Entrevista a… Virgílio Castelo, actor versus escritor

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Virgílio Castelo, actor versus escritor

Tornar um Portugal que “está à deriva desde que morreu D. João II, em 1482”, num Portugal melhor, um pais que nos dê muito mais alegrias do que tristezas, onde não haja atrasos nas consultas médicas e onde a Justiça funcione. “Escritor, eu? Isto é como na Bíblia: muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos”.

Virgílio Castelo

Virgilio Castelo

VIRGÍLIO MANUEL DA COSTA CASTELO nasceu em Lisboa a 26 de Fevereiro de 1953, é actor, encenador, produtor, director, apresentador de televisão e escritor. Estudou representação na Escola de Artes da Universidade de Estrasburgo enquanto bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. É um dos fundadores do Grupo de Teatro Adoque, em Lisboa, onde se estreou como actor profissional, em 1974, na revista “Pides na grelha”; Agora estreou-se como escritor, com “O ÚLTIMO NAVEGADOR”, romance editado pela “A ESFERA DOS LIVROS”.

Há muito, ainda em jovem, com a idade de 17 ou 18 anos, Virgilio Castelo tinha vontade de escrever sobre Portugal mas não sabia como fazê-lo. Em 2000, quando estava em Goa, começou a idealizar a estrutura do romance. Só no ano passado a oportunidade surgiu com o convite da editora.

“O ÚLTIMO NAVEGADOR” é um romance futurista que situa Portugal em 2044, cuja capital, Lusitânia, está situada entre a Beira Baixa e o Ribatejo; isto tudo em plena monarquia constitucional. Benjamim, a personagem central deste romance, vive angustiado por ser acusado de um crime que não cometeu, assiste impotente ao suicídio do irmão e vive um amor, por Mariana, não correspondido; até que encontra Rosa.

Tanto Benjamim como Mariana ou Rosa, assim como as restantes personagens, são pura ficção, mas o nóvel escritor acredita que “estas personagens se cruzam connosco na rua”, e reconhece que o romance traduz o seu pensamento político. Mais; tem a convicção de que Portugal está à deriva desde que morreu D. João II, em 1482. “D. Manuel I foi um grande rei mas aproveitou aquilo que foi plantado por D. João II e desde essa altura que não temos um desígnio nacional; temos andado a perder a identidade”.

Para Virgílio Castelo as queixas que todos nós temos não são do Estado Novo, da I República ou do Liberalismo, pois provêm de muito mais atrás,  com a tomada de poder dos duques de Bragança, primeiro, subrepticiamente, com as guerras surdas que fizeram a D. João II e depois, mais claramente, a partir da IV Dinastia, a partir de 1640. “Portugal tinha alguma saída se o país fosse o que era no tempo de D. João II que foi rei de um Portugal que não tinha medo de enfrentar qualquer espécie de adversidade”. Concretizando, acredita que é possível um Portugal sem os defeitos do actual, só que, tal como diz no livro, “isso dá muito trabalho”.

Virgilio Castelo procura com este seu livro tornar um Portugal que “está à deriva desde que morreu D. João II, em 1482”, num Portugal melhor: um pais que nos dê muito mais alegrias do que tristezas, onde não haja atrasos nas consultas médicas e onde a Justiça funcione.

COMO SE DÁ COM A FAMA?

Sem quaisquer sentimentos excessivos. Nem a favor nem contra. É uma consequência, não um objectivo. Como tal, sou realista na sua análise.

TEM DADO MUITAS ENTREVISTAS. QUAL A PERGUNTA QUE LHE COLOCOU MAIS EMBARAÇO?

Não me lembro de ter havido algum verdadeiro embaraço.

JÁ VIU SATISFEITO O SEU DESEJO DE SER ENTREVISTADO POR MARIA JOÃO AVILLEZ?

Ainda não. Mas continuo a sonhar com isso. Não sei se terá lido “O último navegador”, mas seria um assunto óptimo para conversar com uma das melhores jornalistas do país. Enfim, continuo a sonhar…

QUAL O SEU MODELO DE ACTOR?

Há vários, mas talvez possa destacar o Robert de Niro dos primeiros dez anos.

QUAL A SUA META COMO HOMEM DO ESPECTÁCULO E DAS ARTES?

Ajudar a tornar o mundo um bocadinho mais simpático.

QUANDO PENSA CHEGAR O MOMENTO DE DIZER “JÁ CHEGA, AGORA VOU DESCANSAR E DESFRUTAR DO QUE JÁ FIZ”?

Não tenho feitio para pensar que já cheguei a algum lado…

É SENSÍVEL À CRÍTICA?

Sou. Como já alguém disse, o problema não é a eventual injustiça. A questão é a importância da memória escrita.

HOUVE ALGUMA QUE O TENHA DEIXADO INCOMODADO?

Houve. Mas mais do que incomodado, o que dói mais é o arbítrio total.

SENTE-SE “BABADO” COM UM ELOGIO?

Claro, embora sempre com muito pudor.

COMO SE SENTE MAIS À VONTADE COMO ACTOR. NO PALCO, NO CINEMA OU NA TELEVISÃO?

Não é uma questão de estar à vontade. Julgo sentir-me à vontade nas três vertentes. Mas gosto mais de me sentir no palco.

QUAL A ACTIVIDADE QUE O PREENCHE MAIS. ACTOR, ENCENADOR, ARGUMENTISTA OU ESCRITOR?

Não sei responder. Todas me dão muito prazer e uma noção de dever a cumprir que me persegue desde criança.

QUANDO COMEÇOU NO ADOQUE ALGUMA VEZ PENSOU ALCANÇAR O ESTATUTO QUE HOJE TEM?

Não. Nem pensar. Isto partindo do princípio que estou a avaliar bem “o estatuto” que hoje possa ter.

ESTUDOU REPRESENTAÇÃO NA UNIVERSIDADE DE ESTRASBURGO, JÁ PERCORREU ALGUNS PAÍSES NA SUA ACTIVIDADE PROFISSIONAL. NUNCA O ENTUSIASMOU UMA CARREIRA INTERNACIONAL?

Quando era mais novo pensei nisso. Mas o apelo de Portugal foi muito maior.

PORQUE CHORA COM “VERDI”?

Porque a beleza daquelas melodias é próxima da perfeição. Toca-me de uma maneira que não controlo.

“O TEMPO TUDO TIRA E TUDO DÁ; TUDO SE TRANSFORMA, NADA SE DESTRÓI” (Giordano Bruno) QUER DESCREVER UM BOM E UM MAU MOMENTOS NA SUA CARREIRA DE 34 ANOS?

Há dois maus momentos que recordo sempre: os dois períodos em que estive desempregado (felizmente por pouco tempo). Um bom momento foi exactamente a estreia a 23 de Junho de 1974 no ADOQUE

VOLTAMOS AO TEMPO. “OS DIAS TALVEZ SEJAM IGUAIS PARA UM RELÓGIO, MAS NÃO PARA UM HOMEM” (Marcel Proust) ENTRE O PEDRO DE “LERPAR” E O VIRGILIO CASTELO DE “O ÚLTIMO NAVEGADOR” HÁ UMA “IMENSIDÃO” DE TEMPO. O QUE OS DISTINGUE?

Não os sinto assim tão diferentes, no meu espírito. O corpo é que incorporou outras experiências, algumas das quais poderão ter significado uns laivos de sabedoria.

UMA VEZ AFIRMOU QUE NÃO TEM FASCÍNIO ESPECIAL PELO CINEMA E PELA TELEVISÃO E QUE SÓ FARIA TEATRO, CASO O PAÍS O PERMITISSE. PELOS VISTOS O PAÍS NÃO PERMITIU ESSE DESIGNIO, E HOJE UMA GRANDE FATIA DA SUA POPULARIDADE DEVE-SE À DIVULGAÇÃO DO SEU TRABALHO NA TELEVISÃO E NO CINEMA. É UMA PESSOA COM SIGNIFICATIVAS AMBIÇÕES ECONÓMICAS?

Não, de todo. Tenho é demasiadas responsabilidades para poder viver só de um salário de teatro.

É NORNAL ASSISTIRMOS A ACTORES ENTRAREM NOUTRAS ÁREAS PROFÍSSIONAIS. SE NALGUNS CASOS PODEREMOS ADMITIR QUE É UMA PROGRESSÃO, OU UMA COMPLEMENTARIZAÇÃO,  NA CARREIRA, NOUTROS CASOS ESSA EVIDÊNCIA NÃO É ASSIM TÃO PALPÁVEL. ISSO DEVE-SE REALMENTE A UMA NECESSIDADE DE TER TRABALHO, A AMBIÇÕES MATERIAL OU DE EXPOSIÇÃO, OU É REALMENTE UM IMPERATIVO COGNITIVO DE SE FAZER MAIS QUE UMA COISA, DE SE JOGAR EM SIMULTÂNEO EM MAIS DE UM TABULEIRO?

Os actores são esponjas que absorvem tudo. Provavelmente há alturas em que algo do que se absorveu toma dimensões maiores e tem que sair cá para fora.

AO LONGO DA SUA CARREIRA TEMOS ASSISTIDO A QUE NÃO ESTÁ MUITO TEMPO NO MESMO PROJECTO. ISSO DEVE-SE A QUÊ?

A herança genética. Herdei essa inquietação da minha mãe que nunca fica muito tempo a fazer a mesma rotina. Por outro lado também herdei a perseverança do meu pai: só saio dos projectos depois de estarem a andar sozinhos. Estou muito mais próximo de ser um fundador, do que um gestor.

SER ACTOR É UMA BOA PROFISSÃO?

Não entendo o ser actor como uma profissão. Para mim é uma maneira de olhar o mundo e dar sentido à vida.

TEM A PERCEPÇÃO DE QUAL É A “SUA IMAGEM” QUE CHEGA AO PÚBLICO?

Às vezes sim, e às vezes não. Há muitos públicos.

SALOMÃO, DE “A RUA”, COWBOY VIOLENTO, DE “O VERDADEIRO OESTE”, E O MONÓLOGO “VICENT” SÃO OS TRABALHOS QUE CONSIDERA MAIS MARCANTES DA SUA LONGA CARREIRA. TEM ALGUM TRABALHO QUE SINTA QUE NÃO “CHEGOU” AO PÚBLICO COMO DESEJARIA?

Há um trabalho que me ficou “atravessado” por nunca o ter conseguido fazer como achava que podia. O par romântico da cantora Dora (e mais tarde Dulce Pontes) na comédia musical “Enfim Sós”

PEDRO CASTELA DE “VILA FAIA”, DE 1982, E GONÇALO MARQUES VILA DE “VILA FAIA”, DE 2008. O QUE MUDOU NA SUA PARTICIPAÇÃO?

A responsabilidade. Foi um grande desafio  interpretar desta vez o papel que no original foi feito por um dos melhores actores do mundo : Ruy de Carvalho

O QUE DISTINGUE O PURFIRIO DE “HUMOR DE PERDIÇÃO”, DO JOÃO DA CRUZ DE “UM AMOR DE PERDIÇÃO”?

Tudo. É esse o grande prazer de ser actor: viver as vidas mais variadas e mais distantes do que realmente somos.

VEM AÍ “A VIDA PRIVADA DE SALAZAR”. O QUE ESPERA DESTE TRABALHO?

Que seja mais um avanço na qualidade da ficção televisiva em Portugal

“O ÚLTIMO NAVEGADOR”. UM TÍTULO QUE NOS TRANSPORTA PARA UMA DIMENSÃO SONHADORA, PARA UM TEMPO EM QUE OS PORTUGUESES “CONTROLAVAM” MEIO-MUNDO, PARA UM TEMPO EM QUE O PORTUGUÊS ERA UM HOMEM DE BARBA-RIJA, RUDE TAMBÉM MAS IGUALMENTE AMBICIOSO, EMPREENDEDOR E COMUNICADOR COM OUTRAS GENTES, AVENTUREIRO E SAUDOSISTA DA SUA TERRA E, SOBRETUDO, PATRIÓTICO. QUE COMPARAÇÃO FAZ COM O PORTUGUÊS CONTEMPORÂNEO?

Não consigo fazer essa comparação em poucas linhas. No meu livro estão muitas das interrogações que esta questão nos suscita. E julgo também que algumas respostas.

TRANSPORTA ESTA DIOCOTOMIA PARA O SEU LIVRO?

Sim, claramente.

ESCREVER “O ÚLTIMO NAVEGADOR” FOI DIFÍCIL?

Escrever foi difícil. Mas corrigir, cortar, emendar, foi muito mais.

QUAL FOI O MÉTODO ADOPTADO PARA O ESCREVER, LEVANDO EM LINHA DE CONTA QUE “ESCRITOR” NÃO É A SUA ACTIVIDADE PROFISSIONAL?

Escrevi-o durante um ano, essencialmente entre as seis e as oito da manhã, antes da família acordar.

OS LOCAIS E AS PERSONAGENS SÃO SÓ FICÇÃO OU TAMBÉM SÃO REMINISCÊNCIAS DA SUA INFÂNCIA?

As personagens são pura ficção. Alguns acontecimentos que vivem provêem de coisas que fui observando ao longo da vida.

UM PAÍS COM UMA MONARQUIA MODERNA, ONDE NÃO HÁ ATRASOS NAS CONSULTAS MÉDICAS E ONDE A JUSTIÇA FUNCIONA. ACREDITA MESMO NESSE PORTUGAL, OU É SÓ CONVERSA PARA LIVRO?

Acredito que é possível um Portugal sem os defeitos do actual. Só que, tal como digo no livro, isso dá muito trabalho.

É SUA CONVICÇÃO QUE PORTUGAL ESTÁ À DERIVA DESDE QUE MORREU D. JOÃO II, EM 1482. PENSA QUE O SEU LIVRO VAI CONTRIBUIR PARA QUE PORTUGUAL ENCONTRE VENTOS MAIS FAVORÁVEIS?

Em tudo o que faço, ao meu nível e com a minha modéstia, procuro sempre tornar melhor o meu País.

QUANDO TERMINOU “O ÚLTIMO NAVEGADOR” SENTIU DESEJO DE ESCREVER MAIS ALGUM LIVRO?

Sim. Só espero é que esse desejo encontre eco na minha capacidade de trabalho.

COM ESTE LIVRO JÁ SE VÊ “UM ESCRITOR”?

Não. Não é o meu desejo que me torna naquilo que os outros reconhecem. Esse é o ponto de partida. Mas isto é como na Bíblia: “Muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos”



Hernâni de Lemos Figueiredo


©Hernâni de Lemos Figueiredo (2008)
director do Jornal D’Alenquer
in Jornal D’Alenquer, 6 de Novembro de 2008 (on-line)

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