Entrevista a… Carlos Bernardino Leite, fundidor da estátua de Damião de Goes

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Sessão evocativa da memória de Damião de Goes

Entrevista a… Carlos Bernardino Leite, fundidor da estátua de Damião de Goes

Carlos Bernardino Leite, fundidor da estátua de Damião de Goes (Alenquer)

Carlos Bernardino Leite
Fundidor da estátua de Damião de Goes (Alenquer)




Bernardino Inácio Leite Sucrs Lda, de Gulpilhares, Vila Nova de Gaia, é a fundição mais antiga do país, neste tipo de trabalho. É uma estrutura familiar, com trabalho altamente artesanal, e a única do país com a capacidade de vazar 3000 kg de uma só vez. Com trabalhos importantes no seu palmarés, o maior por si fundido é o “Monumento às Gentes da Póvoa” (Póvoa do Varzim), do escultor Rui Anahory, estrutura com 3.10 metros de largura e 20 metros de comprimento, que no seu ponto mais ato chega aos 15 metros. Foi inaugurada em 1995. Este ano a maior que já está projectada é uma estátua de 5 metros.

No dia da instalação da estátua de Damião de Goes, ouvimos Carlos Bernardino Inácio Pereira Leite, sócio-gerente da firma fundidora de Gulpilhares.


Como se inicia um processo desta natureza?
O primeiro trabalho é feito por um escultor que cria um trabalho a pedido do cliente. De seguida o “formador” desenvolve o molde que vai à aprovação do escultor e passa à fundição, onde se corta o molde em diversas peças, conforme a necessidade de produção. Em estátuas estas peças são tratadas com areias verdes, sem resinas e isentas de tóxicos. Estas areias são óptimas para o processo do bronze e são sempre recuperadas.

Trabalham com areias?
Sim. O trabalho na areia é feito em estruturas de ferro, que são caixas onde as areias são calcadas à mão, que leva arame para criar uma rede de apoio. O processo é feito não de uma só vez, é feito em bocadinhos de areia de cada vez, antes de fazer a decalcação maior da caixa para permitir criar saídas à areia. Quando abrimos as caixas, fica o desenho em negativo completo da peça. O desenho fica impresso na areia. Depois é feito um contra molde, a que chamamos macho, que vai permitir dar a espessura do metal, a grossura com que a peça é trabalhada. As duas caixas, encostadas entre si, formando uma única é o que permite deitar o bronze lá para dentro. É toda oca e a espessura é normalmente 8 mm mas há sítios mais maciços e outros sítios mais finos. Depois escangalha-se o trabalho da areia e cada uma das diversas peça fundidas é peça única. Não é possível aproveitar os moldes das areias.

Damiao_a-estatuaA estátua é fundida numa só peça?
No caso da estátua de Damião de Goes, inicialmente previa-se uma peça com a zona do busto integral, cabeça e até ao meio do corpo; o saiote dividido em três peças; mais três peças para as duas pernas e para a base. Neste caso houve mais cortes, para reduzir os maciços que iriam existir na peça.

Como se ligam as peças?
As peças vão para a serralharia para limpezas, rebarbagem e depois para a montagem final. Quando necessário faz-se um tipo de cinzelagem. Nós, tecnicamente não somos cinzeladores/acabadores, quando muito rectificamos pequenas falhas. Nesta fase de serralharia, faz-se a montagem, os acabamentos e a soldadura. Aqui aplica-se a soldadura de bronze.

E, assim, está terminado o trabalho?
Falta o acabamento. Utilizamos um líquido ácido, feito com componentes neutros. A reacção com os metais produz aquela coloração. O óxido que adquire é que protege a estátua da erosão dos tempos. Enquanto a ferrugem destrói o ferro, esta capa esverdeada que ele adquiriu é uma protecção que não passa daquilo. Neste momento o bronze é o único que a poluição não toca.



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Hernâni de Lemos Figueiredo


in Jornal D’Alenquer, 1 de Julho de 2000, p. 4 a 7
©Hernâni de Lemos Figueiredo (2000)
director do Jornal D’Alenquer

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