Sr. Ministro da Cultura: por favor, demita-se

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Manuel Maria Carrilho

Sr. Ministro da Cultura: por favor, demita-se

Pela falta de consideração para com os alenquerenses, pela falta de respeito para com a memória e a obra de Damião de Goes, pela ignorância da importância que o grande humanista tem na História de Portugal, Senhor Ministro da Cultura, por favor demita-se
Carrilho

Alenquer parece apostada em voltar a ocupar o espaço que lhe é devido no país, na Europa e no mundo. À medida que se vai redescobrindo a sua história, as figuras e os acontecimentos que nela ocuparam lugares chave saem da obscuridade dos velhos manuscritos para as luzes da ribalta: foi assim com a obra “Alenquer seu Concelho” de Guilherme João Carlos Henriques, editado em 1873, que numa maneira muito clara nos deu a conhecer o que de mais fiel sabemos da história de Alenquer; foi também assim com o arqueólogo Hipólito Cabaço, que com a sua tenacidade nos trouxe ao de cima a nossa história de milhares de anos; foi assim com a reconstituição da conquista do castelo de Alenquer aos mouros em 1148, por D. Afonso Henriques; tem sido assim com os muitos “colóquios” e “encontros” que o Pelouro da Cultura da Câmara de Alenquer tem levado a efeito na Biblioteca Municipal; é assim com a recente instalação da estátua de Damião de Goes e a evocação da sua memória e da sua obra.

Damião de Goes “um dos vultos mais insignes da nossa História, cronista, ensaísta e grande humanista que, como poucos, fez do respeito e exaltação do ser humano o seu credo e doutrina, e do universo a sua casa”, por ser um homem de um só parecer, por não ter disfarçado suficientemente o seu desagrado por actos como a matança dos judeus em 1507, a Inquisição, que confundiu erasmismo com luteranismo, moveu-lhe uma perseguição feroz, que acabou em prisão, onde foi martirizado e torturado. Fernando Campos na sua obra “A Sala das Perguntas” dá a conhecer esse universo onde se “procurava, calar e fingir respostas” porque ali as perguntas não eram uma ferramenta na eterna busca do conhecimento, mas sim “uma forma de intimidação e de exercício de poder tirânico, uma arma para calar e não para revelar”.

Álvaro Pedro, Presidente da Câmara de Alenquer referiu que “Damião de Goes é um esteio cultural que se aprende a conhecer como um dos mais distintos homens da sua época, autêntico embaixador do humanismo e cronista do reino. Alenquer teve a felicidade de ser o seu berço, circunstância que a guindou ao conhecimento do mundo culto do seu tempo. Diz-se que Alenquer é melhor madrasta do que mãe e isso tem de algum modo justeza nalguns casos pontuais. De facto, faltava cumprir com Damião de Goes um gesto grande para atenuar a dívida que com ele se tinha, algo que se concretizou hoje, 10 de Junho, Dia de Portugal”.

Numa Europa renascentista onde Portugal não só tinha um papel primordial no xadrez político, como também dominava a cena cultural e científica, D. Manuel I foi um dos primeiros monarcas a instituir “bolsas de estudo” para o estrangeiro e os nossos letrados e filósofos leccionaram em várias universidades europeias. Assim não admira que Damião de Goes tenha percorrido toda a Europa do conhecimento, onde tudo servia de estímulo ao seu espirito vivo, curioso e versátil, erudito e popular ao mesmo tempo.

Amadeu Torres, apaixonado pela vida e obra de Damião de Goes, ainda recentemente disse que Damião de Goes era um activo militante do catolicismo renovado que só o Vaticano II começou a interpretar; que era o príncipe dos humanistas portugueses, o nobre cavaleiro de ideais universalistas, um símbolo eloquente do Portugal de Ourique e das sete partidas do mundo. Damião de Goes correu a Europa e ele foi no seu rasto. Nos lugares onde Damião de Goes esteve, ele esteve também.

Num dia que se homenageava o “príncipe dos humanistas portugueses”, causou certa estranheza a ausência do Governo da República e mais concretamente do senhor Ministro da Cultura, tanto mais que, segundo sabemos, foi convidado atempadamente a estar presente, mas esta falta de apetência para as “figuras” alenquerenses não é novidade, pois já anteriormente tinha sido convidado para a inauguração da Casa Museu Palmira Bastos e também primou pela ausência.

Há anos atrás, quando se comemoraram os 400 anos da morte de Damião de Goes, assistiu-se, no Salão Nobre dos Paços do Concelho, a diversas intervenções de reputados estudiosos da temática goesiana, medida que teve o patrocínio da Presidência da República de então. Mudam-se os tempos e alteram-se o respeito e a admiração dos responsáveis políticos pelas figuras da nossa História e está provado que Damião de Goes e Palmira Bastos são figuras da nossa cultura nacional que este ministro da Cultura desconhece.

A sua ausência, não só é ofensiva para os alenquerenses como para o poder autárquico instalado e, todos nós munícipes, deveremos estar solidários com ele, mais concretamente com Álvaro Pedro, presidente da Câmara, que segundo sabemos, se esforçou ao máximo para que estas homenagens tivessem um cariz nacional, mas para justificar essa solidariedade, falta conhecer publicamente o desagrado de Álvaro Pedro, pois como alenquerense com certeza também se encontra incomodado com a situação. Esperemos pelo próximo Boletim Municipal para ver então como Álvaro Pedro reage a esta falta de “solidariedade ministerial”.

Estas atitudes pouco “cultas” do Ministro da Cultura mostram que este senhor possivelmente ocupa aquela pasta não porque tenha predicados para isso mas sim por outros motivos que nos escapam. Pela falta de consideração para com os alenquerenses, pela falta de respeito para com a memória e a obra de Damião de Goes, pela ignorância da importância que o grande humanista tem na História de Portugal, Sr Ministro da Cultura, por favor, demita-se.


INQUÉRITO:
Qual a sua opinião sobre a ausência do Ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho, na inauguração da estátua de Damião de Goes?

José Manuel Correia – Alenquer
Jose Manuel Correia“Na minha opinião foi uma falta de respeito, tanto para a figura de Damião de Goes, como para a população de Alenquer. Se ele foi convidado, não cedeu ao convite, e passados alguns dias é que diz que não faz intenção de comparecer ou não está disponível para a inauguração ainda considero uma falta de respeito maior.”

Rui Leal – Carregado
Rui-LealEm primeiro lugar eu nem sabia da inauguração. E quanto à ausência do senhor Ministro da Cultura, a minha opinião é bastante negativa, visto que o vejo só preocupado com o Porto, a capital da cultura europeia em 2001, e despreza o que se passa nas vilas. Ainda mais um acontecimento como este”.

Joana Marques – Alenquer
Joana-MarquesPara começar, mesmo morando em Alenquer, o dia da inauguração da estátua passou-me um bocado ao lado, uma vez que, na minha opinião, houve pouca divulgação. Depois, não concordo com a acção do Senhor Ministro porque, embora a cultura se divulgue e tenha mais apoio nas grandes cidades, há necessidade de apoiar eventos como este nas vilas, até porque estamos a falar de Damião de Goes!”

José Pedro Parracho – Alenquer
Jose-Parracho
“Eu só estive a par do dia da inauguração da estátua, um ou dois dias antes, e do evento em si sei pouco, não estive realmente a par do que passava. Não sabia que o Senhor Ministro tinha sido convidado pela Câmara. Mas, uma vez que foi e recusou, considero a que a sua atitude foi negativa perante esta localidade.“

António Santos – Alenquer
Antonio Santos“Na minha opinião acho que foi uma falta de sensibilidade por parte do Ministro da Cultura, em virtude de ser uma manifestação cultural que vai ficar na área do concelho. Por isso, devia de ter tido a hombridade de ter nomeado alguém para o representar uma vez que não podia comparecer. Mas como infelizmente não o fez, e não compareceu, sem ficarmos a saber a razão, é lamentável e um desprestígio para Alenquer, uma vez que vai começar a entrar na rota nacional com a vinda do aeroporto para Ota, era mais um complemento em termos de culturais, porque é um marco que fica no Concelho.”

Rui Paulo – Alenquer
Rui Paulo“É facto a lamentar, se recordarmos bem a importância que Damião de Goes. Como humanista, exerceu na produção cultural a nível literário da sua época, e também, a importância que figura de um Ministro da Cultura tem na sociedade actual. A sua não comparência, dever ter explicação na coordenação difícil de horários. Pelos vistos arranjou algo mais interessante com que se entreter.”


Inquérito: Dina Gomes


VER TAMBÉM
Sessão evocativa da memória de Damião de Goes
Intervenção do Eng.º Francisco Goes, representante de Damião de Goes
Intervenção do Padre José Eduardo Martins
A estátua de Damião de Goes
José Núncio, escultor da estátua de Damião de Goes
Entrevista a… Carlos Bernardino Leite, fundidor da estátua de Damião de Goes




Hernâni de Lemos Figueiredo


in Jornal D’Alenquer, 1 de Julho de 2000, p. 3 (Editorial)
©Hernâni de Lemos Figueiredo (2000)
director do Jornal D’Alenquer

Coincidência:
Uma semana depois deste editorial, a 8 de Julho de 2000, Manuel Maria Carrilho pediu a demissão e foi substituído no cargo de ministro da Cultura por José Sasportes.

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