Hoje há eleições, de novo

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Eleições Presidenciais 2006

Hoje há eleições, de novo

Um dos maiores erros cometidos, pelas candidaturas de esquerda, foi o de acusarem Cavaco Silva de criar expectativas em excesso aos cidadãos, mas neste momento a maioria dos portugueses aspira às expectativas a que julga ter direito, e deseja uma rota que dê algum sentido à sua existência pessoal e colectiva, isto é, quer um projecto de vida que proporcione um melhor futuro.

Hoje é dia de eleições presidenciais. Ao contrário das últimas eleições, autárquicas, em que os resultados poderiam ser de várias tonalidades, o resultado do escrutínio de hoje parece não apresentar dúvidas quanto ao seu vencedor, pois Aníbal Cavaco Silva parece ter conseguido reunir o número suficiente de pessoas que irão votar em si, para não ser necessária uma segunda volta. E, a acreditar nas sondagens, o adversário mais próximo não será Mário Soares mas sim Manuel Alegre.

Foi uma campanha eleitoral onde a bipolarização existiu. Não a daquela dicotomia direita-esquerda, já balofa e que cada vez mais as pessoas deixam de dar atenção, mas sim a da dicotomia futuro-passado, onde uma candidatura, a de Aníbal Cavaco Silva, apresentou propostas de soluções para o futuro, e as restantes candidaturas se limitaram a reviver os seus passados revolucionários.

Também a da dicotomia bem-mal, onde uma candidatura, a de Aníbal Cavaco Silva, se caracterizou por uma conduta de ética, e as outras candidaturas tiveram uma postura de ofensa pessoal e de mal-dizer.

Finalmente a da dicotomia verdade-mentira, onde uma candidatura, a de Aníbal Cavaco Silva, se notabilizou por transmitir confiança e credibilidade, e as outras candidaturas que usaram e abusaram da calúnia e da mentira, fazendo disso a bandeira das suas mensagens.

“Nunca, em anos recentes, a escolha foi tão clara; nunca, em anos recentes, será essa escolha tão decisiva. Ela é, naturalmente, a escolha de um homem, a escolha de Cavaco Silva”, referiu o Mandatário Nacional de Aníbal Cavaco Silva.

«Tomei a decisão pensando no futuro, no vosso futuro. Para que não recebessem uma herança demasiado pesada, mas uma janela de oportunidades», afirmou o candidato Cavaco Silva, dirigindo-se aos jovens.

“Não deixem os outros escolher por vós”, foi uma frase repetida vezes sem conta por Cavaco Silva. “Estou muito tranquilo. Fiz o que devia fazer, falar aos portugueses sobre os problemas de Portugal, afirmar um conjunto de ideias em que acredito e deixar uma mensagem de esperança”.

E os outros candidatos? Estes pertencem a um socialismo caduco e desacreditado, que vivem só de recordações, e que não têm pudor em deturpar a verdade, pensando que com isso tiram algum proveito, mas o povo já farto das heresias proferidas por esses políticos vai dar-lhes a resposta adequada.

Mário Soares, que considero o grande perdedor deste acto eleitoral, dificilmente o consegui ver como o candidato do Partido Socialista, o partido do Governo; foi mais fácil observá-lo como um velho já falho das suas capacidades intelectuais, a “cheirar” a Parkinson e a Alzheimer, e que nestes últimos dias se tornou na chacota nacional. Mentiu com uma desfaçatez enervante o que tornou pouco credível a restante mensagem que tinha. E se tinha alguma, nunca o conseguimos saber.

Como não tinha um programa de ideias fez uma campanha do bota-abaixo e só a lembrar o passado; quanto ao futuro, nada. “eu fiz, eu bati-me, eu bati-me”, repetiu-se fastidiosamente. Agitou fantasmas para tentar intimidar os portugueses. Fez um tipo de campanha que outrora lhe rentabilizou votos, mas hoje as pessoas já não são as mesmas, já estão mais bem informadas e já vão perdendo o medo à “numenklatura partidária socialista”. Apesar disso Mário Soares persistiu em passar-lhes um atestado de menoridade, o que só se compreende devido ao seu estado de naufrágio evidente.

Esse estado de espírito ficou bem patente quando insinuou que há banqueiros bons, os poucos que estão com ele, e banqueiros” maus, os muitos que estão na candidatura de Cavaco Silva. “Quando eu ganhar as eleições eles virão ter comigo outra vez; eu conheço-os”.

No seguimento da linha de que é mestre e que fez escola nos círculos socialistas, a vitimação, queixou-se da imprensa: «Portugal inteiro sabe que a comunicação social não tem sido imparcial». «Passei de pai da Pátria a grande perturbador nacional», afirmou em Setúbal, garantindo que a comunicação social «já não pode fazer mais mal do que já fez».

Mas a verdade é bem diferente, pois a comunicação social, no seguimento do que é habitual, pressurosa acorreu à chamada de Mário Soares e fez um alarido despropositado de banais comentários como se de ideias profundas se tratassem.

Mesmo o seu lamento que os outros candidatos tinham mais tempo de antena, os números não enganam, tanto no número de notícias como na totalidade do tempo de reportagem, isto nos canais de televisão, pois Soares foi o mais privilegiado com 598 notícias e 26 horas 10 minutos e 16 segundos, quando Cavaco Silva aparece em quarto lugar nas preferências dos departamentos de informação das televisões. E a diferença entre Soares e Cavaco é de 178 notícias e de 6h32m57s. Por esta leitura vê-se perfeitamente de que lado esteve a comunicação social.

    NÚMERO DE NOTICIAS:
    Soares – 598 – 26:10:16
    Jerónimo – 583 – 21:34:10
    Louça – 541 – 20:10:13
    Cavaco – 420 – 19:37:19
    Alegre – 418 – 17:27:46

Mário Soares fez vários apelos para que os outros candidatos, ditos de esquerda, abdicassem em seu proveito, principalmente Manuel Alegre. Mas, fazendo fé nas sondagens, o mais normal seria ele, Mário Soares, desistir em favor de Manuel Alegre.

Mas Soares é conhecido por não dar a mão a ninguém; de querer subir, subir, à custa dos amigos e quando estes precisam de si, tudo faz para quem o ajudou não subir também.

Senão vejamos: depois de saber que Manuel Alegre se preparava para apresentar a sua candidatura às presidenciais, e contra todas as previsões, fez o oposto daquilo que repetidamente tinha afirmado, isto é, decidiu atabalhoadamente entrar na corrida presidencial, atropelando o seu camarada, de quem se diz amigo.

Alguns dos seus camaradas de partido afirmam que ele subiu às custas de Rui Mateus, Salgado Zenha, Tito de Morais entre outros e depois de ter subido não achou nenhum dos que o ajudou à altura de ocupar cargos importantes no país. Salgado Zenha, não tinha perfil (dizia ele). Rui Mateus preparou uma reunião da Internacional Socialista e quando foi para entrar na dita reunião o segurança tinha recebido ordem para não o deixar entrar, e só entrou porque “berrou” à porta até que Tito de Morais o foi buscar.

“Mário Soares tem sido um falhado, e se não fossem os outros nunca teria sido ninguém na vida”, afirmam alguns dos seus “amigos” que aconselham para se ler o livro “Memórias de um PS desconhecido”, de Rui Mateus, onde se vê “até que ponto o candidato à Presidência da República é capaz de chegar. As suas artimanhas não têm limite”. “Sempre odiou Guterres, impediu Jaime Gama e Almeida Santos de ocuparem cargos importantes em dada altura, quis tirar poderes ao Presidente da República quando era primeiro-ministro e o Presidente era Ramalho Eanes.

“Todas as reuniões e passeios que deu foram marcados e combinados por Rui Mateus. Salgado Zenha estava melhor conceituado que Mário Soares no exterior; Mário Soares não era apreciado por ninguém. Essa história de ele dizer que liga para este e para aquele e marca reuniões quando quer é a mais pura mentira. Só vai porque é por intermédio de outros, simples desconhecidos porque ele não os deixou singrar na política, mas que estão bem conceituados no exterior e são eles que lhe marcam essas reuniões.

“Em 1976 os cofres do Estado estavam cheios de ouro, pouco depois estava ele a negociar empréstimos com o FMI; para onde foi tanto ouro?” Estas são algumas situações descritas no livro “Memórias de um PS desconhecido”.

E é este homem, que certa vez renegou expressamente o socialismo e o fechou numa gaveta, até hoje, que conspirou com Frank Carlucci, homem da CIA, então embaixador dos EUA em Portugal, tendo a audácia de o condecorar por serviços prestados à “liberdade dos portugueses”, que o PS, e a comunicação social fiel, apresentaram como o candidato da esquerda. Foi uma mistificação cómica, e simultaneamente desprestigiante, perante o povo português, para uma esquerda que se intitula dona de generosos ideais.

Francisco Louçã, sempre o vi como apoiante estratégico de Mário Soares, e só não desistiu em seu favor porque as sondagens indicaram que era um esforço inglório; no entanto, o seu número dois, Fernando Rosas, foi apoiar Mário Soares na sessão de apresentação da sua candidatura. Estou convicto que Louçã, mais ano menos ano, aterra na bancada socialista, no Parlamento.

Jerónimo de Sousa, teve uma participação esperada, com uma dialéctica que desta vez prejudicou um pouco a sua imagem de homem “simpático”; foi um discurso para segurar a “sua gente”.

Manuel Alegre teve uma campanha que superou todas as expectativas e se não fosse o seu discurso por vezes tão negativista, e também chamar o passado romântico do exílio, o resultado nas urnas poderia ser melhor. Ao fim e ao cabo José Sócrates suspirará de alívio se a questão presidencial ficar hoje resolvida.

Foi uma campanha suja e sem nexo: o tempo dos candidatos, ditos de esquerda, foi ocupado maioritariamente a denegrir a imagem do candidato dito de direita; e tudo isso irá reverter, hoje, em favor de Aníbal Cavaco Silva.

Por isto mesmo, um dos maiores erros cometidos por essas candidaturas foi o de acusarem Cavaco Silva de criar expectativas em excesso aos cidadãos, mas neste momento a maioria dos portugueses aspira às expectativas a que julga ter direito, e deseja uma rota que dê algum sentido à sua existência pessoal e colectiva, isto é, quer um projecto de vida que proporcione um melhor futuro.



Hernâni de Lemos Figueiredo


in Jornal D’Alenquer, 22 de Janeiro de 2006, on line (EDITORIAL)
©Hernâni de Lemos Figueiredo (2006)
director do Jornal D’Alenquer

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