Encontro com… ALÇADA BAPTISTA

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Discurso pausado, fluente e fácil

Encontro com… ALÇADA BAPTISTA

Foi engraçado ouvi-lo falar das cartas de amor de Pessoa a Ofélia Queiroz. É caso para perguntar se tais cartas seriam efectivamente cartas de amor ou cartas da impossibilidade do amor.

BMA_Alçada-Baptista

No dia 25 de Maio de 2000, na Biblioteca Municipal de Alenquer, apresentou-se o escritor António Alçada Baptista para mais um colóquio na B.M.A. À partida sabíamos que o seu discurso seria pausado, fluente, fácil, com um certo poder de aliciamento precisamente em função destas características. Sabíamos que iríamos estar perante um homem que se assume como uma pessoa que fala connosco e que nada tem em comum com o catedrático que profere a sua lição de sapiência, o seu discurso erudito. Também nada tem em comum com o sacerdote que oficia uma missa católica. É essencialmente coloquial: fala connosco; apela tacitamente para que o façamos também.

Não vamos pois deparar com um rígido debitador de uma conceptualidade esotérica, nem de alguém ensimesmado e deslumbrado pela sua própria sabedoria. Em função de tudo isto, em função da sua posição existencial repousada e suave, não tivemos abordagens rigorosas de conceitos (pessoalmente entendo que é lícito reservar os conceitos para os cientistas, as noções para os filósofos e as opiniões e pontos de vista para todos os outros; para todos nós). Foi contudo interessante ouvi-lo falar da cultura popular, etnográfica e da cultura erudita.

Foi interessante ouvi-lo falar das personalidades do antigo regime e da sua frieza de afectos (curiosíssimo foi sabermos que o próprio Cardeal Cerejeira dizia que faltava a Salazar o afecto). Também Marcelo Caetano – com o qual contactou intimamente – o desiludiu. As posições rígidas, a falta de afecto e de ternura num sentido muito amplo da palavra) são algo em que, Alçada Baptista não se reconhece. (Acrescento: honra lhe seja feita).

Foi do maior interesse ouvi-lo dizer que na poesia de Fernando Pessoa estava contido filosoficamente tudo – revestido de forma poética – Tudo, excepto uma coisa: o amor.

Foi engraçado ouvi-lo falar das cartas de amor de Pessoa a Ofélia Queiroz. É caso para perguntar se tais cartas seriam efectivamente cartas de amor ou cartas da impossibilidade do amor. (Entenda-se que a personalidade de Fernando Pessoa sai e permanece imune de todas estas considerações. Que tal fique bem claro).

Foi prestigiante sabermos que Alçada Baptista é amigo pessoal de Edgar Morin; o grande sociólogo, o grande teórico da cultura, da epistemologia, um homem muito lúcido e atento ao nosso tempo.

Ficou uma imensidão de coisas por dizer. Mas não terá valido a pena ouvi-lo falar da sua visão e vivência não-angustiada da religião? (Não esqueçamos que a angústia facilmente se transmuta em fanatismo. O caso de Lutero, para não falar de tantos outros).

No que ficou por dizer, seria por exemplo, interessante saber se o escritor se terá ou não desiludido com algumas das personalidades políticas do actual regime… Tal questionação seria demasiado intempestiva. E o interpelante arriscar-se-ia a passar por Friedrich Nietzsche: algo que decididamente é muito pouco popular, e que traz consigo um estatuto muito incómodo. Dito isto, valeu a pena.

Mas, cada qual colhe de tudo aquilo de que gosta, que pode, com o qual tem afinidade íntima. (Também é verdade que cada qual colhe de tudo, o que lhe convém. Não há pensamento objectivo. Os desejos e as ideologias comandam o pensamento).

Numa expressão de Alçada Baptista, talvez subscrevesse: captamos o que nos fala à alma…

Concluo com uma expressão que o humaníssimo escritor talvez não subscrevesse: …se a tivermos.

ANTÓNIO ALÇADA BAPTISTA nasceu na Covilhã a 29 de Janeiro de 1927. Fez a quarta classe e o ensino secundário com os padres jesuítas, em Santo Tirso, ingressando na Faculdade de Direito de Lisboa onde se formou em 1950. Mais interessado na acção cultural do que na prática jurídica, dirigiu, de 1957 a 1972, a Livraria Moraes Editora e fundou a Revista “O Tempo e o Modo” que também dirigiu de 1963 a 1969.

Antes do 25 de Abril foi candidato a Deputado pelo Distrito de Castelo Branco em 1961 e 1969.

Amigo de Marcelo Caetano, com quem manteve conversas que publicou, chegou a ser indigitado para Adido Cultural no Brasil. Depois do 25 de Abril dirigiu jornais O Dia e a Edição Especial, colaborando assiduamente noutros jornais como: A Capital, Semanário e o Jornal Brasil. Trabalhou na televisão e na rádio, sobretudo na Rádio Comercial na qual é cronista.

Oficial da Ordem de Sant’Iago foi Presidente do Instituto Português do Livro, bem como de várias outras comissões organizadoras, entre as quais: a das celebrações do cinquentenário da morte de Fernando Pessoa e das do dia 10 de Junho de 1998.
Pelos relevantes serviços prestados à cultura foram-lhe conferidos vários galardões dos quais se destacam o da Ordem Militar de Cristo, em 1983, pelo então Presidente da República, General Ramalho Eanes, e a Grã-Cruz da Ordem do Infante, em 1995, pelo Presidente da República na altura em exercício, Dr. Mário Soares.

A Editorial Presença publicará em breve, na colecção “Novos Guias de Portugal”, o volume que lhe encomendou sobre a Beira Baixa.

Memorialista e cronista muito apreciado parece, ultimamente, mais atraído pela ficção onde revela os mesmos dons de comunicabilidade e as mesmas preocupações coma dimensão “interior” do homem.

Bibliografia:
Documentos Políticos – 1970
Peregrinação Interior Vol. I – 1971 e Vol. II – 1982
Reflexos sobre Deus – 1971
O Tempo nas Palavras – 1973
Conversas com Marcelo Caetano – 1973
O Anjo da Esperança – 1982
Uma Vida Melhor – 1984
Os Nós e os Laços – 1985
Catarina ou O Sabor da Maçã – 1988
Fundação Ricardo Espírito Santo – 1988
Tia Susana, Meu Amor – 1994
O Riso de Deus – 1994
Um Passeio por Lisboa
A Pesca à Linha – Algumas Memórias – 1998





©José Manuel Garcia (2000)
Técnico da Biblioteca Municipal de Alenquer
in Jornal D’Alenquer, 1 de Junho de 2000, p. 29

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