Entrevista a… António Vitorino d’Almeida, “Menino prodígio” vs “Filho da rua”

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António Vitorino d’Almeida, “Menino prodígio” vs “Filho da rua”

“Estamos actualmente na presença duma das melhores gerações de jovens músicos que alguma vez conheci. É incrível, é uma geração de ouro. Estão a portar-se muito bem. Andam a ser sérios na sua forma de trabalhar, de estudar, de ensaiar. Eles estão a gostar de ser profissionais da música”.

António Vitorino d'Almeida“O António a todos encantou com o seu já maravilhoso poder de interpretação. É, podem crer, um caso invulgar de precocidade e de intuição artística, e este pequeno génio deve ir longe, pois que adora a música… quase desde que nasceu”. Assim relatou, em crónica, o Século Ilustrado, a sua “primeira audição para gente crescida”, quando António Vitorino d’Almeida tinha apenas sete anos de idade, e onde interpretou obras de Mozart e Beethoven, entre outras, além de duas composições da sua autoria.

António Victorino Goulart de Medeiros e Almeida, nasceu em Lisboa a 21 de Maio de 1940. Viveu no Campo Grande onde ser “o filho único e o mais novo dos netos” não o impediu de viver, também, uma outra vida e ter aprendido com os “filhos da rua”, meninos “pés descalços”, de uma “condição inferior”. No Liceu aprendeu em aulas particulares com Jorge Borges de Macedo com quem manteve uma relação de amor-ódio e a quem considera a “pessoa mais inteligente que alguma vez conheceu”. “Às vezes penso que se não tivesse nascido naquele bairro, se não tivesse andado de pé descalço e se não tivesse tido o Borges de Macedo como professor, era capaz de ter sido um atrasado mental”.

Foi o pai, o advogado Victorino d’Almeida, que lhe terá estimulado o gosto pela música, oferecendo “ao pequeno “Antonino uma minúscula bateria. A partir daí começou a acompanhar “ritmicamente” as emissões radiofónicas o que sensibilizou uma senhora, habitual frequentadora de sua casa e que logo o recomendou para receber aulas de piano. Experiência mal sucedida pois a sua professora de música declara-o uma “nulidade musical”. Quando a amiga “olheira” regressou de uma viagem ao estrangeiro, espanta-se com a desistência do pequeno e ela mesmo começa a ministrar-lhe lições de piano.

Concluiu o Curso de Piano do Conservatório de Lisboa, com 19 valores, o que lhe valeu uma bolsa para estudar composição na Escola Superior de Música de Viena, curso que acabaria com a mais alta classificação conferida por aquela escola e com um prémio do Ministério austríaco da Cultura. Viveu em Viena desde os 20 anos, onde ocupou o cargo de adido cultural da embaixada portuguesa, a partir de 1974, por um período de sete anos.

António Victorino d’Almeida tem antecedentes familiares notáveis na área da cultura: o avô paterno, Achilles d’Almeida foi um óptimo músico amador, além de autor teatral e encenador de vários espectáculos; a mãe, Maria Amélia Goulart de Medeiros fez uma curta carreira de cantora lírica; e a avó, Odette Saint-Maurice, foi escritora. O Maestro Victorino d’Almeida é hoje o patriarca de uma exemplar família artística, pois as suas filhas, Maria de Medeiros e Inês de Medeiros, são consagradas estrelas do cinema e Anne Vitorino d’Almeida é a sua directa herdeira musical. “Aprendemos que a cultura não é algo fora de nós e da vida, não é uma extravagância como continua a ser considerada em Portugal e só uma grande hipocrisia impede as pessoas de verem o que se passa”.

A autonomia é uma nota forte da sua família, ao género atira primeiro, pergunta depois. Cada um segue o seu caminho sem aviso prévio e só depois se apresenta trabalho feito, o que não impede que, entre pai e filhas, a conversa seja fluente e diversa: com Maria dá para a risota, com Inês para o sério, com Anne tudo se tempera.

Para António Victorino d’Almeida, a sua filosofia de vida está bem ilustrada no que encontra nos corais de Bach: por mais que se estude, as soluções do compositor são sempre outras e inesperadas. Admite a existência do génio como pura “manifestação do instinto”. “Nós somos o espelho do nosso trabalho” e “só o trabalho é que não me cansa”, costuma comentar. Já as suas filhas costumam dizer que “ele não tem descanso, quando não está a compor está a tocar, quando não está a tocar está a arrumar as pautas ou a ouvir música”. “Passa muitas vezes o tempo a tocar duas notas, repetidas infinitamente, dias inteiros”. Esse é o lado mágico do trabalho, artesanal, árduo, caótico até que a ordem se instale e saia uma coisa maravilhosa.

Como é um comunicador único, pode contar a história mais enfadonha que fica tudo fascinado. Essa faceta da sua veia artística, também está patente em diversos livros, e como diz a sua filha Inês, “os livros do maestro é sempre um acontecimento familiar”. É no Verão que está liberto para a escrita – foi assim que escreveu “Coca Cola Killer”, que retrata a sociedade portuguesa na passagem do 25 de Abril até ao Governo AD, e “Tubarão 2000”, que faz o retrato do ”cavaquismo”.

Com um ambiente familiar favorável, começou cedo a aprender música. Já pensava nessa altura em ser compositor?
Sim, isso eu acho que sim. Acho que dos primeiros objectivos que eu tive, a partir do momento que comecei a aprender música, foi para poder compor. Eu próprio inventei músicas.

Dos seus professores, de liceu e da música, qual deles o influenciou mais?
Jorge Borges de Macedo, António José Saraiva e, como músico, o Karl Schiske.

Foi para Viena de Áustria estudar composição, alguma vez lhe apeteceu desistir?
Não, nunca tive vontade de desistir.

Mais tarde foi adido cultural da Embaixada Portuguesa em Viena. Que pode nesse cargo um adido fazer pela cultura do seu país?
Quer dizer, aquilo que eu fiz, continuo hoje a fazê-lo e era o que já fazia antes de ser adido cultural. Ou seja, os austríacos consideram-me, ainda hoje, um adido cultural português em Viena, mesmo sem lá estar a residir. A realidade é indiscutível: quem mais tem feito pela simples divulgação de Portugal na Áustria e em grande parte o contrário também, tenho sido eu. Aliás, foi por isso que fui duas vezes condecorado pelo governo austríaco.

Por estas ou por outras palavras, o Maestro Vitorino d’Almeida tem afirmado que a música é toda uma, que o que a distingue é a maior ou menor elaboração. Quer esclarecer?
A música é como a gastronomia, como a literatura. Quer dizer, há uma refeição ligeira, que pode saber muito bem, e, em certas circunstâncias, pode até ser o melhor que há. Há uma música também ligeira que pode ser, a nível técnico, harmoniosa, melódica, lírica, etc.

O músico, como o escritor, é um ser inquieto?
Sim. Acho que há uma certa inquietação, um certo inconformismo perante os problemas: o querer vencer dificuldades, o querer vencer problemas, que às vezes até somos nós que os criamos.

Acontece surgirem-lhe dificuldades no acto de compor? Como os resolve?
Hoje, e em qualquer profissão, existem dificuldades. Uma vantagem dos anos e da experiência da vida é as pessoas irem tendo cada vez menos dificuldades no sentido técnico, quer dizer, há certas coisas que tecnicamente já se resolvem.

Tocar obras suas ou de outros compositores, é para si a mesma coisa?
Por acaso prefiro tocar obras de outros compositores. Ultimamente tenho-me dedicado menos a essa actividade de pianista de concerto, no sentido de conceito formal, de tocar obras de todos os compositores. Faço-o mais ao nível, digamos assim, de “conserva meio conserva”, “meio concerto”. É uma mistura, é uma forma sui-generis de espectáculo, mas, não há dúvidas, gosto mais de tocar outros compositores.

Que importância pode ter para um compositor contemporâneo tocar Mozart ou Beethoven?
Quer dizer, representa tocar dois grandes mestres, e representa vencer um grande número de dificuldades, porque são, realmente, não apenas técnicas como interpretativas. É como sentir a mensagem humana e quase o ideário moral, ético, estético, que emana dessas obras. A interpretação tem muito de fascinante, mas também tem muita responsabilidade.

É verdade que a estrutura musical em Portugal se baseia na figura da “vedeta”?
Bastante, e isso é mau. Vedeta não é profissão. Profissão é ser músico.

Como estamos de orquestras em Portugal?
Orquestras, claro que há pouquíssimas, quer dizer, nós tínhamos obrigação de ter para aí umas cinco, seis ou sete orquestras sinfónicas espalhadas por todo o país. Uma no Algarve, duas ou três em Lisboa, duas no Porto, uma em Coimbra, uma em Braga, outra em Viseu, e assim cobrir geograficamente o país. Só assim é que nós éramos um país europeu. Enquanto não as tivermos, não o somos.

E o que é que podia ser feito para alterar esse estado de coisas?
É não gastar dinheiro à toa, como estar a gastar mil contos por dia, com o aluguer do Teatro Camões, só para a “Sinfónica Portuguesa” lá ensaiar. Só este dinheiro que se está a gastar por aí, já sustentava, pelo menos, três orquestras sinfónicas.

Quantos elementos tem essa orquestra?
80, e não custa, de modo algum, tanto como o aluguer do Teatro Camões.

Quanto custa?
Cerca de 70.000 contos por ano.

Sendo assim, o músico ganha pouco?
300 contos por mês é média do que os músicos ganham. Agora um músico numa orquestra bem estruturada, quer dizer, deve ser numa orquestra que permita aos músicos de maior qualidade, para além de poderem fazer música de câmara, poderem fazer peças a solo, e coisas assim. Permitir-lhes até ganharem mais dinheiro, mas para isso tinha de haver uma estrutura organizada que permitisse de facto que se desenvolvessem as potencialidades de cada um. Não uma coisa monolítica, sem critérios, sem flexibilidade, sem maleabilidade e sem competência. Quer dizer que quem está à frente, administrativamente, são pessoas que não são músicos, que não têm capacidade.

Que conselhos daria, na área musical, aos mais novos?
Estamos actualmente na presença duma das melhores gerações de jovens músicos que alguma vez conheci. É incrível, é uma geração de ouro. Estão a portar-se muito bem. Andam a ser sérios na sua forma de trabalhar, de estudar, de ensaiar. Eles estão a gostar de ser profissionais da música. Não tenho assim grandes conselhos a dar aos jovens músicos.

A sua carreira tem-se repartido pela música, cinema, televisão e literatura. São actividades incompatíveis, ou, pelo contrário, complementam-se?
São perfeitamente compatíveis e nalguns casos até são complementares, quer dizer, a literatura, o cinema, a própria televisão podem ser perfeitamente complementares da música. Há certas coisas que naturalmente podem ser, não é indispensável que estejam ligadas.

Conferências e palestras são reuniões para um público aparentemente interessado. Que acha que fica disso num público que geralmente se limita a ouvir?
É certo que uma das minhas profissões é estar no palco, eu sou um bicho do palco, ao palco adestrado e gosto de obviamente sentir que há sempre um certo diálogo, independentemente de ser eu a falar, o sentir que as pessoas estão a entender o que eu estou a dizer, isso significa que já há implicitamente um diálogo entre nós.

Conversar pode ser uma arte e o Maestro Vitorino d’Almeida tem dado na televisão consistência a essa ideia. Como transformar um assunto enfadonho numa conversa agradável?
Há truques conscientes e há truques inconscientes. Há truques que nós mesmos não sabemos exactamente onde é que os vamos buscar. Tenho muito mais facilidade em falar por exemplo numa sala com várias pessoas, do que estivesse numa sala com uma pessoa à mesa. O palco-estrado desenvolveu-me uma certa adrenalina que facilita as coisas.

Compor e escrever, qual destes actos lhe dá mais prazer, se há prazer…
As duas coisas. O compor sempre é a coisa que eu faço mais, mas eu gosto muito de escrever e neste momento até tenho saudade de escrever.

Para o cidadão António Vitorino d’Almeida “o mundo está doente”. Que sugere para a sua cura?
Acho que o mundo está à beira de uma revolução que eu não sei qual é, e o mundo também não sabe. Agora, de uma coisa, hoje, estou convencido, é que sei qual não é: as revoluções de carácter político-económico que têm sido feitas, essas, neste momento, estão com os seus dias contados. Haverá uma revolução certamente das mentalidades, penso eu, haverá uma revolução dos hábitos, haverá uma revolução no sentido crítico das pessoas. Tenho a nítida sensação de que estamos a tocar no fundo, e quando se toca no fundo alguma, alguma coisa se há-de passar.

O sucesso das televisões com o aproveitamento das tragédias e da violência?
A violência é espectáculo, é uma forma perversa de espectáculo, e a pessoa humana sempre foi atraída para todo e qualquer tipo de espectáculo. Portanto, a violência não escapa, também infelizmente, a essa sua função de espectáculo, desde o circo romano até hoje, que a violência atraiu os espectadores. Agora, efectivamente, compete aos responsáveis pelas programações e pelas edições ao nível dos jornais, digamos assim, refrear esses instintos e escolher efectivamente aquele que deve ser, e como deve ser noticiado sobretudo, tudo tem que ser noticiado. Como noticiar, isso já é diferente. Portanto, penso que não é a censura, é uma coisa que escamoteava a publicação da verdade, ou a publicação de factos reais. Agora escolher a forma como apresentar a coisa não tem nada que ver com a censura, e hoje está-se a embarcar numa “balda” que não significa nenhuma espécie de liberdade. É mais libertinagem do que liberdade.

Última pergunta. Como compositor e pai, segue os passos da sua filha Anne Vitorino d’Almeida e costuma dar-lhe conselhos?
Gosto sempre de deixar uma grande dose de liberdade nessa escolha. Ela, sempre que necessita de conselhos, vem pedir-mos, às vezes até vou pedi-los também a ela. Já é suficientemente madura neste momento para escolher as suas vias, que não terão que ser necessariamente as minhas, mas em muitos aspectos penso que estamos próximos.

Livros:

    Histórias de Lamento e de Regozijo (romance)
    Coca Cola Killer (romance)
    Um Caso de Bibliofagia (romance)
    Polisário, Memória da Terra Esquecida
    Música e Variações (História da Música Ocidental)
    Tubarão 2000 (romance)
    Catálogo do Pavilhão dos Oceanos (com outros autores)

Música:

    7 sonatas
    Sonatina
    18 obras sinfónicas
    12 prelúdios
    7 nocturnos
    Diversos estudos, etc., etc..

Programas de Televisão:

    1+1=1
    A Música e o Silêncio
    A Nota Sensível
    À Volta do Coreto
    As Fontes do Som
    Contos e Vigários
    Duetos Imprevistos
    História da Música
    Ouvir e Falar
    Residencial Tejo
    Tema e Variações

Teatro:

    Sinfonieta (Tardiev) – encenador

Cinema:

    A Culpa (1979) – estreia de Inês apenas com 10 anos
    Obsessão

Colóquios:

    “Se eu fosse Ministro… da Cultura”, na sala Paris do Hotel Penta, em Lisboa






Hernâni de Lemos Figueiredo


in Jornal D’Alenquer, 1 de Junho de 2001, p. 20 e 21.
©Hernâni de Lemos Figueiredo (2001)
director do Jornal D’Alenquer

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