KINO: Monumento a… JULIA ROBERTS

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K I N O:

Monumento a…

JULIA ROBERTS

          Julia, Julia, seashell eyes, windy smile, calls me

          So I sing a song of love, Julia

(Lennon/McCartney)

Julia-Roberts25 de Março de 2001, Los Angeles. No palco do Shrine Auditorium, com o seu Óscar na mão, Julia Roberts não consegue pronunciar uma palavra tal é a ensurdecedora corrente de aplausos que ressoa na sala. Ao acolhimento triunfal que lhe é prestado, a comediante não pode responder senão com o sorriso resplandecente que lhe confere o seu charme. Um sorriso inocente, radioso, um dos mais belos sorrisos do mundo. Nesse instante ela emana um clarão tão intenso que parece iluminar as duas mil presenças que a aclamam. O tempo parece suspenso. A imagem pertence já à lenda. Recebendo este Óscar de melhor actriz por Erin Brockovich depois de dez anos do inicio da sua carreira, é como se Hollywood procurasse dispor de uma indiscutível prova do seu talento para a consagrar. E a prova aí estava, flagrante, brilhante. O Óscar impunha-se.”

O que se acaba de ler não é, nem de perto nem de longe, uma reportagem ou qualquer outro apontamento noticioso sobre o que passou na noite da entrega dos Óscares. Nada disso. O que se acaba de ler é um texto de ficção que o tempo, mais propriamente o dia mencionado, tornou realidade. Uma bela e maravilhosa realidade.

Se havia, já, por quem segue atentamente estes acontecimentos ligados ao cinema, a percepção de que a entrega do Óscar a Julia Roberts mais não era do que uma “Crónica do Óscar anunciado”, ninguém levou mais longe essa “Crónica” que Christophe d’Yvoire ao publicar o que acima se descreveu na edição fora de série da revista STUDIO de Dezembro de 2000, ainda nem sequer se conheciam os nomeados.

Não deixa também de ser curioso que, fazendo a referida edição um balanço cinematográfico do ano que então terminava, tenha na capa uma adorabilíssima Julia Roberts projectando de forma tão admirável o seu triunfo. A sua marcha triunfal.

Premeditação? Absolutamente. No entanto, meditando um pouco na ascensão meteórica de Julia Roberts, ascensão que tem como principal mérito o de nunca ter cedido aos caprichos que acometem as “estrelas”, não é difícil concluir que Julia estava já muito além do Óscar. Nem tão pouco precisava de o ganhar. Acréscimo material não lhe traz nenhum. Fama também não. Julia, com Erin Brockovich, já não precisava de provar nada a ninguém, e afirmo sem reservas, recuou na sua trajectória para receber o Óscar.

Porque era o Óscar que olhava já para Julia. Porque era o Óscar que ansiava já estar nas suas mãos. E uma vez nas mãos dela, nunca o mesmo me pareceu tão horrorosamente grotesco, carrancudo e feio. E, se a infinita beleza do sorriso radiosamente luminoso de Julia não conseguiu arrancar o esboço de um sorriso daquela imponente e importante frieza dourada, também a mesma não foi suficiente para alterar a maneira de ser e estar de Julia e remetê-la para os degraus da inacessibilidade.

Felizmente, a avaliar pelo seu comportamento à posteriori, Julia não ficou absolutamente nada enfatuada daquela desmesurada importância que se traduz tantas vezes num infantil “non sense” ou caprichoso snobismo (aqui recordo-me de Juliette Binoche, mas isso é uma outra história…).

O facto de no discurso de agradecimento não ter mencionado quem no fundo esteve na origem desta vitória, a verdadeira Erin Brockovich, e ao reparar no seu esquecimento lhe ter humildemente pedido perdão, revela a sua íntegra personalidade. O facto de continuar a fazer filmes só pela aventura e prazer de os fazer, sem olhar nem ao cachet nem aos louros que deles possam advir, revela que continua com a mesma postura de quando começou com o maravilhoso “Mystic Pizza” (Pizza, amor e fantasia) – com uma extrema humildade, sem excessos de vedetismo. O facto de mencionar que tenciona continuar a fazer sossegadamente o seu crochet – para desassossego de Margarida Rebelo Pinto – demonstra que Julia continua definitivamente a recusar o estatuto de divindade preferindo continuar a ser “a vizinha do lado” e cultivar o gosto pelas coisas aparentemente tão simples e banais da vida.

E a vida, indubitavelmente, reflecte a Julia o seu maravilhoso sorriso. Possivelmente, o mais lindo sorriso do Mundo.

Citando e subscrevendo Susan Sarandon: Quando Julia sorri, o Sol nasce. Naquela noite, senti um arrepio na espinha e uma lagrimazinha de comoção bailou nos meus olhos porque no palco vi também Daisy Arujo, a jovem portuguesa de “Mystic Pizza”, o seu primeiro papel importante e que lhe valeria uma nomeação para o “Independent Spirit Award” em 1989, e quando aquele sorriso iluminou ainda muito mais a noite já de si iluminada e Julia “Daisy Brockovich” Roberts declarou o seu amor ao mundo, a lagrimazinha deslizou suavemente pela face ao som de uma das mais belas canções de Lennon/McCartney, precisamente: Julia.

    “Julia, Julia, ocean child, silent cloud, touch me
    So I sing a song of love, Julia”



Santa-Rita_100x120



©Santa Rita (2001)
in Jornal D’Alenquer, 1 de Maio de 2001, p. 45

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