Romaria centenária em honra a Santa Quitéria de Meca

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Romaria centenária

Em honra a Santa Quitéria de Meca

A habitual “benção do gado” é o ritual mais simbólico de todos os festejos

 

Meca: benção do gado

Benção do gado, o ritual mais marcante da romaria a Santa Quitéria de Meca

Meca: benção do gado

Romaria a Santa Quitéria de Meca

 

Meca, pequena aldeia, sede de freguesia, recebeu, nos dias 26 a 29 de Maio, a tradicional festa anual, que hoje já pouco lembra a centenária romaria montanhesa, onde acorriam numerosos pastores com os seus rebanhos para a tradicional “benção do gado”, para assim preservar os animais das doenças, principalmente da raiva. Hoje os romeiros são mais citadinos, acostumados a novos hábitos, embora ainda existam muitos devotos, conforme se pode verificar nos dias festivos. Eram muitos os que transportavam as fitas de nastro como suporte das famosas argolas (bolos da festa). Pelo seu ar de felicidade, com certeza estavam agradados de ali estarem e davam garantias de terem ficado devotos de tal romaria.

No primeiro dia, pelas 08:00, o repique dos carrilhões da “Basílica de Meca” anunciou o início dos festejos, mas foi à noite que houve mais animação: vacada nocturna, baile popular, exibição do “Grupo Folclórico da Casa do Povo de Camacha” e “sardinhada com pão e vinho”. Sábado, dia 27, foi a vez da actuação da banda “Santamaria” e da “Noite de Gala”, com o agrupamento musical “Código”.

Domingo 28, houve a missa solene, celebrada por três sacerdotes e sermão, que foi ouvido com muito respeito por todos. Durante a manhã, a “Casa do Nastro” teve bastante movimento, com os visitantes a quererem comprar velas, nastro e pequenas figuras de cera benzidos. Seguiu-se a procissão, muito concorrida, que começou com o pendão, logo seguido dos andores dos diversos patronos dos lugares da freguesia. O andor de São José foi transportado pelos habitantes do Fiandal; o andor de Nossa Senhora da Conceição pelos habitantes do Catém; O andor do Mártir São Sebastião, pelos habitantes da Espiçandeira e o andor de Nossa Senhora de Fátima pelos habitantes de Bogarréus; por fim, o andor do Sagrado Coração de Jesus foi conduzido, em paga de promessa antiga, por um grupo de homens; a procissão encerrava com o andor de Santa Quitéria de Meca. Atrás de cada um dos andores seguiam romeiros em pagamento de promessas. À noite, houve concerto pela banda da Sociedade União Musical Alenquerense, nova actuação do grupo folclórico madeirense e baile com o conjunto “Millennium 2000”.

A romaria de segunda-feira dia 29, começou às 12 horas, com a missa por intenção dos confrades e às 13,00 teve lugar a habitual “benção do gado” com os animais mostrando as fitas de nastro benzidas, enroladas nos chifres ou à volta do pescoço, para assim afugentarem a “raiva”, o ritual mais simbólico de todos os festejos que atingiram o seu término com o tradicional “baile fim de festa” abrilhantado pelo “DUO MUSICAL CÉLIA”.

Santa Quitéria

Santa Quitéria de Meca

Santa Quitéria de Meca

Entre as biografias que se propunha escrever, S. Gregório de Tours (538-594) anunciava uma De Quitteria virgine, que provavelmente não chegou a redigir. Nada mais se sabe ao certo a respeito de Santa Quitéria.Nos princípios do séc. XII, um martirológio francês regista a 22 de Maio a morte de Santa Quitéria, mártir, sem nada esclarecer quanto ao tempo e lugar do martírio. Desde então, o culto começa a expandir-se, de modo que no séc. XV já a Santa é venerada como virgem e mártir em quase toda a Europa ocidental e possui uma lenda biográfica.

A mais antiga versão faz de Quitéria filha do rei Catílio, descendente de Juliano Apóstata (que não teve descendência). Tendo consagrado a Cristo a sua virgindade. Quitéria rejeita Germano, o noivo que os pais lhe destinaram. Foge de noite com três amigas, oito servos e um anjo, passa ao vale de Eufrágia, sobe ao monte Columbiano e encontra uma fonte e outro anjo.

Domina essa região uma espécie de régulo, chamado Leutimanso, que a manda prender. Dá-se imediatamente um grande tremor de terra; convertem-se os carcereiros, curam-se numerosos doentes e o próprio régulo, que ficara surdo e cego, recupera o uso dos sentidos. Sobrevém Germano que manda cortar a cabeça a Quitéria, e esta toma-a nas mãos e encaminha-se para o túmulo que Deus lhe tinha preparado no Monte Columbiano.

Em França a tradição é imprecisa quanto à época do martírio; algumas versões da lenda fixam-no a 22-V-447. Não acertam os autores na identificação dos lugares, mas é na região de Gasconha que o culto da santa se encontra mais espalhado. Chegam mesmo a atribuir-lhe um antigo túmulo cristão existente na cripta da igreja de S. Pedro no Mas-d’Aire, perto da pequena cidade de Aire-sur-l’Adour. No fim do séc.XV já a lenda tinha entrado em Espanha, como consta o breviário de Toledo de 1493.

Foi porém, no fim do séc. XVI, com o aparecimento dos falsos Cronicões, que ela se desenvolveu numa série de prodígios inverosímeis. Arquitectou-se então a célebre fábula das nove irmãs nascidas de um só parto: Liberata ou Wilgeforte, Gema ou Marinha ou Margarida, Eumélia ou Eufémia, Genebra, Gémina, Basilissa, Márcia, Victória e Quitéria.

Os hagiólogos portugueses atribuíram o sucesso à cidade de Braga e, de parceria com os espanhóis, fantasiaram as mais extravagantes lendas a respeito de cada uma das irmãs gémeas. Os castelhanos localizaram o martírio de Quitéria perto de Toledo. Os portugueses, como o latim da lenda menciona o mons Columbianos ou Columbarius, escolheram para teatro do acontecimento, ao sabor da fantasia, uns o Pombeiro do concelho de Felgueiras, outros o Pombeiro do concelho de Arganil. No primeiro, construiu-se, de 1719 a 1724, um santuário dedicado a Santa Quitéria. Em Braga, a santa foi admitida, com muitas outros supostos santos locais, no breviário editado por D. Rodrigo de Moura Teles em 1724. No Porto, o culto começou na igreja do colégio da Companhia de Jesus, pelo ano de 1706. Em Lisboa, começou na casa professa de S. Roque em 1713 e passou em breve ao convento dos Paulistas, ao de Jesus, ao do Carmo, etc..

in Grande Enciclopédia Portuguesa-Brasileira.

Origem do culto

Origem do culto a Santa Quitéria de Meca

Origem do culto a Santa Quitéria de Meca

“Conta a tradição que no anno de 1238 apparecera n’um espinheiro, no sitio da quinta de S Braz, uma imagemzinha de Santa Quiteria advogada contra o terrível padecimento a hydrophobia. Levantou-se uma ermidazinha para receber a imagem no sitio aonde appareceu mas as curas milagrosas attribuidas a intercessão da Santa foram tantas e deram logar a tamanha concorrencia de devotas, que foi necessario edificar uma ermida maior, o que se fez no sitio da actual capella. Formou-se depois uma confraria que pelo curso dos annos se tornou uma das mais ricas de Portugal, e no reinado de D. Maria e resolveu-se edificar uma ermida com a magnificencia e solidez devida a tão respeitável e abastada corporação.”

in Alenquer e o seu concelho, de Guilherme João Carlos Henriques (Edição de 1873).

Basílica de Santa Quitéria de Meca

Basílica de Santa Quitéria de Meca

Basílica de Santa Quitéria de Meca

Situada a poucos quilómetros de Alenquer, esta igreja é talvez, uma das mais belas do Concelho, e é sem dúvida, a única entre nós, apresenta uma equilibrada unidade arquitetónica e decorativa e uma bem clara marca temporal: a segunda metade do século XVIII.

Santa Quitéria, como um perfeito modelo e exemplo da arquitectura neo-clássica, com raízes nas linhas do convento de Mafra e uma notória aproximação estilística da Basílica da Estrela, sua contemporânea. Por tais motivos, não será descabida a hipótese do seu arquitecto, morto, conforme a tradição local, de uma queda do alto de uma das torres, ser um dos muitos mestres ligados aos trabalhos da basílica lisboeta.

Mandada edificar pela confraria de Santa Quitéria de Meca, na altura uma das mais ricas e poderosas de Portugal, e sob a protecção régia de D. Maria I, a igreja estava terminada nos últimos anos do século XVIII, (a data de 1799, inscrita sobre uma janela lateral do edifício, dá-nos essa informação). Concluída o obra, a mesma Senhora obteve do Papa Pio VI que fosse declarada pertença da Basília de S. João de Latrão e, como tal, goza das grandes indulências e graças espirituais destaformosa Basílica. Em 1847, acabada a freguesia de Espiçandeira, passou a ser Matriz a Igreja de Meca.

Construída em calcáreo da região (o local donde se extraíu a pedra para esta obra, ainda hoje é conhecido por “pedreira da Santa”), a igreja tem duas elegantes torres sineiras, e uma movimentada fachada dividida a toda a altura, por seis pilastras de capitéis jónicos que definem os espaços onde se abrem os três janelões gradeados e os três pórticos frontais de galilé. Uma cornija bastante saliente, correndo pela base das duas torres, um frontão central com arcos contracurvados aberto num óculo quadrilobado, e uma grande profusão de urnas com fogaréus flamejantes, completam a composição ornamental exterior. O interior, de uma só nave e um curto transepto é notável pelos seus mármores e pelas suas pinturas. De entre estas, destacaremos em primeiro lugar, pelo seu elevado valor artístico, as duas grandes telas dos altares do cruzeiro, representado do lado da Epístola, a “Pregação de João Baptista”, e do lado do Evangelho “A última Ceia”, esta com a assinatura do pintor Pedro Alexandre (1730-1810). Aos lados do altar-mór, duas outras telas com os temas da “Aparição de Santa Quitéria” e a “Entrada da imagem na nova igreja”, são dois bons exemplares dos finais da segunda metade do século XVIII.

O tecto em berço da nave da igreja, é de maneira forrada de tela, pintada com grisalhas; os tons predominantes são os cinzentos, os verdes e o oiro, que se fundem numa bela harmonia criando uma perfeita ilusão de relevos que envolvem vários medalhões com cenas da vida e do martírio de Santa Quitéria. Na parte central da abóbada do cruzeiro, em tecto de masseira, e pintados directamente sobre madeira “Os quatro evangelistas” de gosto italiano.

São ainda dignos de referência as pinturas do tecto da sacristia no rés-do-chão, e as pinturas de cavalete aí existentes, nomeadamente uma “Nossa Senhora da Conceição”. De grande valor são os parâmetros e os vasos litúrgicos da igreja.

No largo fronteiro está a trono circular, de pedra, de onde se procede à benção do gado, que tem lugar durante a festa anual, que ocorre todos os anos em Maio. Esta cerimónia ainda hoje se faz e completa-se com a compra do nastro cor de rosa benzido, para atar ao pescoço dos animais que depois da benção, e segundo a tradição, ficam libertos do terrível flagelo da raiva.

in Revista Confraria de Santa Quitéria.

Entrevista a Ângelo Firme, o último cobrador da Confraria de Santa Quitéria de Meca

Hernâni de Lemos Figueiredo

©Hernâni de Lemos Figueiredo (2000)
director do Jornal D’Alenquer
in Jornal D’Alenquer, 1 de Junho de 2000, p. 18 e 19

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