Camões e Alenquer (XIII): Camões na correspondência de Mario Saa e Hipólito Cabaço

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Camões e Alenquer (XIII)

Camões na correspondência de Mario Saa e Hipólito Cabaço

Armas_dos_CamoesMario Saa, várias vezes citado e transcrito ao longo deste trabalho enquanto autor do artigo «Origens de Camões – Um estudo histórico», trocou, meses antes da publicação deste, alguma correspondência com o arqueólogo alenquerense Hipólito Cabaço, versando alguns aspectos da história de Alenquer.

No arquivo de Cabaço existem uma parte de uma carta de Mario Saa, sem data, e dois rascunhos de cartas do arqueólogo datados, o primeiro de 26 de Junho e o segundo de 28 de Junho de 1937. Pela análise dos conteúdos se conclui que a carta de Saa é anterior às de Cabaço, e que estas são respostas àquela, sendo a segunda uma espécie de complemento da primeira. Deve acrescentar-se que esta correspondência não se iniciou aqui, como se pode observar na forma como Saa se despede:


    «Creia-me sinceramente penhorado por todos os seus favôres e inteiramente ao seu dispôr.
    De V.ª Ex.ª
    Mario Saa»


Mas é adiante, em post-scriptum, que Mario Saa deixa a pista que interessa a este trabalho:

    «P.S. A condição essencial do Camão é o bico côr de lacre, como as pernas e os dêdos longos, sem membrana inter-digital. É da família dos galeirões e galinhas d’agua, mas maior e de penas azues escuras. Talvez o Gato conheça e saiba onde existem mais
    M.»


Por aqui se conclui que Mario Saa, preparando o seu estudo, ou, no intuito de o realizar, solicitava a Hipólito Cabaço informações, no terreno, sobre o pássaro camão, no plural camões.

Pelo primeiro rascunho de Cabaço, a resposta foi a seguinte:

    «Alenquer, 26 de Junho de 1937

    Ex.mo Senhor Mario Saa
    Lisboa
    (…)
    Camão = O Gato não conhece o passaro que descreve. depois de varios inqueritos a que procedi, tomei conhecimento de outro passaro que vive no paul e é assim:
    Mais pequeno que o galeirão e gal. dAgua Pouco Maior que um melro [riscado], penas escuras azuladas, peito castanho avermelhado, bico côr de lacre do feitio do da galinha, pernas e dêdos compridos, inter-digital tambem, membranas côr de lacre, dá pequenos vôos, mas prefere mergulhar para se defender [riscado]. Algumas pessôas não lhe conhecem o nome, outros chama-lhe mergulhadôr. Será este?

    Quinta ou Casal de Camões ou Camão. Ainda nada consegui sabêr, mas estou seguro que com o tempo lá chegarei. Ha um Casal de Martim Vaz confinante com a Q.ta do Carneiro. Terá este qualquer relação com a família Camões?
    Ha na margem esquerda do Paul do Alvarinho uma propriedade chamada Vale da Serpe. Terá esta propriedade alguma relação com o escudo d’armas dos Camões? Um vale entre dois montes e no vale uma serpe. Esta propriedade foi do Concelho de Alenquer hoje é da freguesia de V.N. da Rainha. Asambuja.
    Do mais que fôr sabendo comunicarei a V. Ex.ª»


Por esta resposta se conclui que Mario Saa, além de questionar Cabaço acerca do pássaro camão, procurou informações sobre uma Quinta ou casal de Camões ou Camão, sobre a existência de indivíduos de apelido Vaz, e sobre elementos relacionados com a heráldica representativa do apelido dos Camões: uma serpente atravessando um vale. Daí o topónimo Vale da Serpe.

A segunda carta, de apenas dois dias depois, será um complemento das informações dadas na primeira: o pássaro camão e o Casal de Camões.

    «Alenquer, 28 de Junho de 1937

    Ex.mo Senhor Mario de Saa
    (…)
    Passaro Camão – (o que descrevi) Habita agora no Paul do Alvarinho e vive, conjuntamente e em bôa sociedade com galeirões e marrequinhos.
    Logo que persente alguem mergulha e só passado algum tempo deita só a cabeça fóra d’agua, momento este que os caçadores, embuscados, aproveitão p.ª lhe atirar. Ha ali naquelle Paul bastantes d’estes passaros. O caçadôr que me informou, matou de cada vêz que ali foi entre 4 a 6 d’essas aves.
    Charneca da Sabugosa e varzea das Capadeiras. Foi comprada ha uns 20 anos pelo meu amigo Ex.mo Sr. Visconde de Merceana e director do Banco Nacional Ultramarino, hoje em viagem pelo Brazil. Na sua volta procura-lo-hei pois é m.to possivel que possua antigas escripturas que nos deem alguma luz sobre o Casal de Camões.
    A varzea das Capadeiras, contigua e pertença da Charneca da Sabugosa. Ainda é m.to alagadissa e certamente antes de têr a drenagem que hoje possue, devia sêr um Paul, e seguramente ali viveria o Camão, tanto mais que é m.to proxima do Alvarinho.»


Observando uma carta corográfica da região, com facilidade, se localiza, a Ribeira do Alvarinho, a Sul da Base Aérea de Ota, e, nas suas margens, topónimos como Casal do Alvarinho, Vale da Serpe, Serpe, ou Quinta do Carneiro. Não se encontra, no entanto, nenhuma quinta ou casal de Camões ou Camão, o pássaro que por ali habitava.

As questões que Mario Saa levanta procuram encontrar argumentos para dar consistência ao que defende no seu artigo, que publicará meses depois, e que, infelizmente, expõe mas não demonstra: a de que as origens da família Camões, e até as do próprio apelido, se relacionariam intimamente com o Concelho de Alenquer, o que contraria tudo o que se escreveu sobre a origem – galega – da família. Curioso, fabuloso talvez, o raciocínio de Mario Saa, a cuja teoria, mais uma vez se recomenda, devem ser postas todas as reservas, mas que, pelo menos, fica registada como mais uma tentativa de explicar o vínculo Camões-Alenquer. Registada fica também a contribuição dada por Hipólito Cabaço para o mesmo objectivo.


Filipe-Rogeiro

©Filipe Soares Rogeiro (2001)
Licenciado em História
in Jornal D’Alenquer, 1 de Maio de 2001, p. 47

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