Entrevista a… João Egipto, um Alenquerense em Moscovo

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Entrevista a…

Um Alenquerense em Moscovo

João Egipto

Formávamos um grupo de pessoas, de diversas tendências: o que nos ligava eram gostos comuns. Nós sempre pensamos que o ideal seria que, um dia, na Câmara de Alenquer, houvesse pessoas que estivessem ligadas por afinidades de gostos, e não por serem todas do PS. A ideia monárquica era a nossa maior forma de contestação: nós éramos ignorados, ninguém nos apoiava, por isso tínhamos de restaurar o rei. Ser da monarquia era ser mais contestatário do que ser hoje do Bloco de Esquerda.

Joao Egipto_1JOÃO MANUEL EGIPTO CRISTÓVÃO teve uma infância absolutamente normal: ia para o castelo brincar aos “cowboys”; jogava ao berlinde e em cada época do ano tinha a sua brincadeira diferenciada. Com a irreverência dos seus 11 anos, começou a ver no Alenquer-Cine alguns filmes soviéticos, indicados como revolucionários, assim como a ver uns filmes, no Canal 2, do António Pedro Vasconcelos, que eram um bocado proibidos e elitistas, com muitas cenas eróticas, e histórias perversas. Um tipo de cinema “avançado”, especialmente para Alenquer, onde não se passava nada. A partir daí surgiu o gosto pelo cinema.

Segundo opinião de alguém mais novo e que o conhece bem, “o João pertencia a um grupo diferente, um grupo fechado; eram elitistas. Um grupo privilegiado em termos de informação e de gostos”.

Sonhava um mundo diferente em que a relação com o trabalho tivesse como base a realização pessoal de cada um. E numa época em que cada dia acabava mais tarde que o anterior, entendeu ter chegado a hora de quebrar a rotina e fazer coisas completamente diferentes e melhores. Mas, como nunca houve, por parte das estruturas locais, grande apoio às suas iniciativas, pensou que tinha de sair de Alenquer para vencer. Esqueceu-se das pressões sociais, que nos ditam as regras do jogo, e inventou as suas próprias regras. João Egipto é alguém que conseguiu saltar o muro e ser feliz sem dinheiro, embora considere o dinheiro importante. O cinema foi o compensar de uma realidade tediosa.

Hoje, considera Helmut Kohl uma figura unificadora da Europa e Javier Solana o que o decepcionou mais. Admite que em Portugal há duas pessoas incontestáveis do século XX: Salazar e Mário Soares. Álvaro Cunhal não faz parte dessas duas pessoas, mas é a sua sombra. Pensa que são estas as figuras que marcaram Portugal neste último século.

A ideia que guarda de quando era criança, é que o João Mário fez uma fonte espectacular. Para a altura, foi uma obra extremamente “hollywoodesca”, com aquelas luzes amarelas e verdes. Lembra-se de ir com os pais e ficar 15 minutos a olhar para aquilo. Foi com este Alenquerense, radicado em Moscovo já há largos anos, que passamos uma agradável tarde.

Fazias parte de “um grupo elitista”?
Joao Egipto_2Sim. Faziam também parte desse grupo, o Eduardo Silva, o Joaquim Silva, o Joaquim Carvalho, o Miguel Barros, o Mendes, o Xana Lavado e o Carlos Santos. Tínhamos à volta de 14 ou 15 anos. Foi por volta de 1985. Tínhamos um projecto de animação para a Vila: íamos fazer passagens de modelos, feiras do livro, teatro, cinema, etc., e o auge aconteceu em 87/88, quando fizemos uma Feira do Livro no antigo “Lar Moderno” e uma passagem de modelos na Romeira, antes de ser comprada pela Câmara.

Guardas algumas recordações dessas actividades em Alenquer?
A passagem de modelos “Romeira, Romaria da Moda” trouxe cá pessoas, que na altura se estavam a iniciar na moda e hoje são grandes nomes. É o caso do José António Tenente e Isabel Lopes. No campo musical estiveram cá os UHF, Sétima Legião, Táxi, tudo nomes que hoje são conhecidos e na altura não o eram. Fizemos uma festa na Quinta do Brandão, no fim da passagem de modelos, em que esteve toda a elite de Lisboa. Teve impacto. Uma das nossas ideias era que houvesse dois sítios que pudessem ser considerados pela elite da área de Lisboa: Alenquer e Sintra. Não havia mais nenhuma terra que tivesse hipótese de competir connosco. Ainda hoje penso isso. Alenquer e Sintra são, de facto as duas vilas mais bonitas, na área de Lisboa.

Como é que se definiam em termos políticos?
No nosso grupo havia comunistas, socialistas, gente do PSD. Havia muita mais gente de direita do que, propriamente, de esquerda. Formávamos um grupo de pessoas, de diversas tendências: o que nos ligava eram gostos comuns. Nós, sempre pensamos que o ideal seria que, um dia, na Câmara de Alenquer, houvesse pessoas que estivessem ligadas por afinidades de gostos, e não por serem todas do PS. A ideia monárquica era a nossa maior forma de contestação: nós éramos ignorados, ninguém nos apoiava, por isso tínhamos de restaurar o rei. Ser da monarquia era ser mais contestatário do que ser hoje do Bloco de Esquerda. Chegámos a colar cartazes de apoio à monarquia.

Tinham algum “guru” tipo Miguel Esteves Cardoso?
Tínhamos o Jorge Silva, de Alcobaça. Na altura fazia parte de um grupo monárquico. Tentava fazer a história das famílias. Queria tentar juntar as pessoas mais capazes, não só em termos psicológicos, mas também em termos de sangue, de castas, para que um dia essas pessoas fizessem alguma coisa por este país. Havia a ideia de inspiração ariana, mas não no sentido racista, mais no sentido pragmático, no sentido de juntar as pessoas mais capazes.

Quando chegaste a Moscovo como é que te sentiste?
Após ter ganho uma bolsa de estudo da Associação Portugal–URSS, fui para Moscovo e foi um choque brutal. Primeiro, foi o choque da língua. Depois tem-se uma sensação de espaço, que não tem nada a ver com o nosso. São montanhas, são cabeços, em que as estradas fazem 4 ou 5 vezes a largura das nossas estradas. Não há trânsito praticamente nenhum, só se vêm transportes públicos, não há publicidade nas paredes. É uma sociedade organizada noutros moldes, mas por outro lado sinto que há mais liberdade. Tem 10 milhões de habitantes. E eu libertei-me completamente de Alenquer. Chega-se a um espaço completamente aberto, dá-se tudo aquilo que há para dar, e ninguém te crítica ou põe de fora. Estudei numa escola que tinha estudantes de todo o mundo. Acho que nunca mais vou ter hipótese de ver na vida pessoas do Letão, do Bangladesh, da Coreia do Norte, do Sudão. Convive-se com pessoas com culturas completamente diferentes.

Sentiste alguma acção de racismo?
Não, nós os estudantes europeus éramos como uma casta à parte e viam-nos como gente muito mais avançada e pressentiam que nós sabíamos mais do que eles, em muitas áreas. Eles iam à minha residência e viam que eu tinha espuma da barba, lâminas Philishave. Isso para eles era completamente novo; eles nunca tinham visto isso. Se eu oferecesse a um soviético uma espuma da barba, ficavam supercontentes; aquilo para eles era uma coisa absolutamente fabulosa. Eles temiam-nos, protegiam-nos e, por outro lado, também nos podiam incutir a tal vanguarda: o comunismo. Quer dizer, eles achavam que se nos conseguissem incutir a ideologia, seríamos nós a vanguarda ideológica no Ocidente.

Como bolsista limitaste-te a fazer o trabalho da história do cinema?
Sim, durante 5 anos estudei história do cinema, fiz várias curtas-metragens e fiz quatro longas-metragens em película. Tínhamos uma bolsa de estudo, um salário mensal para a comida, uma residência grátis com um quarto, uma sala e uma casa de banho. Não pagava electricidade, nem telefone e tomava banho quantas vezes queria. Só comprava a comida, o que acontecia num refeitório, chamado o “Hotel dos Estudantes”.

Qual a primeira remuneração, como realizador cinematográfico?
Fiz um filme lá na escola, que se chama “Ema”, e fui a um festival na Alemanha, onde ganhei um dos prémios de 2 mil dólares.

No fim do curso não passaste a ser assalariado?
Não. Andamos ali 4 ou 5 meses à procura de produtores. Sobrevive-se fazendo reclames e videoclips, trabalhando na publicidade. Há muitos colegas meus que se viraram para o cinema pornográfico. É uma coisa que dá dinheiro. Eu nunca o fiz, mas tive várias propostas. Ganha-se imenso dinheiro nisso. Fazes 2 ou 3 filmes, e constróis uma casa aqui, em Portugal, num instante. Depois, comecei a lançar-me como “freelancer”, a fazer reportagens sobre as coisas que se passam na Rússia. Virei-me um bocado mais para as questões sociais, como os miúdos que vivem na rua, que são muitos. Neste momento há 2 milhões de miúdos que vivem na rua, porque os pais são alcoólicos, são drogados ou então porque os abandonaram. Há muitos refugiados, outros dos temas do qual fiz documentários. Hoje, em Moscovo, vê-se gente completamente desenraizada, do Azerbeijão, da Arménia, da Geórgia. Há uma grande confluência de religiões. Muitos muçulmanos, muito cristãos, ortodoxos. É uma gente que nunca vai ser integrada na sociedade, nunca vai ter um trabalho normal. Vai sempre roubar e imiscuir-se em máfias. E eu procurei focar-me na vida dessas pessoas. Na questão ecológica, também fiz algumas reportagens, porque eles tinham projectos de mudar o curso dos rios. O rio corre de norte para sul e eles queriam que, por exemplo, o Rio Lena fosse de sul para norte, porque era uma forma de irrigar a zona.

Julgas que a tua actividade está a ser compensada?
Não ganho o que ganharia aqui no Ocidente, mas sou recompensado ao nível da riqueza humana. Hoje, ainda não voltaria a Portugal. Somos um país bom para viver, para ter aqui uma casa, ir a um restaurante, dar um mergulho na praia mas, a nível profissional, não há conflito. O telejornal em era Portugal mostra, por exemplo, um incêndio numa casa no Porto. Em Moscovo não mostra isso, mostra a guerra na Tchetchenia, atentados bombistas na Cazaquistão. Os portugueses que querem viver uma vida mais aguda, acabam por sair. As pessoas procuram uma vida mais intensa, que o seu destino não seja uma mera passagem. Existem pessoas que são iguais em todo o mundo: há russos que são absolutamente iguais ao típico português, querem a mesma coisa que quer um português normal, querem ter um bom emprego, serem bem remunerados, terem uma casa, um carro e mandarem uns mergulhos no Verão; assim como há russos que são mais iguais a mim: querem ter isso, mas também querem deixar nome, procurar a sua própria imortalidade, a vida, que não seja uma simples passagem. Na minha família não tenho pessoas que tenham sido famosas, e acho que isso é importante. Tenho colegas de infância, que já tinham dinastia e acabaram por não se preocupar com isso. São uns desleixados. Hoje, eles vivem à custa do nome da dinastia que tinham. Enquanto connosco passa-se um bocado o contrário, tens de fundar a tua própria dinastia.

Como caracterizas a dinastia que estás agora a criar?
Casei e tenho duas filhas e a dinastia que procuro criar, é que procurem valorizar a pessoa humana em si. Se um dia voltar a Portugal, e acho que um dia quando for mais velho quero voltar a Portugal, temos de valorizar as pessoas que são capazes de fazer algo. Foi uma coisa que o nosso pais nunca fez muito. Há pouco tempo soube que, na Nokia, os três indivíduos que estão à frente são portugueses. Eles não estão em Portugal a trabalhar, estão na Finlândia. Os americanos são capazes de ir para uma floresta do Bangladesh, lá bem para o meio da selva, só para encontrar o cadáver dum soldado americano, porque eles querem enterrá-lo na sua terra. Simbolicamente é muito importante para um país. Nós, Portugal, quando formos um país assim, acho então que estamos no bom caminho. Por enquanto, somos um país de gente sobranceira.

Como se sente um Alenquerense tão afastado da sua terra?
Nostalgia, é evidente. Alenquer é uma terra que, quando cá estás sentes-te enraizado. Ouves o relógio dos Paços do Concelho a dar as horas, os sinos do cemitério a dizer que morreu mais uma pessoa. Numa cidade como Moscovo não tens noção do tempo. Alenquer é uma terra que possibilita que saias de casa e estás em todo o sítio. Estás no café, no cabeleireiro, a conversar, com o copo de cerveja, estás a fazer uma série de coisas ao mesmo tempo. E ainda é uma terra onde as pessoas querem fazer alguma coisa e têm um certo idealismo.

O que encontraste em Alenquer que te tenha surpreendido mais?
Alenquer tem uma quantidade fabulosa de carros. Hoje, estacionar em Alenquer é uma coisa impossível. Lembro-me de Alenquer ser uma terra onde não existiam carros, praticamente. Outra coisa que me impressionou, no bom sentido, é que Alenquer não está tão degradada a nível urbanístico, como eu supunha. A Vila Alta tem recuperado muitas casas. Vejo que as pessoas estão a apostar na conservação da própria vila. Existe a biblioteca, que é um espaço óptimo, o museu tem pessoas jovens à frente. Isto é importante, porque há 10 ou 15 anos seria impossível jovens estarem à frente de museus. O comércio tem evoluído, há mais lojas. Há muita gente nova em Alenquer. Acho positivo.

Projectos a médio prazo?
Tenho um filme para fazer. Soube há pouco tempo que o IPAR me vai ajudar. Portugal vai-me ajudar, finalmente, a financiar um filme lá. Estou à frente de um grupo teatral com miúdos sem abrigo, sem pais, que vivem na rua, e estou a fazer espectáculos. São actores e vamos a um festival de teatro em França, e estamos a ter sucesso com aquilo.

Esse filme, que Portugal financia, vai ser exibido cá?
Sim, a nível de distribuição, vai ser em simultâneo nos dois lados. Outra coisa que estou a tentar, é que o Instituto Camões abra uma sede em Moscovo. Gostava que a nossa cultura chegasse àqueles sítios. O que eles têm lá é o leitorado, que é uma fulana russa a falar português, mas ela não tem competência. Eu gostava que houvesse um espaço onde existissem exposições, onde houvesse maior intercâmbio entre portugueses e russos, e onde houvesse uma divulgação maior. Neste momento, nas escolas e universidades russas, existem 20 ou 30 mil russos que estão a aprender português.

Como estás a equacionar o regresso?
Tu tens raízes aqui, a tua mulher e as tuas filhas têm raízes lá; quem é que vai ficar a perder? Quem é que vai abdicar? Eu gostaria de voltar a Portugal, mas a minha mulher tem um bocado a perspectiva de não querer vir para cá e estar em casa a criar das miúdas. Quer fazer alguma coisa. Não sei como é que vai ser com as minhas filhas. A mais velha gosta de falar a língua russa e da cultura russa. A mais nova tem a tendência contrária, gosta mais de Portugal e da nossa cultura.

Em casa falam português?
A minha mulher só fala com elas em russo. A minha filha mais velha, quando eu lhe falo em português, responde-me em russo. A mais nova não, diz umas coisas em português.

Como são os moscovitas?
As mulheres lá são altas, de olhos azuis e pernas longas, são autênticas Barbies. Eles têm um grande porte físico. Elas interessam-se mais por indivíduos morenos. Têm uma forma muito contactável. A Rússia tem mil anos de cristianismo, é um país que viveu muitos anos no paganismo, e o paganismo não foi tão apagado como foi aqui. Metade da sociedade vive ainda situações de paganismo. Lembro-me de situações, em que, numa aldeia russa, dorme-se em casa de uma família, e o maior presente que o chefe de família pode oferecer ao visitante é este dormir com a mulher dele. Isto, para eles, é uma coisa perfeitamente normal. Ele dá a mulher naquela noite. Isso é um fenómeno absolutamente pagão. Ali não há pecado, não há ciúme.

O que gostarias que acontecesse em Alenquer, que ainda não aconteceu?
Era fundamental a existência de um clube turístico e um hotel. Acho que faz muita falta. O rio deveria ter mais água, com barcos. Alenquer deveria ficar mais lúdica. É uma das vilas onde não há muita gente conhecida. Temos o Eduardo Henriques no atletismo. Temos muitos mas não são conhecidos. Em Alenquer faz falta uma súper-ideia e essa ideia não é abrir um restaurante, um hotel, ou um percurso pelos pontos históricos do concelho.

O que te entristeceu mais ver em Alenquer?
As pessoas pensam cada vez mais em si próprias. As pessoas cumprimentam-se menos umas às outras, andam mais de carro. Cada um hoje tem a sua vida. Alenquer já não é aquele espaço onde as pessoas tinham mais tempo livre e acabavam por se encontrar todas, ali ao pé da Nau, ou ao pé do Alão, e conversavam. Hoje, Alenquer já não é bem isso. Os miúdos andam de telemóvel a falar não sei para onde. Alenquer já é um sítio um bocado urbano. Talvez seja inevitável; é o custo do progresso.


Fotos: Carlos Cristóvão




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in Jornal D’Alenquer, 1 de Setembro de 2000, p. 17 e 18.
©Hernâni de Lemos Figueiredo (2000)
director do Jornal D’Alenquer



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