Sempre Damião, sempre!…

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Damião de Goes, 500 anos depois

Sempre Damião, sempre!…

Cansado e abatido, confidenciou ao seu protector: “sinto saudades de Alenquer. Foi onde vi a primeira luz”. “A Alenquer hás-de chegar, ou o meu nome não é Henrique”, respondeu-lhe o Cardeal. De facto, Damião de Goes chegou a Alenquer onde morreu, a 30 de Janeiro de 1574, de um modo ainda de todo por esclarecer.

“Damião de Goes é, seguramente, uma das figuras mais ilustres da época quinhentista, mas, lamentavelmente, das mais esquecidas. Tenho, contudo, a convicção que a comemoração oficial que o Governo português se anuncia fazer em 2002, pelos quinhentos anos do seu nascimento, perpetuará, de forma indelével, o seu inegável contributo humanista, cultural e de sentido de estado do Portugal dos Descobrimentos”.

Esta “convicção”, de Luís Rema, vereador do pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Alenquer, manifestada no Jornal D’Alenquer, de 1 de Março de 2001, sofreu um rude abalo quando, a uma diligência sua, recebeu do Governo a resposta que afinal “Damião de Goes não tinha o perfil suficiente para merecer comemorações de âmbito nacional”. Diríamos mesmo que essa “convicção” já era teimosamente “sonhadora”, por ter sido arquitectada após o que aconteceu com um anterior ministro da Cultura (Carrilho), que depois de estar confirmada a sua presença para a inauguração da Estátua do Humanista, primou pela ausência e que, segundo parece, ainda hoje permanece por justificar, numa clara falta de consideração pelos alenquerenses e, sobretudo, numa nítida e chocante ausência de sentido de Estado e de quaisquer valores pela superior memória daquele que, esse sim, espalhou “respeito e sabedoria” por onde passou. Esperamos que, se algum dia vier a Alenquer, faça o “acto de contrição” pela sua praxis egoísta e tão pouco “católica”.

Ao contrário dos responsáveis “do estado”, que continuam a manter um desinteresse patológico por Damião de Goes, tem sido notável o empenho de muitos alenquerenses e estudiosos da causa goesiana. Destes últimos, os professores Amadeu Torres e Joaquim Veríssimo Serrão, têm demonstrado um carinho muito especial por Damião.

Falta falar dos alenquerenses que também, cada um à sua maneira, têm dado o seu contribuído para impedir que Damião de Goes fique esquecido: são os esforços visíveis e imprescindíveis da Câmara Municipal, sobretudo do vereador da cultura, Luís Rema, para que os diversos eventos alusivos tenham a maior dignidade possível; são os diversos trabalhos publicados na imprensa local, da responsabilidade de António Oliveira Melo, Filipe Rogeiro, Nuno Roldão, Carlos Ferreira, Raquel Raposo, Mário Costa, Tapadinhas Assunção e “Zeca” Lourenço; são os desempenhos dos figurantes nas duas peças teatrais, sob a responsabilidade de outro grande amigo de Damião de Goes, António Rodrigues Guapo.

Foi a inauguração da estátua, da autoria de José Núncio; foram ciclos de colóquios, palestras e conferências, em Alenquer, Lisboa (Casa de Góis, Biblioteca Nacional, Torre do Tombo e Academia Portuguesa da História), foi um Congresso em Coimbra; foram duas manifestação teatrais; foi a ópera, no encerramento do “Porto, Capital Europeia da Cultura”; foram diversos concertos com música goesiana; foi uma emissão de selos, pelos CTT; foram lançamentos de livros, etc., etc. Este ciclo alusivo aos 500 anos do nascimento de Damião de Goes vai terminar, com um Congresso Internacional, em Braga, nos dias 29, 30 e 31 de Janeiro do próximo ano, da responsabilidade da Faculdade de Filosofia de Braga, da Universidade Católica Portuguesa. Para além desta efeméride, um marco fica: a passagem, por Alenquer, da Academia Portuguesa da História e a garantia do seu empenho noutros estudos sobre Alenquer, que vão para além da temática “Damião de Goes”.

O “Homem Grande”, de Joaquim Veríssimo Serrão, para além de ser o nosso mais antigo embaixador no mundo, foi guarda-mor da Torre do Tombo, autor da “Crónica do Felicíssimo Rei D. Manuel” e da “Crónica do Príncipe Dom João o Segundo do Nome”; músico de mérito, e amante e coleccionador de arte. Desde muito cedo percorreu mundo e mostrou à Europa de Erasmo, Lutero e companhia, os feitos dos portugueses “por mares nunca dantes navegados”. Amadeu Torres, outro grande amigo de Damião, passados mais de quatro séculos, foi no seu encalço e descreveu assim essa “epopeia”: “Damião de Goes correu a Europa e eu fui atrás dele; nos lugares onde ele esteve, eu estive também; encontrei manuscritos, cartas e autógrafos que me diziam já não existirem”.

Damião, regressado a Portugal instalou-se em Lisboa, e a sua casa era local de cultura e sabedoria, e visitada por muitos humanistas europeus seus amigos. Músico entusiasta, com frequência organizava reuniões musicais onde se ouviam composições polifónicas de Ockeghem, Josquin e outros, o que levou os seus inimigos a queixaram-se dos “sons estranhos” que vinham da sua casa.

Erasmo já anteriormente o tinha avisado de que “Forças obscuras há por toda a parte…” e, realmente, uma delas, Simão Rodrigues, entregou-o à Inquisição que o acusou de herege, devido aos seus contactos com Lutero e Melâncton. Cansado e abatido, confidenciou ao seu protector: “sinto saudades de Alenquer. Foi onde vi a primeira luz”. “A Alenquer hás-de chegar, ou o meu nome não é Henrique”, respondeu-lhe o Cardeal. De facto, Damião de Goes chegou a Alenquer onde morreu, a 30 de Janeiro de 1574, de um modo ainda de todo por esclarecer.

É este o homem que o Estado português não reconheceu ter o perfil suficiente para merecer umas comemorações nacionais alusivas aos quinhentos anos do seu nascimento. Acerca deste desinteresse estatal, Nuno Roldão fez o seguinte comentário: “Saem os governos, entram os governos, mas a falta de respeito por certos acontecimentos culturais, onde a TV não esteja presente, é igual em todos eles”.

Se é permitido brincar com as últimas palavras de Erasmo para Damião de Goes, apetece dizer: “Sempre, Damião, a nossa voz far-se-á ouvir. Sempre, sempre, como uma presença incómoda”.

  

in Jornal D’Alenquer, 1 de Novembro de 2002
©Hernâni de Lemos Figueiredo (2002)
director do Jornal D’Alenquer

 

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