Semana Santa no Sardoal: Viagem por uma vila singular

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Semana Santa no Sardoal

Viagem por uma vila singular


SARDOAL: Procissão do Senhor da Misericórida ou dos "Fogaréus".

SARDOAL: Procissão do Senhor da Misericórida ou dos “Fogaréus”.


“Ah, o Nuno Roldão, de Alenquer, já o vi hoje”. Mas foi duma capela aberta ao público, que nos veio a resposta certa. Uma simpática senhora, depois de meditar um pouco sobre a nossa dificuldade, respondeu-nos: “já sei quem é; é o Nuno da Menina Maria do Tio Hermenegildo. Mora lá em cima junto ao meu irmão”.


SARDOAL: Capela enfeitada.

SARDOAL: Capela enfeitada.

Duas semanas atrás, chegou à redacção do Jornal D’Alenquer um convite do presidente da Câmara Municipal do Sardoal, para assistirmos às festas da “Semana Santa”. Logo aí despertou a nossa curiosidade o extenso programa das festas, resultantes de um trabalho comum entre a Câmara Municipal e da Paróquia de São Tiago e São Mateus que, para além duma interessante programação religiosa, também constava a “abertura da exposição de fotografia “Sinais de Deus” de Conde Falcão, no espaço GETAS” e a exposição “Paramentaria da Semana Santa”, no átrio da Casa Grande.

Mas afinal, ignorância nossa, onde ficava o Sardoal? No Alentejo? nas Beiras? É um mapa que nos esclarece e deparamos com uma localização afinal mais próxima do que imaginámos: no extremo limite do Ribatejo.

Dia 12 de Abril; pouco passava das 10 quando nos fizemos à estrada. A manhã despontou limpa e isso foi o que se desejou para o dia da viagem. Àquela hora, já se notava, estrada fora, a debandada dos centros urbanos para a passagem da Páscoa com a família. Cerca do meio-dia chegamos ao Sardoal. Seguimos por uma rua estreita à procura de um lugar para deixar o carro. Dois homens e uma máquina do município local operavam junto de uma tubagem estendida ao longo do que nos pareceu uma travessa, também estreita. Foi o homem da máquina que nos disse: “mais à frente, junto da Igreja Matriz, há um estacionamento”. Foi o que fizemos!


SARDOAL: Exposição de “Paramentaria da Semana Santa”.

SARDOAL: Exposição de “Paramentaria da Semana Santa”.

Depois de estacionado o carro, a pé descemos a rua por onde entrámos, toda em calçada, recentíssima, até ao largo, limpo (Praça da República), com Pelourinho, onde ficam os Paços do Concelho e, bem visível, na parede lateral de uma capela, um painel em azulejo alusivo a Gil Vicente, na forma interior de uma boca de cena.

Quase de porta em porta, fomos perguntando por Nuno Roldão, nosso colaborador, e que sabíamos estar a passar a Páscoa na “sua” terra. “Ah, o Nuno Roldão de Alenquer, já o vi hoje”, foi a primeira resposta dum simpático “lagarto” (assim se chamam os habitantes do Sardoal). Depois do almoço lá recomeçamos à procura da casa do nosso amigo Nuno Roldão, pois já se aproximava a hora da inauguração da exposição que nos fez ir até lá.

Foi numa capela aberta ao público que nos veio a resposta certa. Uma simpática senhora, depois de meditar um pouco sobre a nossa dificuldade, respondeu-nos: “já sei quem é. É o Nuno da Menina Maria do Tio Hermenegildo. Mora lá em cima junto ao meu irmão” e, amavelmente, acompanhou-nos quase até à porta de Nuno Roldão. Este, sorridente e surpreendido, abriu-nos a porta mal ouviu que alguém batia e, acompanhado de esposa e filha, mandou-nos entrar. Logo se prontificou a guiar-nos pela vila, assim que soube ao que íamos: uma visita à tradição e exposições. Foi o começo da reportagem, não só pelas exposições, mas por aquilo que se pensa ser único e original no país: as Capelas Enfeitadas.


SARDOAL: Rua 5 de Outubro

SARDOAL: Rua 5 de Outubro

Descíamos a Rua 5 de Outubro quando, a um sinal de Nuno Roldão, reparamos numa cara sorridente e de bigode farto que, numa janela duma casa apalaçada, nos chamava. Era o já nosso amigo e conhecido José Mora de Campos, vereador do município local e presidente da Casa do Ribatejo que, com a sua esposa, fez questão de nos mostrar as instalações da sua casa, recebida em herança, revelando os projectos que tem para elas, mas não sem antes nos dar a provar uma deliciosa ginjinha “da casa”.

Atrasadíssimos, pouco depois, prosseguimos a visita: foi a vez das Capelas Enfeitadas. De quinta-feira Santa até Domingo de Páscoa, grupos de moradores, associações e instituições locais executam, com pétalas de flores e verdura, no chão de cada capela, tapetes florais com motivos religiosos. O desenho de cada tapete, tendo essa característica é, contudo, livre, isto é, fica ao critério da imaginação de cada grupo. Desta tradição, que se perde no tempo, fazem parte as capelas do Senhor dos Remédios, Sant’Ana, Santa Catarina, Nossa Senhora do Carmo, S. Sebastião e Espírito Santo, e ainda a Igreja da Misericórdia, cujo altar-mor, de estilo barroco, em talha dourada, é muito bonito.

A visita, sempre guiados por Nuno Roldão, levar-nos-ia à descoberta de uma riqueza arquitectónica interessante, do Gótico e da Renascença, em templos dotados de belíssimos altares e excelente estatuária, como é o caso das igrejas Matriz, da Misericórdia e de Nossa Senhora da Caridade. Contudo, a acção do tempo tem provocado também aqui estragos bem visíveis, sobretudo ao nível da talha e da pintura (já para não falar da pedra). O apoio dos organismos competentes, para a adequada restauração deste património, é anseio e pedido que aqui deixamos em nome dos sardoalenses, ou “lagartos”, como lhes chamou Gil Vicente, na “Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela”, no princípio do Século XVI.

Já no adro da Igreja Matriz pudemos ver, do ponto em que o Ribatejo acaba e o Alentejo começa, um extenso vale onde permanece ainda um pouco da vegetação mediterrânica, aqui e ali entrecortada por oliveiras e, em menor número, por algumas figueiras.


SARDOAL: Rua da Amoreira, no centro histórico.

SARDOAL: Rua da Amoreira, no centro histórico.

Alguns passos, e circulamos pelo centro histórico da vila. Ruas, estreitas, em calçada, ladeadas de casas onde o branco predomina e uma multiplicidade de flores dá ao conjunto uma expressão de criatividade e ao ar uma mescla suave de perfumes. Exemplares de arquitectura tradicional e vernacular, conservados, a par de edifícios religiosos, num ambiente que podemos chamar de coexistência pacífica, perpetuam sem nenhum choque as diversas marcas históricas e culturais de que pode orgulhar-se uma população.

Com tanta beleza para ver, obviamente, chegámos tarde à inauguração da exposição “Sinais de Deus”, mas entrámos e, uma a uma, observámos todo o misticismo e contrição das sombras das fotos de Conde Falcão. “A promessa”, “O encontro”, “A prece”, “A meditação”, “O calvário”, “A luz e a sombra”, “Cruz na vida”, são alguns dos títulos deste magnífico artista que, em mais de 40 exposições, já levou os seus trabalhos a vários países, na Europa e na América.

Na outra exposição, “Paramentaria da Semana Santa”, pudemos ver várias peças do valioso espólio artístico/religioso existente na Paróquia de S. Tiago e S. Mateus do Sardoal. Diversas peças do vestuário litúrgico estiveram expostas, como uma custódia em prata dourada do Séc. XVIII, e, do mesmo século, uma bacia de lava-pés, uma naveta, um turíbulo, uma caldeirinha de água benta e um Cristo Crucificado, indo-português, em marfim.

No decurso desta passagem pelas exposições pudemos ainda trocar algumas impressões com o presidente da Câmara Municipal, Fernando Moleirinho, que não escondeu a sua satisfação pelo modo como tudo decorria. Política e alteração às eleições autárquicas, informalmente, fizeram parte da nossa conversa.


SARDOAL: Na exposição de Conde Falcão, ao lado do nosso anfitrião, Nuno Roldão.

SARDOAL: Na exposição fotográfica “Sinais de Deus”, de Conde Falcão, ao lado do nosso anfitrião, Nuno Roldão.

Das celebrações da Quaresma, Semana Santa e Páscoa, que no Sardoal se perdem no mais recuado dos tempos, a Procissão do Senhor da Misericórdia (ou dos Fogaréus) é, das que conhecemos, a que confere, no momento da sua realização, um indescritível simbolismo a toda a emoção colectiva. A electricidade da rede pública é desligada em todo o percurso por onde passa o cortejo; a luz para a caminhada vem das velas dos muitos milhares de fiéis, a que se junta a luz de centenas de lamparinas ou lanternas de vidro, dispostas nas varandas, nas janelas, nas sacadas, nos muros e escadarias do Convento de Santa Maria da Caridade (segundo convento franciscano construído em Portugal). O recolhimento é profundo, e no ar o que ressoa é uma música fúnebre, lentamente batida. Um cântico ou uma oração é o que se ouve duma multidão que, no íntimo, talvez espere ser ouvida.

Sobre este quadro, se um comentário nos fosse pedido, que enquadrasse a passagem das motivações sociais para a fé no Divino, diríamos que toda ela se confunde com o saber e a religião, imediatamente aceite e compreendida e, desde há muito, vivida como uma totalidade.

Mas o quadro não se esgota nesta Procissão dos Fogaréus, nem o que sobre o Sardoal podia ainda ser dito. O que se esgota é o espaço que dispomos, curto e com exigências temporais. Talvez um dia, quem sabe, a ocasião nos permita outro voo sobre um património que mal conhecemos, porque a correr o vimos.

(12-4-2001).

Fotografias: Mário Costa (chefe de redacção do Jornal D’Alenquer)


Hernâni de Lemos Figueiredo


©Hernâni de Lemos Figueiredo (2001)
director do Jornal D’Alenquer
in Jornal D’Alenquer, 1 de Maio de 2001, p. 24 e 25

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