Baden-Powell e eu

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Baden-Powell e eu

E, quando me faltarem as forças, no meu canto em Alenquer, recordarei calorosamente os tempos de luta com as tribos que combati e as raças que ajudei a ter uma vivência com os Homens e as coisas, então partirei feliz…

Robert Baden-Power of Gilwell  (1857-1041)

Robert Baden-Power of Gilwell
(1857-1041)

Esta missiva não pretende, de forma alguma, no âmbito da minha linguagem e na interpretação que às palavras possa ser dada, colocar-me numa posição de arrogância mas, tão-só e apenas, na clara intenção de provocar a polémica e acordar as mentes que estão hoje adormecidas.

A comparação entre o nosso Fundador e a minha vivência Escotista nada mais pretende do que, uma vez mais recordo, despertar para a realidade os grandes pseudo-pensadores da nossa Associação do que FOI e É o escotismo em Portugal.

Quando B.P., no ano de 1907, realizou o seu primeiro acampamento na Ilha de Brownsea, com 20 rapazes, jamais terá pensado no êxito que o Escotismo alcançaria no Mundo! Também eu, em 1954, aquando do meu ingresso no Movimento, jamais pensei no que iria significar ser, de facto, Escoteiro e na importante mudança que iria exercer sobre a vida que então levava e a que passei a fazer.

Tal como a minha iniciação Escotista no Grupo nº 9 não foi fácil, antes pelo contrário, foi bastante atabalhoada e até confusa por duas ordens de razões: a primeira, porque não tinha a exacta noção do que era a essência do Viver e do Estar no Movimento; a segunda, porque nessa época, segundo o meu ponto de vista e de muitos outros Companheiros, não tinha um Chefe atento ao que se passava com o Grupo, logo, não tinha ninguém que me guiasse nos meus primeiros passos.

Motivos que me levaram a “devorar” tudo quanto havia para ler e a aprender sobre o Escotismo, aliando a esta aprendizagem alguma prática de que já era possuidor na maneira como lidar com os outros e com as coisas e tendo como base humana e interior a enorme vontade de ser um Homem melhor apesar das dificuldades. Também B.P. só conseguiu levar a bom porto o embrião que tinha semeado na Ilha de Brownsea, baseando-se na sua experiência pessoal, que era, sem dúvida, muito maior e mais rica que a minha.

Assim como B.P. viu crescer o Movimento Escotista no Mundo e, para isso, se rodeou de pessoas que souberam entender, materializar e expandir as suas ideias, também eu segui o seu rasto quando senti que tinha conseguido conquistar, se não a admiração, pelo menos, a atenção de vários órgãos e pessoas que naquela época constituíam a Associação dos Escoteiros de Portugal.

Procurei, então, em cada um dos meus Companheiros recolher o melhor da sua sabedoria para desfrutar em plenitude desta salutar prática de ser Escoteiros. Foi nesta sequência que decidi estreitar as minhas relações de convívio e amizade com alguns dos Chefes que me pareciam ser os mais competentes nestas andanças; permitam-me, pois, que cite aqui os seus nomes: Mário Lousano Leite, Armando Inácio, Ernesto Clímaco, Nobre dos Santos, Madeira Leitão, José Relvas, João Constantino, Albano da Silva, Armando Morais e tantos outros… Para os que partiram do mundo dos vivos (que tanta falta fazem ao Movimento) e, também, para os que se encontram ainda entre nós, porque todos eles me ensinaram a ser Escoteiro, o meu “Muito OBRIGADO pela ajuda!”

Por razões às quais só os próprios poderiam responder, e ainda “de fresco” na senda do Escotismo, – embora já imbuído do espírito de tudo dar sem esperar recompensas -, comecei a ser solicitado para desempenhar funções a nível nacional, nomeadamente, a partir do ano de 1958, aquando do Acampamento da Fraternal, em Carcavelos, onde vivi a minha primeira grande aventura em campo. Desde essa altura que nunca mais parei de participar nos eventos da vida associativa.

Assim, nunca me faltaram nomeações para cargos, desde Chefe de Divisão até Chefe Nacional Adjunto, os quais desempenhei com zelo e dedicação, dando o que de melhor existia em mim em função dos jovens e para que estes tivessem a oportunidade de uma melhor Prática e Formação Escotista em todas as suas vertentes. Neste sentido, fui membro activo em várias Equipas de Formação, nas quais expus, sem reservas, tudo quanto sabia. Também B.P., desde o acampamento na Ilha de Bronwsea até ao momento de ser condecorado como «Cidadão do Mundo» e mesmo até ao final da sua vida, nunca mais parou de ser, estar, participar, fazer e ensinar nos “pensamentos, nas palavras e nas acções” o que É o Escotismo, como todos nós o sabemos.

Tal como B.P., também a minha preocupação foi transmitir aos mais jovens o sentido de valores como a honestidade, a lealdade, a responsabilidade e a bondade à boa maneira escotista. Foi ajudá-los a tornarem-se mais fortes nas suas vidas como jovens e como escoteiros, procurando apoiar e aconselhá-los de acordo com as circunstâncias dos problemas – quaisquer que fossem -, não regateando esforços para os debelar mal tinha conhecimento deles e ganhando a confiança desses jovens para melhor poder actuar.
Sem nunca perder o sentido norteador de B.P. e seguindo a sua imagem de homem íntegro e revelador de uma inteligência fabulosa, lá me fui orientando na pista que o Fundador marcou para ganhar jovens mais saudáveis e Homens de mente mais forte para melhor servirem a sua Terra, o seu País. Acção esta que o grande mentor do Movimento Escotista fez durante toda a vida, deixando marcas de tal maneira relevantes que, mesmo após os 97 anos, se mantêm como regras fundamentais para todos aqueles que usam com dignidade o nome de ESCOTEIROS. E friso o substantivo “dignidade” pois, porque para alguns ele não tem peso nem volume. Mas para mim, cuja vida foi contido dentro dos princípios do que há de mais transparente do Estar e Ser ESCOTEIRO, este substantivo tem a força das acções como Homem e Escoteiro que sou porque, quer na vida particular quer na minha vida Associativa, pautei pela regra da limpidez. Para tal tive como exemplo o modelo que B.P. sempre demonstrou ao longo da sua existência e, por assim dizer, servindo eu, de algum modo, também de exemplo do que é possível tentar alcançar em termos humanos.

Santos!? Sim. No altar, todos os são. E na Terra, haverá algum? A tal Alma perfeita, o modelo ímpar de ser humano que tenha cumprido com todas as leis básicas e elementares sem nunca errar?! Creio que não, nem eu pretendo tal título. Seria apenas mais um hipócrita…

Tal como B.P., no ano de 1899, defendeu Mafeking resistindo ao cerco contra forças inimigas muito superiores, também eu resisti a muitos “cercos” pelos quais passei ao longo dos anos que já tenho. Talvez por isso muitos me considerem o Chefe!

A B.P. chamaram–lhe «Impisa – O Lobo que Não Dorme» por causa da sua audácia e da sua espantosa perícia em seguir pistas; a mim «Dinossauro». Porquê? Não combati os Zulus nem ferozes guerreiros Achantis!, e muito menos os selvagens Matables!

Mas será que não tive outras tantas batalhas com os não menos selvagens da nossa época, com as tribos dos ignorantes, dos terríveis iluminados que tudo sabiam mas nada faziam, dos ferozes pretendentes a cargos para os quais não tinham a mínima competência e eram só vaidade e petulância?

Sim! Deve ter sido por combater estas tribos que me baptizaram com o nome do animal que está extinto há milhões e milhões de anos. No entanto, ainda hoje é possível encontrar as suas pegadas e ossadas. Apenas o suficiente para se afirmar que ele existiu na Terra…

Por todas estas razões, – das razões daqueles que nos legaram este ideal e que também eles deixaram as suas pegadas – eu sou seguidor decalcante das marcas que B.P. deixou no caminho para o Mundo, para que os jovens aprendessem a viver com a Mãe Natureza e dar a esta os cuidados que merece.

Tal como B.P. foi irremediavelmente apanhado pelo Escotismo que fundara e os Escoteiros arrastaram-no para todos os cantos do mundo, também eu fui apanhado na mesma teia e é para os jovens de hoje, com a certeza de que no amanhã teremos homens e mulheres que, de corpo e alma, farão deste País um recanto melhor do que o encontraram, que eu desempenho o melhor que possível esta tarefa.

E, quando me faltarem as forças, no meu canto em Alenquer, recordarei calorosamente os tempos de luta com as tribos que combati e as raças que ajudei a ter uma vivência com os Homens e as coisas, então partirei feliz…


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in Jornal D’Alenquer, 1 de Agosto de 2000, p. 34
©Virgilio Morais (2000)

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