agressões a emigrantes que cresce dia após dia, e tantos outros preocupantes exemplos que poderia referir).

Parece-me que este despertar de um nacionalismo que se julgava já “morto e enterrado” em parte é resultado do fenómeno irreversível da globalização sem controle que gera a concentração da riqueza o alastrar da pobreza e a insegurança da classe média, que por sua vez favorecem o aparecimento de movimentos extremistas.

E é bom que a UE seja capaz de dar a este fenómeno respostas inovadoras, criativas, capazes de controlar esta germinação ideológica extremista, chega de tomar atitudes ridículas, de produzir declarações ocas, é altura de acordar e sair do ciclo vicioso das viagens de avião, das intermináveis reuniões, das fotografias, enfim de uma política de aparência e sem conteúdo. É necessário novas ideias para uma nova Europa. Esta é que é a realidade, e não adianta ignorá-la.

Por tudo o que escrevi neste artigo, sobre os acontecimentos na Áustria, acredito que a atitude da UE e da sua Presidência em exercício liderada pelo Eng. António Guterres, foi um lamentável e triste erro.


Pedro-Afonso



©Pedro Afonso (2000)
in Jornal D’Alenquer, 1 de Maio de 2000, p. 27

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