Entrevista a… Ângelo Firme, o último cobrador da Confraria de Santa Quitéria de Meca

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Ângelo Firme, o último cobrador da Confraria de Santa Quitéria de Meca

Ângelo Firme, o último cobrador da Confraria de Santa Quitéria de Meca

Ângelo Firme, o último cobrador da Confraria de Santa Quitéria de Meca

Dum tempo em que, quando os festeiros saíam “paramentados” com as opas vermelhas, com a bandeira da santa, com os gaiteiros e fogueteiro e que eram acompanhados por uma banda de música, havia um cobrador que, meses antes da festa começar, percorria parte do país

Como sucede com a maioria das romarias, a de Meca também é precedida dum peditório, embora hoje já sem aquele ritual que tornava o peditório noutra festa. Dum tempo em que, quando o peditório era na freguesia, os festeiros saíam “paramentados” com as opas vermelhas, com a bandeira da santa, gaiteiros e fogueteiro e que eram acompanhados por uma banda de música, havia um cobrador que, meses antes da festa começar, percorria parte do país, a visitar os confrades, com a mesma missão: angariar fundos para a festa. Jornal D’Alenquer ouviu Ângelo Firme, hoje com 78 anos o último cobrador da Confraria de Santa Quitéria de Meca.

Quando começou a ser cobrador da Confraria?
Comecei após a morte do meu pai. Chamava-se José Firme mas era conhecido por José do Ângelo.

Sabe quando começou a tradição dos cobradores?
Não sei ao certo quando começou. Só sei que o meu pai era cobrador em simultâneo com um outro senhor chamado Pires que vivia só numa casa que pertencia à Confraria. Eram os dois cobradores, pois a “volta” era muito grande e demoravam muito tempo, porque andavam a cavalo. Quando morreu o Pires ficou só o meu pai.

Quais as localidades onde se deslocava para visitar os confrades?
Abrantes, Algés, Alpiarça, Amadora, Aveiras, Benavente, Benavila, Caldas da Rainha, Carnaxide, Linda-a-Pastora, Linda-a-Velha, Lisboa, Lourinhã, Mafra, Montemor, Peniche, Ponte de Sor, Pontével, Santarém, Torres Vedras, Vila Nova da Rainha, e também parte do Alentejo.

Quando começava a visita aos confrades?
Começava vários meses antes da festa, assim que o tempo o permitisse, e era por longos períodos. Algumas vezes só vinha a casa para ver a família e mudar de roupa.

Como era recebido pelos confrades?
Era muito bem recebido. Para além das ofertas para a festa, ofereciam-me dormida e comida, para mim e para o cavalo. Muitas vezes eram os próprios confrades que se mostravam desgostosos com a minha demora a aparecer. Eles pagavam convictos que assim livravam os seus animais dos malefícios da raiva.

O que levava que o credenciava como o “Cobrador de Meca”?
Levava desenhos e medalhas de Santa Quitéria e bolinhos pequenos benzidos (breirinhas), que oferecia aos confrades para estes darem aos animais para protegê-los contra a raiva.

Ainda se recorda qual era a actividade dos confrades?
De uma maneira geral os confrades eram todos agricultores e viviam em boas casas senhoriais.

Estava muito tempo fora de casa?
Chegava a estar sessenta dias fora de casa e às vezes apanhava muito mau tempo.

Quer dizer que chegou a ter problemas nas suas viagens?
Apesar de não andar armado, nunca tive problemas de assaltos Uma vez, ao pé de Óbidos, apanhei uma trovoada e as cheias foram tão repentinas e intensas que iam levando o cavalo, comigo em cima, mas ele estava tão bem ensinado que já conhecia o caminho de casa e nem sequer foi preciso guiá-lo para chegarmos a Meca.

Quanto tempo andou nessa vida?
Andei cerca de 40 anos.

Então a sua vida era só essa?
Não. Também tratava das terras que o meu pai me deixara.

Tem algum segredo que queira desvendar?
Os segredos mais íntimos da Confraria desapareceram quando os habitantes mais antigos morreram.

Na nossa conversa, Ângelo Firme mostrou interesse em visitar um seu irmão que morava em Aveiras de Baixo. Para lá nos deslocamos e ao passarmos junto de Vale Paraíso, logo aí ele lembrou:
“O fogueteiro da Festa de Meca era de Vale Paraíso e chamava-se Júlio. Costumava dormir na minha casa”.



Romaria centenária em honra a Santa Quitéria de Meca





©Hernâni de Lemos Figueiredo (2000)
director do Jornal D’Alenquer
in Jornal D’Alenquer, 1 de Junho de 2000, p. 18 e 19

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