Entrevista a… Mena Franco, Artista com talento e uma maneira diferente de ver a vida

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“O meu irmão é o meu Deus ao cimo da terra. Neste momento tenho muitos anjinhos, mas o meu irmão é o meu Deus na terra”.

Mena

Era uma vez uma menina chamada Filomena Esteves Franco, “Mena” para a família e amigos, oriunda de uma família de Cabanas de Torres. Os pais, muito novos, foram viver para Lisboa, na altura com os dois filhos mais velhos, um casal; só depois nasceram a Mena e a irmã gémea, a Fátima.

O pai, reformado da TAP, primeiro trabalhou na Carris e, por fim, como “operador de rampa” no Aeroporto de Lisboa. Sempre dissera que quando se reformasse viria para a sua terra; e assim aconteceu. Está reformado há dez anos, e vive com a esposa e a filha, Mena, em Cabanas de Torres.

A Mena não gosta que lhe chamem Filomena Maria. A propósito, lembrou-nos uma passagem da sua meninice quando, na escola primária, não respondeu à professora por esta lhe ter chamado Filomena. Ao ser questionava porque o fazia, respondeu que ela, professora, não a tinha chamado pelo seu nome. “Então como é que tu te chamas?” “Mena”, retorquiu-lhe a traquinas. “Não, tu chamas-te Filomena”, respondeu-lhe a Mestra”. A partir daí comecei a detestar a professora”, confessou-nos.

Ainda, a tentar consolá-la, dissemos-lhe que Filomena Maria até era um bonito nome, ao que nos respondeu, não muito convencida, que “realmente há nomes mais feios como, por exemplo, Augusta”.

Mena viveu a sua juventude em Santo António dos Cavaleiros. Nos seus 18 anos sorria e cantava, saltava e vivia a vida como qualquer jovem da sua idade. Como gostava de poder ter o seu próprio dinheiro, para não sobrecarregar os pais saiu da escola e foi trabalhar.

 

O Acidente
Já trabalhava há seis meses numa área comercial quando surgiu aquele dia fatídico. Por insistência nossa lá nos contou o que realmente se passara. “Estava a carregar um monta-cargas. Estava a empurrar umas torres de vasilhame, e como não dava para as empurrar para a frente porque assim elas tombavam, era a recuar, em direcção ao monta-cargas, que se conseguia fazer o trabalho. Ainda cheguei a colocar a primeira carga e estava confiante que aquela estrutura ainda lá se encontrava, pois a porta estava aberta, e assim o monta-cargas não deveria de responder a nenhuma chamada. Mas não; quando dei por mim já tinha caído, de costas, duma altura de oito ou nove metros”.

Ocorreu um breve silêncio, quebrado pela Mena ao acrescentar: “sinceramente não gosto muito de falar nisto, pois foi uma coisa que me tirou as pernas, e eu tinha 18 anos apenas”. De facto, com esta queda ficou de imediato paraplégica; não chegando, ainda foi despedida: “tinha caído porque era distraída”, foi a justificação patronal. “Ninguém quis assumir a responsabilidade pois tanto a entidade patronal, como a seguradora foi um fugir até mais não, e só ao fim de dez anos de luta se conseguiu, no «Supremo», uma pequena pensão vitalícia, no entanto sem direito a qualquer indemnização”.

 

A Luta

A partir daquele dia foi uma luta épica, pois a seguir a um mês no Hospital de São José, foram mais quatro meses em Alcoitão. “Para mim, Alcoitão foi uma surpresa pois nunca tinha ouvido falar em semelhante nome; preferiria ter ido para o Curry Cabral, que ficava perto de casa”, disse-nos.

Perguntámos-lhe se ia com frequência a casa ao que nos respondeu que o irmão e o pai nunca a deixaram ficar um fim-de-semana em Alcoitão. “O meu irmão assinava um termo de responsabilidade e ia buscar-me à sexta-feira e ia lá levar-me ao domingo à noite. Fui sempre a casa nos fins-de-semana”. “Alcoitão foi muito complicado. Tenho uma amiga, chamada Paula Reis, que foi minha colega de quarto, que me deu muita força, na altura. É que ficar paraplégica, aos 18 anos, é muito complicado”.

“Aquilo era um mundo de cadeiras. Para mim foi uma surpresa chegar ao refeitório e só ver mesas e nenhuma cadeira. Perguntei onde é que as pessoas se sentavam, visto não haver cadeiras. A enfermeira respondeu-me com uma pergunta: «onde é que tu estás sentada?» Olhei e respondi que estava numa cadeira de rodas. Ela disse, então, que ali as pessoas não saíam da “cadeira” para nada”.

Perante o nosso silêncio, Mena continuou a contar-nos a sua odisseia em Alcoitão. “Como me disseram que eu ia para um Centro de Recuperação e que ia recuperar, que ia refazer a minha vida, eu pensei sempre que fosse recuperar a minha anterior situação e não que fosse para aprender a viver uma nova realidade; é que a nível médico nunca me disseram que eu ia ficar paraplégica”. “Todos me esconderam isso. A minha família e toda a gente, embora eu notasse no rosto da minha irmã gémea que havia alguma coisa de estranho. E eu revoltei-me contra ela e contra a restante família, que entendia que eu deveria ter forças, mas às vezes eu ia-me abaixo, pois eu achava que me escondiam algo de grave que não me queriam dizer”.

 

A Descoberta
Fui eu própria a descobrir a minha situação. Eu via as pessoas a terem alta e a saírem de cadeira de rodas; como eram pessoas idosas sempre pensei que não teria grande importância, mas depois vi uma moça muito nova ter alta e também ir para casa de cadeira de rodas, e achei estranho”. “Perguntei à minha colega de quarto: «a gente sai daqui de cadeira de rodas?» (E isto três ou quatro meses depois de eu lá ter chegado). Ela respondeu-me: «tu sairás daqui exactamente como eu e como toda a gente que aqui está; de cadeira de rodas. Tu nunca mais vais voltar a andar na tua vida»”.

“Foi um choque. A partir dali, quando chegava alguma pessoa nova e começava a dizer que «estou a sentir a perna» eu respondia-lhe «cala-te que tu não vais sair daqui a andar». Fiquei tão revoltada que magoava os outros. Hoje sei ver que os magoava, e estou arrependida. Na altura a revolta era tanta…”.

Então, a sua família nunca lhe disse qual era a sua situação? Respondeu-nos que foi o irmão quem lhe fez sentir a verdade, quando, numa das vezes que ele a foi buscar, no carro lhe perguntou se iria voltar a andar. “O meu irmão fez uma travagem daquelas que até o carro salta, e perguntou-me «como é que tu sabes?». “Não sou estúpida nenhuma, disse-lhe; e contei-lhe a história”. “Ele, então, disse-me que «só te peço um favor, que nunca te entregues à cadeira de rodas; luta sempre pela vida. Se nunca mais voltares a andar, e nunca é uma palavra que não se deve dizer, se isso acontecer, luta pela vida; não desistas de viver». Quando ele me falou assim percebi que era verdade, e valeu mais ser o meu irmão a dizer-me o que se passava do que propriamente o médico, ou mesmo o psicólogo. E foi esta conversa que me deu força e vontade de continuar a viver”.

“O meu irmão é o meu Deus ao cimo da terra. Neste momento tenho muitos anjinhos, mas o meu irmão é o meu Deus na terra”, concluiu, comprovando a admiração que tem pelo irmão, situação que já era do nosso conhecimento, pois tínhamos sido alertados para esta sua predilecção.

 

O Primeiro Emprego
Nunca se lamentou da sua condição, porque passou por Alcoitão e viu as situações mais desesperantes que se possam imaginar. “Ao olhar para trás, vi situações muito piores que a minha, e que essas pessoas são muito mais infelizes do que eu. Eu não sou uma Super-Mulher; e até ao Super-Homem aconteceu o que aconteceu…”, finaliza.

A seguir a Alcoitão seguiram-se dias complicados, pois para além de estar fechada num quarto, longe da rua (vivia num 4º. andar), não tinha amigos nem trabalho. Depois, a família veio para a casa de Cabanas de Torres, que teve que ser adaptada, tudo às custas dos pais, visto a seguradora, como entendeu que construir rampas ou alargar portas “era um luxo”, não comparticipou com nada.

Havia que procurar uma ocupação; então inscreveu-se no Centro de Emprego. “Abriram-se algumas janelas, mas fechavam-se de repente ao verem-me na cadeira de rodas”, lamentou-se. Como diz C.C: Colton “a adversidade é um trampolim para a maturidade”. Mena soube conquistar a maturidade à custa da adversidade e hoje não procura culpados ou explicações mas sim conforma-se e adapta-se à sua nova situação, sabendo como as portas se fecham quando se tem um problema desta dimensão.

Entretanto surgiu a oportunidade para ir para recepcionista da Clínica de Fisioterapia, em Alenquer, que para si é como se fosse o seu primeiro emprego. “Tenho aprendido muito aqui. Ainda bem que eu vim para Alenquer; foi a melhor coisa que me aconteceu. Eu não conhecia os donos e vim para um sítio que adoro; os patrões são excelentes, são umas pessoas muito “humanas”, exclamou entusiasmada.

Perguntámos-lhe pelos estudos que estão parados. “Espero brevemente continuar. Gostaria de estudar mas a Escola Secundária de Alenquer não tem condições, para o meu caso, e agora ir todos os dias para Vila Franca ou Lisboa é muito complicado, pois isso impediria de poder dar o meu melhor aqui no emprego”, disse-nos.

 

A Natação
Os seus tempos livres são preenchidos com a natação e a pintura. Por conselho médico foi para a natação, numa altura que nem sabia nadar. “Tudo o que eu quero aprender acho que consigo”, exclamou inflamada. A pouco e pouco lá conseguiu nadar, e os seus professores, Godinho e Hélder, logo lhe meteram o bichinho da competição.

Já foi a várias provas e agora vai aos Nacionais, que poderão servir de trampolim para as Paraolimpíadas de 2008. “Espero ir, agora em Junho, aos Nacionais e as perspectivas de fazer uma boa prova que me seleccione são razoáveis”, exclamou confiante. A sua especialidade são as diversas categorias de costas. “Para mim, nadar significa liberdade; na água, sem a ajuda da cadeira, sinto-me igual aos outros; não sou diferente de ninguém”, confessou-nos arrebatada.

 

A Pintura
Agora vamos falar sobre pintura, propus-lhe. “Eu pinto para transmitir cá para fora aquilo que sinto. O acto de pintar transmite-me muita paz, muita tranquilidade; e eu adoro. Não tenho mais nenhum vício”, disse-nos orgulhosa.

“Em Alcoitão já tinha feito alguns quadros, em trabalhos oficinais, ocupação que funcionava como terapia, e cheguei a participar em exposições colectivas para paraplégicos, na EXPO. “Mais tarde, ouvi que ia haver um curso de Artes Decorativas, em Cabanas de Torres, e inscrevi-me. Depois perguntaram-me se eu queria ir frequentar um curso do Mestre João Mário, a quem não conhecia; e inscreveram-me”.

“Quando o vi pela primeira vez foi algo de fascinante. Para mim é como se fosse um segundo pai, e tudo graças a eu ter vindo para Alenquer. Já fiz mais amigos aqui do que em toda a minha vida em Santo António dos Cavaleiros”, exclamou enleada. Eu entrei, o Mestre João Mário veio logo para perto de mim; tratou-me com um carinho muito especial. Eu sinceramente não percebo nada de pintura. Nada mesmo nada. Tenho aprendido muito com o João Mário, com a Rute (a sua melhor amiga) e com todos”.

No seu local de trabalho existem pendurados vários quadros “abstractos”, hoje este estilo de pintura já lhe diz alguma coisa. “Todos eles têm um significado, e quando estou mais triste olho sempre para aquele (e apontou na direcção de um). Já aqui estou há um ano e todos os dias olho para aqueles quadros e todos os dias encontro uma coisa diferente. É conforme o nosso espírito está”, explicou-nos.

Prefere paisagens como o Mestre, mas logo volta a advertir de que pintura não sabe nada. “Nem sabia que uma espátula servia para pintar, e quando vi Mestre João Mário fazê-lo, fiquei hipnotizada”. “A pintura de Mestre João Mário fascina-me e nunca na vida serei capaz de fazer um quadro como os dele. Mas, como diz o meu irmão, que nunca é uma palavra que não pode existir, aqui substitua-a por jamais”.

 

A Exposição “Preço da Solidariedade” (44 obras avaliadas em 15.800 euros)
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Quanto à exposição, afinal o motivo deste trabalho, teve origem em Alcoitão, quando foi apresentada uma cadeira especial em que o utilizador podia pôr-se em pé. O seu custo é uma ofensa e um oportunismo tremendo: 1.222 contos. E o Estado que nisto de impostos é cego não perdoa, portanto, mais o IVA.

João Mário sensibilizado para esta questão empenhou-se em arranjar os meios suficientes para a aquisição de tal cadeira para a Mena. Propôs a realização de uma exposição e convidou alguns pintores, seus amigos, para oferecerem alguns quadros, com a condição de eles serem vendidos por metade do seu valor real, isto é, por um “preço de solidariedade”. Esta exposição, “A Arte como Expressão Afectiva”, reuniu 39 artistas. Mestre João Mário deu o exemplo e ofereceu cinco obras no valor real de 15.800 euros.

Venderam-se 32 quadros dos 44 expostos, que renderam cerca de 15.000 euros, sendo 7.900 de obras do Mestre João Mário. O excedente do dinheiro será utilizado noutros “fogos” que entretanto estão para aí a lavrar. Os dois primeiros quadros a serem vendidos foram precisamente os mais valiosos: “Arco dos Pinéus” e “Rua de São Pedro”, do Mestre João Mário, que renderam 2.500 euros cada; viajaram para a casa do casal António Goucha e Manuela Nogueira.

Falta-nos concluir, lembrando como se iniciou esta faina. É que começar um trabalho jornalístico com “era uma vez…” não é vulgar e talvez até impróprio. Mas, ao ver aquela jovem ali a circular, sempre sorridente e alegre, lembrámo-nos que poderíamos estar na presença de uma qualquer heroína celta de um qualquer conto de fadas, ou de uma qualquer heroína moirama de um outro qualquer conto maravilhoso; não à conquista de bens e de poder material, ou à busca de uma metamorfose ou de um encantamento mas, tanto num caso como noutro, uma heroína que venceu obstáculos e que alcançou o seu equilíbrio emocional. “O verdadeiro heroísmo consiste em persistir, por mais um momento, quando tudo parece perdido” (autor desconhecido).

“Um sorriso não deixa mais pobre quem o dá nem enriquece quem o recebe; poderá durar um segundo apenas mas a sua recordação será perene, por isso um sorriso tem um significado elevado”. Não nos recordamos de quem é este pensamento nem asseguramos que estas sejam textualmente as palavras que o descreve, mas aqui o constatado é o quanto importante foi para os muitos amigos presentes o seu sorriso.

Aquelas largas dezenas de pessoas que acorreram à exposição, também era vê-las felizes e sorridentes; comungavam, obviamente, do pensamento voltairiano que “o maior prazer que alguém pode sentir é o de causar prazer aos seus amigos”. Conversámos com alguns dos presentes, e uma visitante, há muito nossa conhecida, acerca da circunstância de toda a gente estar com um sorriso de costa-a-costa, lembrou-nos Alejandro Casona, um dramaturgo espanhol, quando disse que “não existe nenhuma coisa séria que não possa ser dita com um sorriso”.

A nossa conversa ficou por ali. Na redacção, ao montarmos este trabalho, constatamos que realmente não falámos sobre qual seria a tal “coisa séria” nem por quem foi ela dita. Podemos dizer que a Filosofia existe desde sempre e que a vida constantemente correu a seu lado. Neste trabalho que não é crónica nem reportagem e que começa por “Era uma vez…”, como nos contos de fadas, decidimos introduzir um pequeno sentido filosófico para lhe dar mais colorido. Obviamente que o nosso conceito de Filosofia não é o mesmo dos pensadores da Antiguidade, mas que esta às vezes dá um certo jeito, isso não há dúvida.

Seguindo este raciocínio julgamos ter identificado a tal “coisa séria”. O que a Mena e os amigos presentes quiseram dizer foi o mesmo que Publius Vergilius Maro, o autor de Eneida, deixou, em pensamento, para a posteridade: “Omnia vincit amor” (o amor vence tudo). Aproveitando a embalagem, gostaríamos de terminar com a adaptação de um pensamento de Oliver Goldsmith: “É muito estimulante ver uma pessoa esforçada lutar contra a adversidade; mas ainda é mais ver outra pessoa correr em sua ajuda”.

“Mena”, discípula de Mestre João Mário, o único quadro que expôs ali foi o seu rosto, tal “Monet”, que transmitia uma simpatia enorme e uma colossal vontade de viver; Aproveitando um pensamento de Oliveira Martins, “eu não conheço fisionomia mais difícil de desenhar, porque nunca vi natureza mais completamente bem dotada”. Este quadro não pôde ser avaliado nem vendido.


Hernâni de Lemos Figueiredo

in Jornal D’Alenquer, 1 de Junho de 2005, p. 22 e 27.
©Hernâni de Lemos Figueiredo (2005)
director do Jornal D’Alenquer

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