Teatro na URDA: “8 Mulheres”

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Teatro na URDA

“8 Mulheres”

A mulher, a cunhada, a sogra, a filha, a enteada, a criada, a governante ou a irmã, afinal quem matou Marcelo? São tantos os tramas e tantas as voltas que a história dá que já não damos conta que quase não interessa saber quem matou mas sim quem fez o quê.

Teatro na URDA - 8 Mulheres. ROMY, a perigosa irmã de Marcelo.

Teatro na URDA – 8 Mulheres. – ROMY, a perigosa irmã de Marcelo.

François Ozon é considerado um dos mais importantes jovens realizadores do cinema francês, na categoria “New Wave”. Nasceu em Paris a 15 de Novembro de 1967. Realizou diversas curtas metragens, como “UNE ROBE D’ÉTÉ” e “SCÈNES DE LIT” que reflectiam já o seu estilo particular. Após a adaptação da obra de Fassbinder com “GOTAS DE ÁGUA EM PEDRAS ESCALDANTES”, em 2002 veio o filme que o tornou conhecido internacionalmente, “8 MULHERES”, uma adaptação, conjunta com Marina de Van, da peça de boulevard de Robert Thomas e que contou com um notável elenco de ícones do cinema francês, como Catherine Deneuve, Fanny Ardant, Isabelle Huppert, Emmanuelle Béart,.Firmine Richard, Virginie Ledoyen, Danielle Darrieux e Ludivine Sagnier.

Nesta película, Ozon é corrosivo com estas mulheres e mostra-as como seres cómicos, mas também insuportáveis. O filme narra a história com uma sucessão de números musicais, uma produção a fazer lembrar os melodramas dos anos 50 de Hollywood, e coloca estas estrelas em situações ridículas, cómicas e inesperadas, quebrando assim o mito que as envolviam.

Manuel Vidicas Santa Rita e João Manuel Lino adaptaram este texto para o teatro amador e o “Grupo de Teatro Ildefonso Valério da URDA”, apresentou-o ao público ontem, dia 18 de Novembro de 2006. Apesar de ser uma noite futebolística na televisão, a sala apresentou-se com “lotação esgotada” e o público presente aplaudiu de pé os intervenientes da noite.

O enredo passa-se nos anos 50, década que inspirou o figurino, a cenografia e as cores. Estamos na época de Natal, e “8 MULHERES” conta a história de oito mulheres isoladas pela neve numa casa, no sul de França. O assassinato do anfitrião é o ponto de partida para a revelação de uma série de conflitos de uma família menos estruturada do que aparenta, e onde cada uma das mulheres revela os seus segredos mais escondidos. Toda a cena se desenrola numa única sala, onde os intervenientes proporcionam um emocionante jogo de descobrir o assassino, a arma do crime e o local do infeliz desenlace.

O desenrolar do trama insere-se num jogo de emoções, de falsas cumplicidades e de pequenas argúcias argumentativas, onde cada intérprete representa uma personagem com telhados de vidro excessivamente visíveis. Não existe ali uma gota de honestidade, mas sim um bordel de mentiras e conspirações, e de facto, o que se vê é uma celebração do cosmos da mulher, evidenciando temas como traição, prostituição, adultério, incesto e lesbianismo.

Teatro na URDA. Catarina, Luisa e Susana, cada uma com o seu segredo.

Teatro na URDA – 8 Mulheres
Catarina, Luisa e Susana, cada uma com o seu segredo.

Nunca oito homens poderiam encarnar este enredo! É sobre as mulheres, a sua competição libertina, o abismo dos seus afectos com os homens… e umas com as outras. A mulher, a cunhada, a sogra, a filha, a enteada, a criada, a governante e a irmã. Elas mostram, cada uma com o seu modo próprio, uma maneira personalizada de manipular informações e de sugerir um clima de ambivalência moral.

Afinal quem matou Marcelo? São tantos os tramas e tantas as voltas que a história dá que já não damos conta que quase não interessa saber quem matou mas sim quem fez o quê e saber afinal quem são estas mulheres.

O desenlace é um tanto surpreendente e não deixa de ser originalmente divertido. Tudo resumido a um trama de Catarina, a filha mais nova de Marcelo, que engendrou esta história à Sherlock Holmes, e que simulou a morte do pai para conhecer os sentimentos dos restantes elementos da família.

Marcelo esteve sempre omnipresente apesar de só chegar à cena no último minuto da representação. Foi uma aparição relâmpago, pois mal chegou, pegou numa pistola e suicidou-se. Optou pelo mal menor, dizemos nós, pois não deveria ser nada fácil viver naquela casa onde as mulheres, apesar de sensíveis e atraentes, eram perversas no modo como se relacionam, obcecadas por dinheiro, oportunistas, prostitutas e lésbicas.

Se no filme a grande estrela é Isabelle Huppert, ao interpretar o papel de AGUSTINA, a tresloucada solteirona conservadora, ao mesmo tempo frígida e histérica, na representação de hoje gostámos francamente de todos os intérpretes; no entanto destacamos as posturas de Eunice Antunes, no papel ROMY, a sedutora irmã de Marcelo, sempre deliciosamente mal-intencionada, e de Liliana Santos, no papel de SUSANA, a menina “queque” afinal enteada e amante de Marcelo, com uma bela voz e que soube sempre ajustá-la ao instrumental, e num timbre agradável.

Madame Chanel confessa-se apaixonada pela perigosa e lasciva Romy, no entanto esta prefere seduzir Vera, sua cunhada. Uma cena não conseguida totalmente foi a que nos proporcionaram estas duas amantes; muito distante do que nos mostraram no filme Caterine Deneuve e Fany Ardant. No entanto entende-se perfeitamente estas limitações, pois estamos em presença de amadores e com os preconceitos inerentes à interioridade.

Outra nota menos positiva: julgamos que a introdução da parte musical quebrou o ritmo ao desenrolar de todo o enredo, e que, embora a cena se reportasse aos anos 50, nenhuma das canções era dessa época.

Temos alguma dificuldade em classificar este espectáculo, tantas são as influencias que parece ter, pois tanto nos pareceu uma farsa, como um vaudeville policial, como um melodrama salpicado por algumas canções, como um “suspense”, quase tipo Hitchcock , como um musical quase tipo Broadway, como um “kitsch” com as suas figuras distorcidas e exageradas, ou como um “boulevard”, como classifica Rousseau, “lugar de gente de baixa extracção”.

Com certeza não é uma Tragédia de Shakespeare ou uma Comédia de Molière, ou mesmo um Musical tipo CATS ou JESUS CRISTO SUPER STAR, mas é um espectáculo que combina intriga policial com musical, comédia com reflexão existencial, e é divertido, inteligente e provocador.

Merece ser visto por muitas pessoas.

FICHA TÉNICA:
Paula Oliveira – VERA (mulher de Marcelo e mãe de Susana e de Catarina);
Adelaide Plácido – MAMÃ (Sogra de Marcelo);
Eunice Antunes – ROMY (Irmã de Marcelo, deliciosamente mal intencionada);
Liliana Santos – SUSANA (Enteada de Marcelo e filha de Vera);
Verónica Ribeiro – Catarina (Filha de Marcelo e de Vera);
Inês Cipriano – LUISA (Criada);
Célia Antunes – MADAME CHANEL (Governante);
Sónia Fernandes – AGUSTINA (Irmã de Vera, uma solteirona neurótica e feia);
João Manuel Lino – MARCELO

Amadeu Peixoto (Sonoplastia e cenário);
Miguel Lino (Sonoplastia);
Ângela Morgado (Ponto);
Zita Falé (Cenário);

ENCENAÇÃO E DIRECÇÃO DE CENA:
Manuel Santa Rita;
João Manuel Lino.



Hernâni de Lemos Figueiredo

©Hernâni de Lemos Figueiredo (2006)
director do Jornal D’Alenquer
in Jornal D’Alenquer, 19 de Novembro de 2006 (on-line)

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