Damião de Goes, 500 anos depois: Damião de Góis e o seu tempo

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Damião de Goes, 500 anos depois

Damião de Góis e o seu tempo

Na continuação de um colóquio sobre “Damião de Góis e o Seu Tempo”, iniciado na sede da Academia Portuguesa da História, no passado dia 8 de Outubro, teve lugar, no dia seguinte, na Biblioteca Municipal de Alenquer, uma segunda sessão do mesmo, com a presença de alguns académicos da referida Academia Portuguesa, a qual, em colaboração com a Câmara Municipal de Alenquer, deu corpo a esta importantíssima série de comunicações sobre Goes e o seu tempo.

Presidida pelo Prof. Justino Mendes de Almeida, a sessão de Alenquer teve a abri-la uma comunicação proferida pelo Prof. Arquitecto Carlos Antero Ferreira, a que chamou “Comentários a Damião de Góis, Olisipógrafo e Cronista do Património Histórico-Cultural”, afirmando, a dado passo, que “o interesse pela antiguidade radicava em sentimentos e em posturas, como a curiosidade, a sedução do valor artístico, a tentação do coleccionismo nascente, o culto da qualidade antiga, o fascínio da raridade, enquanto de Roma vinham os exemplos bem sucedidos de acções de recuperação do património histórico-cultural (…) Curiosidade e interesse que se enriquecerão de novos motivos, novos contributos por todo o século XVI, e a publicação de importantes tratados quinhentistas não convencionais. É neste ambiente de uma Europa onde a cultura humanista se consolida, embora circunscrita a minorias elitistas, girando em torno do papado e das cortes, que Damião de Góis, um atendo e esclarecido europeu do seu tempo, vai produzir as obras em que o universo do património cultural é abordado, seja no âmbito mais restrito da tradição histórica e da geografia da capital do reino, seja naquele outro mais alargado ao território da nação portuguesa, na sua configuração quinhentista”.

Na segunda comunicação do dia, da autoria do Prof. Joaquim Veríssimo Serrão, “Alenquer no tempo de Damião de Góis”, começou o historiador por salientar, relativamente à realização deste colóquio, que “cada um faz o que pode, mesmo que o país não organize manifestações nacionais, que devia fazê-lo, pelo menos nas universidades, para honrar a memória de um homem como Damião de Góis… Mas nós cidadãos temos responsabilidades e portanto, nos momentos apropriados, fazemos aquilo que a consciência nos manda, que é para melhor conhecer o presente, recordando o passado, como forma de consciência do nosso tempo”. Nesta toada recordativa, o professor, chamando a atenção dos estudantes presentes no auditório, lembrou “as pequenas pátrias onde se nasce, onde temos as nossas raízes, os nossos pais, foram motivo de orgulho para os homens do Renascimento. É Resende a recordar Évora, é Damião a recordar a terra de Alenquer… tudo isto é até uma lição para os jovens do nosso tempo, em que já ninguém sabe donde é, nem quer saber das suas raízes, como se vivessem num presente eterno”. Veríssimo Serrão lembraria ainda Alenquer no tempo de Goes, “no caso das montarias, em que isto estava cheio de pinhais; existem cartas do Monteiro-mor da Montaria de Alenquer… era uma terra de caça. Não se falava em pedreiras e estas terras iam até à Ota. Por alguma razão o nosso D. Manuel vinha aqui muitas vezes e em 1496 estadeia em Atouguia das Cabras”.

“Damião de Góis, um Polígrafo Português no contexto do Humanismo Europeu”, assim o considerou o Prof. Aníbal Pinto de Castro, que na sua intervenção aludiu à lápide que o humanista em 1560 mandou preparar “para o túmulo que lhe havia de recolher os ossos, marcados ao fim de longo e acidentado percurso… como se nela tivesse também supliciado e simbolicamente mutilado, como se as adversidades da fortuna, nem depois da morte, tivessem deixado de o atingir. E não será necessário grande imaginação para vermos transposta, para a frieza da pedra, a serena altura de alma com que encarou e soprou pelo espírito as grandezas e misérias que o haviam precipitado do convívio com os poderosos da terra, nos passos dos reis, ou com os peregrinos do espírito, na privança dos humanistas da Europa e até na familiaridade com os tratava, nas oficinas dos grandes tipógrafos da Flandres, sem esquecer a miséria dos cárceres da Inquisição de Lisboa…”

Este colóquio terminaria no dia seguinte (10 de Outubro), na Academia Portuguesa da História, com intervenções dos professores Aires do Nascimento, Geraldo Coelho Dias, Manuela de Mendonça e Amadeu Rodrigues Torres.


Prof. Veríssimo Serrão ao Jornal D’Alenquer:

    “A Academia Portuguesa da História não podia ignorar uma efeméride tão importante como esta, do V Centenário do Nascimento de Damião de Goes. Não há um programa nacional, não se organizou, e isto vive da boa vontade das academias, das universidades, das instituições de cultura. A Academia da História entendeu que tinha a obrigação de fazer qualquer coisa e então organizámos um colóquio, com a colaboração da Câmara de Alenquer, para lembrar uma das figuras mais importantes da história portuguesa, pela sua irradiação europeia e até pela capacidade humana que ele revelou em horas de muita amargura e sofrimento. Esta terra, este recanto, é bonito que recorde Damião de Goes. Pessoalmente estou agradecido pela maneira como Alenquer nos recebeu e queria deixar aqui também o meu sincero agradecimento ao vosso jornal”.



Mario-Costa

©Mário Costa (2002)
chefe de Redacção do Jornal D’Alenquer
in Jornal D’Alenquer, 1 de Novembro de 2002, p. 23

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