Um novo contrato social (no Trabalho e no Consumo)

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No Trabalho e no Consumo

Um novo contrato social

O mais recente livro de Robert Reich (antigo Ministro do Trabalho de Bill Clinton) editado entre nós é, seguramente, um documento fundamental para entender as inovações e tendências para onde caminha o mercado do trabalho e do consumo (“O Futuro do Sucesso, viver e trabalhar na nova economia”, Robert Reich, Terramar Editores, 2004). Não obstante tratar-se de um olhar norte-americano e dessa realidade partir, o consagrado autor de “O Trabalho das Nações” faculta-nos uma visão do cidadão-consumidor moderno, extremamente actual, no contexto precário e turbulento em que vivemos.

Investir e trabalhar na globalização
O que é o novo trabalho? Assalariados e executivos trabalham cada vez mais, ávidos de negócios e rendimentos fabulosos. Na sociedade industrial do passado, vivíamos pautados pela uniformidade, pela organização da mão-de-obra, pela persuasão das massas e um certo controlo dos preços e dos modelos. Agora, podemos comunicar num computador as nossas medidas e recebermos em casa um fato ou uma camisa. Vivemos num bazar global onde a informação está cada vez mais disponível, e onde, através da Internet, os compradores podem obter dados rigorosos sobre os preços e a qualidade, um pouco por toda a parte.

Mas a opção instantânea do consumidor aumentou a insegurança dos vendedores. Na sociedade industrial, sobretudo na sociedade de consumo, havia um equilíbrio nas condições de vida dos empregados e dos fornecedores. Actualmente, esse equilíbrio perdeu-se: quanto mais fácil é para os compradores mudar para outro negócio, mais difícil é para os vendedores atrair e conservar os clientes. O consumidor quer mais inovação (na cosmética, no automóvel, no pacote de férias…), redução de custos e o maior número possível de opções. As empresas têm que inspirar confiança aos compradores, o que não é fácil, dado estar-se a passar de um sistema de produção estável para outro de inovação rápida e constante.

Até recentemente, todos os profissionais que negociavam em informação (quer fossem agentes imobiliários, de viagens ou corretores de seguros) tinham diagnósticos de rotina e soluções padronizadas a oferecer. A vida estava-lhes facilitada pelos computadores. Hoje, os seus clientes têm acesso à mesma informação, graças ao “online”. Por conseguinte, resta a estes profissionais tornarem-se especialistas em respostas personalizadas, abrindo novas vias ao conhecimento.

A ferocidade do mercado é ditada pelo caprichoso (e manipulado) desejo do consumidor que pode mudar facilmente para o que mais o satisfaz. A inovação é a única resposta possível para o mercado do trabalho, criando rapidamente produtos que sejam melhores ou mais baratos do que os outros. Para isso, as empresas são infiéis consigo próprias: reduzem o número de colaboradores, a dimensão das sedes, espalham fábricas e laboratórios em qualquer ponto do mundo. É esta visão paradoxal do duplo estatuto do cidadão repartido entre consumidor exigente e investidor ou empresário submetido a uma nova lógica da deslealdade que torna o livro de Robert Reich numa leitura tão estimulante.

O dia-a-dia do trabalhador-consumidor de hoje
Toda esta aceleração permanente tem e vai ter um preço no sistema social: as organizações piramidais vão desaparecer; a empresa de amanhã será pouco mais que uma cadeia de contratos; as deslocalizações vão crescer e os sectores não sindicalizados da economia aumentarão de importância; os pensionistas e reformados terão as suas poupanças num gigantesco fundo de pensões que destrói os vínculos entre as empresas, os empregados e as comunidades de todo o mundo. O emprego, tal como o conhecemos, desapareceu. A sociedade de consumo e a industrialização pareciam assegurar a continuidade do trabalho estável baseado na repartição das tarefas e no horário do relógio. No pós-emprego, não há emprego certo, o valor do empregado é definido pelos clientes, e mesmo em casa o trabalhador está permanentemente pronto a atender os clientes. Assistimos ao agravamento das assimetrias dos rendimentos e ao desmoronamento da relação empregador-empregado.
O estatuto do consumidor actual reflecte as dimensões da nova economia: há menos tempo para tudo, e ninguém sabe ao certo o que é o tempo livre. A partir do momento em que a quantidade de trabalho aumentou drasticamente, a organização do tempo mudou e a sua qualidade é duvidosa. Faz-se mais dinheiro para comprar mais serviços, somos forçados a vender a nossa imagem pessoal em todos os mercados, negociamos conhecimentos, influências. Robert Reich escreve: “Antigamente, o pior que podia dizer-se de uma pessoa era que ela se tinha vendido. Actualmente, o pior que se pode dizer de uma pessoa é que ela não está a vender-se”.

A estrutura familiar transformou-se, há cada vez mais mulheres no mercado de trabalho e o preço da mão-de-obra masculina baixou. Homens e mulheres estão confrontados com uma nova norma económica: quem quer mais dinheiro tem que oferecer dedicação total e quase esquecer a família. As famílias mais abastadas já não compram tempo de lazer, compram mais tempo para dedicar ao trabalho remunerado.
Este ensaio de Robert Reich encerra com um conjunto de propostas para um novo equilíbrio social visando proteger as pessoas dos choques económicos súbitos, dar-lhes mais educação, cuidar dos mais necessitados e fazer inversão de um sem-número de mecanismos discriminatórios que estão presentemente a corroer as comunidades e a romper dentro das pessoas com o que têm de produtores e de consumidores.

Leitura imperdível para todos aqueles que querem conhecer mais o funcionamento do mercado da produção e consumo da globalização, que não estão contentes com o actual estado de coisas e querem mais vínculos sociais e dignidade para a pessoa humana.

Beja-Santos_100

©Beja Santos (2005)
Professor Universitário
in Jornal D’Alenquer, 1 de Julho de 2005, p. 32
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