Entrevista: Hernâni de Lemos Figueiredo (director do Jornal D’Alenquer)

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Entrevista concedida a Nuno Castilho de Matos para servir de apoio à sua tese de fim de curso, subordinada “A Imprensa Regional no Concelho de Alenquer”.

Entrevista a Hernâni de Lemos Figueiredo
(director do Jornal D’Alenquer)


Hernâni de Lemos Figueiredo, director do Jornal D'Alenquer

Hernâni de Lemos Figueiredo,
director do Jornal D’Alenquer

Como é que o jornal sobrevive?
Numa altura em que o país está em crise, como que por arrasto, também a imprensa é afectada. Como os jornais da imprensa regional são órgãos de informação mais pequenos do que os da imprensa nacional, as dificuldades chegam-lhes mais depressa. Apesar do número de empregados ser inferior ao número dos que trabalham num jornal nacional, os seus públicos também são mais pequenos e, a sua área de intervenção também; por isso os jornais sobrevivem com muita dificuldade. O nosso, essencialmente à base da publicidade, dos assinantes e da venda nas bancas. Publicidade institucional só existe pontualmente, através da Câmara, mas é muito raro.quadro de pessoal,

Têm porte pago?
Não, não temos. Cada jornal que vai para o correio fica em cerca de 20 ou 21 cêntimos, e essa despesa é coberta por nós.

A venda na banca já tem um peso significativo?
Vendemos cerca de mil exemplares na banca. É um número insuficiente.
Em relação ao quadro de pessoal, quantas pessoas trabalham no jornal?
Fomos obrigados a reduzir custos; saíram dois jornalistas e um delegado comercial, e a paginador ficou em part-time. Ao todo, a tempo inteiro, somos somente três pessoas: eu, um jornalista e uma funcionária para a secretaria. Também há outras duas pessoas que têm participações específicas e que recebem uma pequena avença. É o mínimo possível para assegurar a sobrevivência do jornal. Quando, no país, a situação económica for mais favorável obviamente que o quadro de pessoal será aumentado.

E em relação a colaboradores, qual é a sua importância?
É muito importante porque a vertente “opinião” deu uma certa imagem de prestígio ao jornal. Temos muitos colaboradores, cerca de uma centena, todos a custo zero. É um conjunto heterogéneo, a maioria das pessoas com formação académica, cujos trabalhos habituaram os compradores do jornal a uma leitura interessante, tanto do ponto de vista filosófico com técnico-científico. Esta característica criou uma “clientela” certa, que privilegia mais a “opinião”, deixando para segundo plano a parte “noticiosa”.

Os colaboradores têm frequência certa ou escrevem esporadicamente?
Há um grupo de colaboradores que é de frequência certa e outros que não têm uma participação tão regular. É muito difícil gerir a participação dos colaboradores pois, como é óbvio, não podem participar todos na mesma edição do jornal, o que ocasiona com frequência alguns telefonemas daqueles que viram os seus trabalhos serem preteridos; dar-lhes a justificação “certa” para essa selecção é uma responsabilidade muito difícil. Igualmente difícil é sensibilizar os colaboradores para que os seus trabalhos tenham um tamanho adequado a serem publicados num jornal, não só por disciplina de espaço, mas também para que não dificulte o interesse da leitura. Muitos dos colaboradores, habituados àqueles enunciados académicos, infindáveis e maçudos para a generalidade das pessoas, têm dificuldade em expor a síntese do seu pensamento, de maneira que ele chegue ao entendimento de quem lê o jornal e que, maioritariamente, não tem a sua formação académica ou técnica.
A periodicidade e o tamanho dos trabalhos são dois aspectos difíceis de gerir, tanto mais que são colaboradores a “custo zero”, a que não se pode ser muito rígido nas regras da sua participação.

Se um leitor anónimo enviar um artigo para o jornal, pode ver o seu artigo publicado?
Com certeza, desde que o autor esteja identificado e que eu entenda que o seu trabalho tem conteúdo intelectual suficiente para poder despertar o interesse do leitor. Fico encantado quando isso acontece. Quantos mais colaboradores melhor.
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Pelo que me disse são só dois jornalistas na redacção: o senhor e o Mário Rui Freitas…Exactamente.

Que qualificação é que cada um tem?
O Mário Rui é licenciado em jornalismo. Eu estou a frequentar o “Curso de Ciências de Comunicação e da Cultura”, na Universidade Lusófona, em Lisboa. Por inerência de ser o director do jornal, tenho a carteira profissional. Há muito que colaboro na imprensa regional, sector a que tenho sido bastante dedicado. Tem sido uma aprendizagem empírica, digamos assim. Tenho a preocupação de ler alguns livros dedicados ao jornalismo, e em casa tenho uma boa biblioteca.

Quais os critérios de selecção para o recrutamento de jornalistas para a redacção?
De preferência que tenha uma licenciatura em jornalismo e que habite o mais próximo possível do concelho de Alenquer. A proximidade é essencial; já tivemos várias experiências com jornalistas de zonas afastadas, e não funcionaram. Igualmente importante é a licenciatura em jornalismo, porque penso que as pessoas não andaram quatro ou cinco anos na Universidade a brincar; sempre fica lá alguma coisa ou, pelo menos, assim se espera. No entanto posso testemunhar de que os jornalistas mais dedicados e com sentido de responsabilidade mais apurado que aqui passaram, nem sequer eram licenciados. Alguns dos licenciados em jornalismo que aqui trabalharam apresentavam um certo desprendimento da função que exerciam, uma falta de cultura geral muito acentuada, grandes dificuldades na articulação da escrita da língua portuguesa e uma visão de investimento no futuro inexistente.

Qual é o tipo de publicidade que é mais frequente ver no jornal?
É generalizado. Não há nenhum sector preferencial. Como se costuma dizer, o que vier à rede é peixe; aproveitamos tudo. Pena é que seja insuficiente.

É complicado angariar anunciantes, ou nem por isso?
Cada vez mais difícil. É difícil angariar e depois é difícil cobrar. São duas etapas completamente diferenciadas e muito difíceis de concretizar.

A publicidade é geralmente oriunda da região?
Sim, da zona. A publicidade, de outros concelhos, que aparece no jornal é porque esses clientes procuram o jornal e não o contrário. Não saímos do concelho à procura de publicidade.

O Jornal D’Alenquer tem uma periodicidade mensal. Acha que está bem como está ou devia de ser encurtada ou mais alargada?
O ideal seria semanal, mas neste contexto económico em que estamos é muito difícil a sustentação de um jornal. Hoje um jornal não tem só quatro folhas como dantes, e por isso tem custos elevados. Com um perfil editorial como o nosso não se consegue fazer um jornal de outra maneira. Por ser mensário, o nosso jornal tem mais aceitação pela vertente opinativa que noticiosa, mas não tenho duvidas que ser semanário seria o ideal, e aqui o noticioso não perderia actualidade.

Tendo um número de páginas mais ou menos certo é complicado preencher o conteúdo das páginas, ou nem por isso?
A parte de “opinião” tem a dificuldade de gestão de que falei acima, e sobram sempre trabalhos para esta parte. O difícil é gerir a informação noticiosa. Quando planificamos o jornal fazemo-lo para uma determinada situação; a dinâmica do dia-a-dia coloca-nos perante situações inesperadas mas que são interessantes, ou seja, o que estava planeado tem que ser retirado, e entrar outras peças que aparecem e que tem mais actualidade. Acho que a periodicidade semanal colmatava essa situação, embora prejudicasse a parte económica.

O que é que preenche a maior parte do conteúdo do jornal, a colaboração ou o trabalho dos jornalistas da redacção?

Procura-se que seja cinquenta por cento para cada lado, mas a parte de opinião algumas vezes já tem sido sacrificada quando, à última da hora, aparece um acontecimento de que “é obrigatório” divulgar. Num jornal é mais lógico “retirar” a opinião do que o noticioso. E a opinião retirada, como não perde actualidade, só sofre um “adiamento”, pois entrará na próxima edição.

A periodicidade é relevante para a consequente leitura?
No concelho de Alenquer somos confrontados com o panorama geral do país que é a iletracia, e como o perfil editorial deste jornal é direccionado à camada da população mais desperta, torna-se difícil acordar o interesse das outras pessoas. Provavelmente por deficiência minha, mas como este jornal não me dá lucro nenhum, só corro por amor à camisola, não me sinto minimamente motivado para fazer outro tipo de jornalismo.

É difícil aceder às fontes, ou nem por isso?
Em relação às fontes oficiais, digamos da área do poder autárquico, há uma tendência privilegiada para uma determinada direcção, e nós só conseguimos apanhar alguma coisa estando muito atentos. Muitas vezes quando pedimos determinados dados, essas fontes enrolam e enrolam, num discurso redondo, e eles não são fornecidos; depois somos surpreendidos quando vemos essa informação ser divulgada por outro jornal.
Tal como as fontes oficiais, Câmara e juntas de freguesia, também há colectividades que entram nesse jogo; privilegiam um determinado órgão de comunicação social porque estão todos “metidos no mesmo saco”. Nestes casos existe uma certa dificuldade de acesso às fontes e à informação. É que praticar um jornalismo independente, na província, tem as suas dificuldades.
Felizmente que há outro tipo de pessoas que o seu interesse é fazer a maior divulgação possível dos seus eventos, e que não dificultam a informação quando esta lhe é solicitada. Não têm preferências nos órgãos de comunicação social.

Procuram a notícia ou ela aparece junto de vocês?
Existem duas situações: a notícia que cai aqui na redacção e aquela que temos que ir à procura porque temos interesse em ir à procura dela. Existe informação que é bastante fácil aceder, mas existe também muita informação que nem por isso.

Existe muita pressão das fontes sobre os jornalistas…O jornalismo de proximidade é muito difícil. Torna-se complicado lidar no dia-a-dia com as pessoas e fazer-se qualquer trabalho que ponha em causa os seus interesses, quer sejam económicos, religiosos ou políticos. E a dificuldade é maior quando os interesses em jogo são de clientes ou de patrocinadores. Aqui a viabilidade económica do jornal é levada em consideração, e algumas vezes passa-se por cima de diversas situações, que noutras ocasiões não se passaria. O acontecimento é noticiado noutra perspectiva, num outro ângulo. Não sou “trouxa” a ponto de não verificar essas situações, mas ultrapasso isso e evito arranjar conflitos, embora não possa esquecer totalmente o acontecido. É preciso ser-se muito forte para ultrapassar todas estas aberrações à causa jornalística.

Então, no caso de ser um patrocinador do jornal pensa sempre duas vezes se faz a história ou não?
Não é que seja intencional. Nunca limito ou balizo, nessa perspectiva, o trabalho dos jornalistas da redacção se for um deles a fazê-lo. Mas se for eu, se calhar interiormente analiso essa situação por ser director do jornal. Ser director e jornalista é complicado. Não se pode ser jornalista às segundas, quartas e sextas, e director às terças, quintas e sábados.
O jornalismo de proximidade tem esse inconveniente. E depois há outra dificuldade que é vivermos numa sociedade alenquerense com aquilo a que eu chamo “a herança mais terrível que deixou o salazarismo” que é o medo das pessoas em darem a sua opinião. E como têm medo de dar a sua opinião e se reservam, também não entendem que outras pessoas não tenham esse receio e que julguem como uma boa atitude cívica a participação e discussão de ideias.
Por exemplo, se eu noticiar um acontecimento que possa ser entendido como uma critica a uma situação em que esteja envolvida a câmara ou alguma junta de freguesia, já estou a ser do “contra”, e já sou apelidado disto e daquilo. Vivemos este clima aqui no concelho de Alenquer, o concelho mais iletrado do distrito de Lisboa, aquele que menos jornais regionais lê, segundo um estudo da AIND, o que diz alguma coisa.

As fontes têm medo de represálias e pedem para não ser identificados na notícia?
Exactamente. É frequente virem aqui ao jornal, mas como não querem ser identificados também não posso passar essa informação porque depois, em caso de litígio, as pessoas não assumirão o que disseram.

E não tentam contornar a questão indo procurar a informação de outra forma?
Algumas vezes isso é conseguido, noutras vezes houve situações que o tentei mas esbarrei com muitas dificuldades. As pessoas fecham-se completamente. Mesmo pessoas que sei que sabem dos casos. A população do concelho vive num clima de medo e ainda receia dar a cara e a sua opinião, mesmo até em situações que não são nada polémicas.

Colocando-se na posição de jornalista. Como é ser jornalista na imprensa regional?
É muito difícil. É difícil porque hoje a imprensa regional já requer meios que há dez anos eram impensáveis. Há dez anos fazia-se um jornal só com uma secretária ou muitos até num vão de uma escada, e era o jornal da terra ou da comunidade. Hoje já tem uma técnica mais aproximada aos jornais nacionais, e tem as receitas muito diferentes. A publicidade institucional por exemplo prefere a imprensa nacional à imprensa regional e assim é difícil. E depois há a publicidade preferencial, da área da proximidade política da autarquia, digamos assim, e que é canalizada para um determinado órgão que não o nosso.
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Que mudanças evolutivas tem tido o jornal ao longo dos tempos?
Temos tido várias, mesmo em termos funcionais e em termos de dinâmica interna e aspecto gráfico. Todos os meses, cada vez que o jornal sai, temos uma reunião para ver os pontos a melhorar. Temos bastante preocupação não só pelo aspecto gráfico como também pelo conteúdo. Mas temos uma dificuldade que é saber o impacto que o jornal tem na população, porque as pessoas não participam, não dizem se está bem ou se está mal; se gostam ou não É mais pela percepção que temos do que propriamente pelo feedback.

Têm site na Internet?
Não. Temos um estudo para o site que está suspenso por falta de verbas. Fizemos uma candidatura que contemplava 75 por cento a fundo perdido. A empresa que fez essa candidatura recebeu os 75 por cento do Instituto de Comunicação Social e nós nunca conseguimos suportar os outros 25 por cento. E a partir daí está suspenso até pagarmos os 25 por cento que representam seiscentos e tal contos.

Como é feita a divulgação do jornal?
Temos um mailing list, e no dia 1 de cada mês mandamos o e-mail com os títulos do jornal. Também temos um protocolo com a empresa Boa Viagem onde colocamos publicidade em dois autocarros que circulam no concelho. É só feita nessa base, não temos outro tipo de divulgação.

Têm algum protocolo com outros meios de informação?
Não. Só temos protocolos de conteúdo, por exemplo com a ACICA. Paginamos e incluímos no nosso jornal um espaço dedicado ao boletim da associação de comerciantes. Também temos um protocolo com o Agrupamento de Escolas da Aldeia Gavinha e Merceana, onde disponibilizamos um espaço no nosso jornal para a sua secção juvenil, e também fazemos aqui o seu jornal, de três em três meses.

Qual é que acha que vai ser o futuro da imprensa regional?
Cada vez mais há uma proliferação de artistas da escrita. Penso que a tendência não é para melhorar. Os jornais não evoluíram nesse sentido, e a informação que existe é muito selectiva politicamente. A nível da região Ribatejo/Oeste, existe uma linha política que praticamente tem dominado grande parte dos jornais. Muitos jornalistas começaram ali naquele órgão de comunicação social, pensam que o jornalismo é só aquilo, o mundo deles é aquele, não têm outro horizonte, e mesmo sem o quererem estão a ser alienados.
Estou muito desgostoso com a classe jornalística. Enquanto a nível nacional é difícil, basta vermos os blocos noticiosos que passam nas televisões e percebe-se logo nas entrelinhas que existe ali uma tendência na informação passada. Na imprensa regional isso é mais descarado. Dá a sensação que nós somos anormais, os outsiders da informação regional.
Por isso julgo que o futuro da imprensa regional vá ser a concentração de meios, jornais, rádios e as prováveis televisões regionais, em grupos totalmente controlados pelos poderes políticos locais, e onde a classe jornalística estará literalmente subjugada pelas benesses sociais recebidas, o que, estou convencido, para muitos não será nenhum sacrifício.

Acha que há lugar para mais jornais no concelho?
Penso que não. Até penso que não há lugar para três jornais no concelho. No máximo penso que dois jornais seria o ideal.
Um, de corrente radical, subordinado ao poder estabelecido e servindo os seus interesses, onde o clima oficial tenda para a censura, e onde a propriedade dos meios se torne mais concentrada. Como inevitável, financiado pelo poder político que estiver no poder, que obrigatoriamente terá os melhores meios, técnicos e humanos, ao seu dispor e que, digamos, fornecerá a informação oficial, vulgo “Boletim Municipal”, que seja transmissor de ignorâncias e motor de inércia, onde se pratique a reciprocidade com o poder, e onde se diga bem sem esquecer ninguém, especialmente se forem de pessoas da área do poder instituído.

Um outro, de corrente liberal, independente e autónomo da estrutura do poder da sociedade, que inclua a massa crítica do concelho, que dê voz às pessoas e reproduza as ideias colectivas da sociedade, que interprete a compreenda os contextos económicos, sociais e culturais da comunidade, e que reforce o conhecimento do mundo tal e qual como ele é. É que ser crítico ao poder não quer dizer que seja contra o poder, o bota abaixo. O ser crítico é uma coisa e o bota abaixo é outra distinta. Mas temos que ser sempre críticos ao poder que esteja instituído e essa é a minha perspectiva de jornalismo da imprensa regional.

Alenquer, Outubro de 2004

Nuno_C_Matos

in Jornal D’Alenquer (online), 30 de Outubro de 2004
©Nuno Castilho de Matos (2004)





– Entrevista concedida a Nuno Castilho de Matos para servir de apoio à sua tese de fim de curso, subordinada “A Imprensa Regional no Concelho de Alenquer”.



Imprensa Regional, que futuro?
(trabalho feito na mesma linha de apoio)

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