Entrevista a… Constantino da Silva, o “Vidraças”

· Entrevistas
Autores

Natural do concelho de Alenquer

Entrevista a… Constantino da Silva, o “Vidraças”

À mais famosa criança-ladrão portuguesa e apesar dos seus 14 anos, foi a justiça obrigada a aplicar-lhe o castigo que só estava reservado aos principais inimigos públicos: o degredo para África.

Constatntino-da-Silva

Onde nasceu?
Nasci no Concelho de Alenquer.

Mais precisamente em que lugar?
Prefiro não dizê-lo para ninguém ficar ofendido.

Que idade tinha quando saiu de casa?
Tinha só 12 anos quando abandonei a casa paterna e fui para Lisboa.

E porque saiu?
Não quis seguir os conselhos do meu pai que me queria obrigar a amanhar a terra.

Foi fácil a sua adaptação à grande cidade?
Muito difícil, pois não tinha amigos nem familiares e tive que aprender a sobreviver num meio desconhecido e hostil.

Como foi essa aprendizagem?
Sabe, “a necessidade aguça o engenho” e como a “ocasião faz o ladrão”, depressa aprendi a arte de aliviar os bolsos às pessoas mais distraídas.

E nunca teve problemas com a polícia?
Pouco tempo após ter chegado a Lisboa fui apanhado numa rusga policial mas safei-me bem. Disse que era órfão de pai e mãe, “abandonadinho” de todos e que procurava desesperadamente uma ocupação mas como esta tardava, vi-me obrigado a roubar para não morrer de fome.

E de novo em liberdade, o que fez?
Como precisava de comer todos os dias, continuei a fazer o que sabia, isto é, tornei-me num filho do golpe, especialista em saquear à vontade os mais incautos.

Escusado será dizer que correu um grande risco de ser novamente preso.
E aconteceu. Apenas 15 dias depois da primeira detenção. Desta vez correu-me muito mal, pois já não podia argumentar como da primeira vez, e em desespero de causa dei um verdadeiro festival de agressividade, insultando, rebolando-me no chão e agredindo todos os que se encontravam por ali perto. Como resultado fui internado num estabelecimento correccional.

Para um rapazito de 12 anos, deve ter sido duro estar internado num estabelecimento correccional?
Sim, mas olhando para o lado positivo, o contacto com gentinha crescida e com muitos anos de prática do mais variado tipo de roubos, fez-me adquirir conhecimentos suficientes para me transformar num “frio e meticuloso profissional”.

Esses conhecimentos adquiridos foram-lhe úteis quando voltou à liberdade?
Pois foram e visto ter uma aguçada capacidade intuitiva para o roubo, depressa preparei o assalto à sede de uma Companhia Mutualista.

Quer dizer que foi novamente preso?
Com certeza. Mais uma vez tenho que olhar para o lado positivo da situação: fui distinguido com uma ficha onde estava a minha primeira fotografia. Finalmente era uma Figura Pública e reconhecido como um dos “mais habilidosos executantes de roubos com canivete”.

Com tantas prisões não ficou nenhuma marca?
Sofri um bocado quando somente com 14 anos fui degredado para Cabo Verde.

Esteve muito tempo em Cabo Verde?
Estive lá 4 anos e como nunca deixei de praticar uns roubozitos, dividi o tempo entre o presídio militar e as funções de corneteiro num batalhão de artilharia onde tinha sido alistado. Não fora algumas doenças que contraí, até poderia dizer que tinham sido umas férias divertidas.

E ficou muito abalado da saúde?
Quando o navio D. Antónia me deixou em Lisboa, nada era como dantes, pois sofria de várias enfermidades, inclusive nos olhos, e durante uma das minhas muitas prisões fui internado no Hospital de São José, de onde saí com óculos, o que levou a chamarem-me “O Vidraças”.

Depois da saída do Hospital, continuou com a sua vida anterior, isto é, a aliviar os bolsos às pessoas?
Tentei a vida de um cidadão normal. Fui à Polícia e disse-lhes que estava em Lisboa para sempre e que pretendia uma vida nova e queria arranjar um trabalho lícito que me permitisse afastar os vícios do passado. Foi até um graduado da polícia que me arranjou um lugar de operário numa fábrica em Xabregas. Finalmente tinha enveredado pela vida normal e era um cidadão como qualquer outro, com os mesmos problemas, os mesmos anseios, etc.

Ao princípio foi assim. Estive algum tempo nessa situação até começarem a aparecer as antigas amizades a recordar-me que com as minhas mãos podia facilmente encher os bolsos nalgum golpe bem-sucedido o que seria sempre mais rentável que cumprir os longos e fatigantes horários dum simples operário.

Voltou ao crime?
Pois claro. Voltei já com estatuto de veterano e fui preso mais algumas vezes. Era um homem temido, mas sinceramente, penso mais por aquilo que tinha feito no passado. Num último grande roubo fui preso e novamente condenado ao degredo em África.

Você roubou muita gente. Nunca se sentiu enganado?
Sim. Uma vez fui com o “Tordo” para trabalhar na jarda de Évora e aquele marau também me comeu, pois quando pus o quinhame na estala da recta, topei com um cabra da mata grande, outro da mata alta e outro da recta, acompanhados por um bufo, para nos dar à morte, assim como a todos os filhos de diversas matas. Mas consegui espantar-me e andar nos calcantes sem que me lupassem. Em seguida fui para a jarda e logo me bati com um patego, comendo-lhe um palrante e uma amarra de lodo. Fui logo à cova e refundi tudo ao intruja “Faneca” que me calmou para as batas vinte milhos quando valia muito mais. Voltei para a jarda e comi uma pera com vinte lamiros em lodo e três milhos e dois camorsos em laia. Passei este último governo para as batas do “Tordo”, por estar a salvo, e continuei a trabalhar na jarda, que estava mistiga. Topei logo outro gajo com que me bati e comi-lhe uma chata com quinze filhoses de cinco milhos cada. A chata deitei-a ao ar e o governo passei-o para as batas do “Tordo”. E ainda me bati com outro patego e suqui-lhe um palrante de lodo, que por sinal tive muito trabalho para desengomar da amarra. Procurei o intruja, mas não o lupei e, com fageca dos cabras, fui refundir tudo ao ar e passei-me para longe da jarda, tendo sornado ao ar. Quando de manhã abri os quelizes, vi que o “Tordo” se tinha passado com o governo, menos de vinte milhos que o “Faneca” me tinha calmado para as batas e que eu tinha posto à sombra nos entrames do justo.

Deixei-o para aí a dar à grunhideira que nem uma gomarra, isto é, falar até se fartar, mas sinceramente não percebi patavina.
Eu vou tentar ser mais claro: Uma vez fui com o “Tordo” para me ajudar a roubar e por último ele ainda me roubou. Quando me apeei na estação de Évora, encontrei-me logo com um polícia de Lisboa, outro do Porto e um da terra e com um denunciante que os acompanhava para lhes indicar os gatunos que iam de fora. Porém, consegui fugir sem que eles me vissem. Dirigi-me à feira e meti-me num ajuntamento. Vendo um provinciano, roubei-lhe um relógio e uma cadeia de ouro. Tratei logo de vender esses objectos em casa do “Faneca” que me deu por eles 20.000 reis, embora valessem mais. Voltei para a feira e roubei uma bolsa de prata a uma mulher. A bolsa continha 20 libras de ouro e 3.200 reis em prata. Este dinheiro dei-o a guardar ao “Tordo” e continuei na feira que estava muito concorrida. Pouco depois encontrei outro indivíduo a quem furtei uma carteira com 15 notas de 5.000 réis. A carteira deitei-a fora e o dinheiro dei-o ao “Tordo”. Ainda furtei outra corrente de ouro e um relógio de prata, dando-me bastante trabalho tirar a corrente porque a argola estava perra. Como não encontrei o “Faneca” fui enterrar esses objectos e afastei-me para longe, dormindo essa noite num campo. Quando de manhã acordei, não vi mais o “Tordo” que me fugiu com todo o dinheiro, excepto os primeiros 20.000 réis que o “Faneca” me deu pela corrente e o relógio de ouro, que eu tinha guardados num bolso.


Assim termina a entrevista imaginária à criança-ladrão mais famosa que algum dia existiu em Portugal. Desde o ano que nasceu na zona de Alenquer (1850) e até 1870 passaram-se apenas 20 anos. No entanto, apresentou um palmarés de mais de trinta detenções, várias dezenas de roubos comprovados em Tribunal e, com apenas 14 anos, um degredo de 4 anos para Cabo Verde, pelo que se tornou numa personagem lendária do crime. Já não passava de um reles ladrãozeco, quando num curto espaço de tempo desapareceu de circulação sem deixar rasto. Decorria o século XIX!…



in Jornal D’Alenquer, 1 de Março de 2001, p. 2

Hernâni de Lemos Figueiredo
©Hernâni de Lemos Figueiredo (2001)

Director do Jornal D’Alenquer

hernani.figueiredo@sapo.pt

TM 965 523 785


Deixar um comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s