Entrevista a… Fundadores do GADEPO (Grupo de Apoio e Defesa do Património de Ota)

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Entrevista aos fundadores do GADEPO – Grupo de Apoio e Defesa do Património de Ota

Ainda existem vinte famílias na Ota com esgotos a céu aberto. Quando há eleições todos se lembram dos esgotos, depois mais ninguém fala no assunto.

Deodato Coelho
Um dos fundadores do GADEPO

“A ideia de criar este grupo foi com base no património que temos, quer ambiental quer histórico: várias quintas e vários monumentos. Tudo isto é património e história de Ota. A nível ambiental temos a Serra da Ota, que é rica em factos históricos também. Uma dessas riquezas é o castro e outra, toda a sua beleza paisagística”. “O reviver do passado, melhorando o presente, projectando o futuro”, foi assim que, no passado dia 18 de Abril de 2000, começou a nossa conversa com um grupo de habitantes de Ota, impulsionadores da GADEPO, Grupo de Apoio e Defesa do Património de Ota.

Quem aderiu?
Somos catorze os fundadores do GADEPO mas há sempre mais algumas pessoas, que não pertencendo ao grupo inicial, ajudam no que for preciso

Sede?
Por enquanto não temos sede. Reunimos em casa, na garagem, na Junta. É uma sede itinerante.

Apoios oficiais?
A Junta de Freguesia deu-nos o apoio naquilo que precisamos. Cederam-nos as instalações da Junta para quando quiséssemos fazer á as reuniões. Mais tarde tivemos conversações com os Baldios, que gerem a serra e toda aquela zona envolvente.

Existem conflitos?
Com os caçadores sim, pois têm uma reserva de caça, construída há uns anos e agora anexaram a Serra de Ota à reserva deles. Na serra encontramos caçadores à direita e à esquerda, por cima e por baixo. Há caçadores por todo o lado e isso é impeditivo da nossa acção. Queremos fazer da serra um espaço de lazer onde as crianças possam andar à vontade, sem perigos, sem conflitos, sem confusões, e ter uma caçador a atirar a um coelho, por muito cuidado que tenha, pode sempre existir o perigo de um acidente.

Como pensam contornar a situação?
Temos de lutar para sensibilizar as entidades competentes para que o nosso projecto siga em frente. São reservas do pessoal de Ota e não só de alguns.

Não há possibilidades de incluir os caçadores no projecto?
A colaboração da nossa parte é total e até houve uma reunião a 7 de Abril, com pontos apresentados à Comissão de Caça.

Então quais foram as vossas propostas?
Apresentamos à Comissão de Caça do Conselho dos Baldios de Ota as seguintes propostas: a proibição de caçar no leito e nas margens do Rio de Ota; que a caça se praticasse só às quintas-feiras; a proibição de caçar na “estrada dos mouros” na área do Castro de Ota; que não se abrisse caminhos para facilitar a caça, protegendo assim todas as características físicas, estéticas e ambientais da serra que deverá ser de todos. Também fizemos algumas perguntas como por exemplo: se os caçadores tencionavam caçar, na próxima época venatória, em toda a área da serra e em que dias; se estavam previstas algumas zonas de protecção na área da serra. Como tudo foi negado, nós perguntamos: qual a segurança que temos para dar à população de Ota, aos nossos filhos e aos nossos netos ?

Então como pensam resolver o obstáculo?
Queremos chegar à legalização total e a partir daí entrar na base do diálogo, para chegarmos a um consenso. Somos um grupo de 14 pessoas a trabalhar para toda a população de Ota e se eles aderirem melhor será, para assim podermos fazer uma coisa de interesse para todos. Estamos sempre abertos ao diálogo. Aquele espaço poderia ser para reprodução de animais, ser uma zona de repovoamento para criar os animais e levar para outros lados. Eu, como caçador que sou, não vejo que seja fácil a caça ali na serra. Tem muita vegetação que vai afectar a caça, não é fácil. Com o nosso projecto vai-lhes facilitar a caça. Temos de ir abrir caminhos, que havia antigamente e agora não estão abertos. Vão ser abertos e condicionados, de modo a que passem só pessoas, evitar que entrem motas, que perturbem as pessoas.

Já têm tido alguma acção?
Começamos a limpar o rio e embora já se veja trabalho, a água está poluída, pois há esgotos de pecuárias a desaguarem para ali. Todos os trabalhos que fizemos é tudo com equipamento nosso, motosserras, roçadores, gasolinas e óleos, é tudo pago por nós. Temos uma oferta dos Baldios de uma roçadora e motosserra. Estou convencido que com diálogo vamos lá. Os caminhos dos Mouros já estão a ser limpos e já dá para passar um tractor. Também organizamos na serra uma prova de BTT. Nós, Gadepo, estivemos presentes no Dia da Árvore com cento e oitenta crianças. Foram plantados quatrocentos pinheiros. A acção correu muito bem. Temos o “canhão” que é bom para escalar e é uma actividade que nos propomos activar mais tarde. Na zona das aves de nidificação estamos a pensar colocar uma plataforma de 4m2, que também vão servir para as pessoas fazerem escaladas. Alguém tem de vir fazer o estudo das aves. Este trabalho também serve para combate aos fogos.

Fernando Lopes também presente, num fôlego só, despejou o saco:
Isto é um grito de alerta aqui na freguesia da Ota, que tem um passado histórico a preservar, uma zona florestal das poucas existentes no distrito de Lisboa, com a excepção de Monsanto e Montejunto. Não tem sido dada a importância merecida e para quem nasceu em Ota, custa entrar na serra e ver que no lado sul estão as pedreiras e no lado norte estão mais pedreiras. Está-se a mexer com interesses económicos muito grandes: a caça, as pedreiras, etc., mas se não mexerem agora, pior ainda. Sente que os interesses particulares se sobrepõem aos interesses naturais da população, mas o prazer de andar na serra e caminhar entre zonas verdes, esse, ninguém lhe tira. A Ota tem sido esquecida, pois para além da serra que há a preservar, tem uma lixeira a céu aberto. A Câmara deveria contrabalançar com outras contrapartidas, para não sermos tão massacrados em questões de ambiente. E vão ter agora o aeroporto. Só espera que a sua Serra de Ota, não vá ser os futuros Casal Ventoso, ou Musgueira. Existe um património entregue à Direcção Geral de Florestas e à administração dos Baldios e deseja que o Conselho dos Baldios não o venda aos bocadinhos, como têm feito até agora, com os acessos para as pedreiras e com o aluguer aos caçadores, esquecendo a população de Ota. Gostaria que a Serra um dia mais tarde fosse um jardim, fosse uma área protegida, que fosse considerada património arqueológico. No seu entender, há que preservar a zona arqueológica. Os guarda-fogos foram bem-feitos, mas não foi pedida satisfação a ninguém. Existe a zona das grutas naturais e artificiais, e também ninguém as protege. Deixaram uma pedreira andar a fazer rebentamentos e agora as pessoas têm medo de entrar em certas grutas, não vá haver uma derrocada. Ainda existem vinte famílias na Ota com esgotos a céu aberto. Quando há eleições todos se lembram dos esgotos, depois mais ninguém fala no assunto.

Estávamos ambos cansados, não tanto pela conversa mas sim pelas altas horas da manhã, quando acabou esta amena cavaqueira com os fundadores do GADEPO, em casa do Deodato Coelho.

GADEPO - Grupo de Apoio e Defesa do Património de Ota

GADEPO – Grupo de Apoio e Defesa do Património de Ota
Fundadores: Ana Pereira, António Moreira, António Rocha, Carlos Pereira, Deodato Coelho, Emília Santos, Fernando Magação, Hugo Honrado, Mário J. Pereira, Rita Gonçalves, Rui Miguel Pancadares, Rui Monteiro, Sérgio Soares e Sónia Ferreira.
Colaborantes: Abel Deodato Ferreira, Francisco José Honrado Coelho, Lopes dos Santos



Hernâni de Lemos Figueiredo

in Jornal D’Alenquer, 1 de Junho de 2000, p. 13
©Hernâni de Lemos Figueiredo (2000)
director do Jornal D’Alenquer

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