Encontro com… Domingos Abrantes

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Resistente antifascista que esteve preso 11 anos

Encontro com… Domingos Abrantes


Biblioteca Municipal de Alenquer Encontro dom Domingos Abrantes - 28 de Abril de 2000

Biblioteca Municipal de Alenquer
Encontro com Domingos Abrantes
– 28 de Abril de 2000

No passado dia 28 de Abril conversou-se na Biblioteca Municipal de Alenquer, sobre a Revolução de Abril de 1974. O convidado foi Domingos Abrantes, comunista membro do Comité Central do PCP, da Comissão Política e do Secretariado do Comité Central. Resistente anti-fascista, esteve preso, durante 11 anos, nas prisões do Regime salazarista. Fez parte do Movimento da Unidade Democrática (MUD-juvenil).

Na introdução à conversa, o Vereador Luís Rema, em jeito de balanço, falou dos Encontros anteriores que a Câmara Municipal de Alenquer tem levado a cabo neste espaço/Auditório da Biblioteca, com este tipo de iniciativas a terem lugar duas vezes por mês, com apreciável participação de público e com convidados de grande nível. Da comunicação social, ao teatro, da literatura à política, que animaram sobremaneira estes Encontros.

O senhor vereador fez questão de salientar também, que os critérios de escolha das personalidades convidadas para estes encontros eram da sua inteira responsabilidade, e que na origem destes encontros, estava a preocupação de ajudar a recuperar um antigo hábito que se manifestava à mesa dos cafés, de discutir e debater ideias e que, em sua opinião, se estava perdendo.

Por fim, agradeceu a presença de órgãos de comunicação social da terra, tendo contudo lamentado a pouca participação dos autarcas eleitos pela população deste nosso Concelho.

Endossou depois a palavra a Domingos Abrantes, que começou por agradecer o convite que lhe fora endereçado para este Encontro, dizendo que vinha aqui com muito agrado e não por obrigação. Salientando a importância cultural destes eventos, afirmou ser muito salutar que se façam iniciativas como estas acerca do 25 de Abril, e que sendo naturalmente uma pessoa de partido, no seu PCP, o 25 de Abril era considerado como um dos acontecimentos mais importantes na história da nossa Pátria, com implicações directas em transformações sociopolíticas muito avançadas, então verificadas no nosso país.

Sublinhando que tem uma visão sobre o 25 de Abril que obviamente não pode separar da corrente de opinião em que se integra, afirmou que a história pode ser escrita e interpretada de várias maneiras e, que na história da Humanidade, registaram-se já milhares de revoluções e não se regista uma só que tenha sido neutra.

No caso da nossa revolução ela foi desencadeada contra um regime fascista que caracterizou como ditadura terrorista dos grandes grupos económicos nacionais, em aliança com os latifundiários e estes no seu conjunto associavam-se ao imperialismo. O fascismo era um regime arbitrário e obscurantista, exemplificando com uma situação vivida por ele: “fui preso várias vezes e nalgumas nem sequer fui julgado, mas isto também aconteceu a muitos outros antifascistas quer fossem comunistas ou outros democratas”, acrescentou.

O analfabetismo rondava então os quarenta por cento da população portuguesa. A censura era atroz, tudo o que se publicava na comunicação social portuguesa era visado pelos censores, a soldo do regime. Mas o estado fascista servia interesses bem concretos, era um instrumento ao serviço dos grandes monopolistas e latifundiários; por isso o 25 de Abril não foi feito a favor de todos, foi feito contra a base social que sustentava este tirânico regime. Daí que no processo revolucionário que se seguiu, ao mesmo tempo que se consolidavam as liberdades democráticas, se procurava acabar com o poder dos monopolistas e latifundiários, através das nacionalizações dos sectores básicos da economia, até então nas mãos da minoria que apoiava o Regime, e da Reforma Agrária na região do latifúndio no sul do país (Ribatejo e Alentejo).

Com a Revolução de Abril instituiu-se pela primeira vez o salário mínimo nacional, foi criada a segurança social, tal como hoje ainda existe. Foi instituído o direito de voto a todos os cidadãos maiores de 18 anos. As mulheres passaram a ter esse direito, e outro, que lhe assegurava a cidadania plena, em pé de igualdade com os homens.

A Revolução instituiu também o poder local democrático (uma das grandes conquistas de Abril) e pôs fim à Guerra Colonial injusta, responsável pela morte de milhares de jovens e por outros milhares de estropiados que ainda hoje sofrem as sequelas dessa guerra, que durou treze longos anos. Portugal quebrou enfim o seu isolamento internacional. A cultura descentralizou-se, tornou-se mais acessível às pessoas.

A “Revolução foi uma festa”, alguém o disse. A nossa Revolução foi também isso, onde apesar dos naturais excessos, valeu a pena tê-la vivido. Com ela ampliaram-se radicalmente o nível de participação das pessoas na política, e noutras esferas da vida cívica. A Revolução de Abril foi mais além do que alguns sectores militares, e não só, queriam. Spínola, por exemplo, não queria mais do que o mero derrube do fascismo, nem a própria PIDE / DGS (temível polícia política) queria pôr em causa. Foi preciso um impetuoso Movimento Popular para transformar o golpe militar em Revolução de facto. Os retrocessos que se seguiram não destruíram algumas das importantes conquistas da Revolução. Ainda assim, acrescentou Domingos Abrantes, “nós consideramos a Revolução de Abril inacabada”.

O papel do PCP na preparação das condições para o derrube da ditadura, e durante o processo de instituição da democracia foi importante e creio que ninguém porá isso em causa. Contudo, os Capitães de Abril tiveram um papel determinante na Revolução. Mas, os governos do Novo Regime Democrático não os trataram bem. Todos foram afastados dos seus cargos e/ou prejudicados nas suas carreiras profissionais.

Seguiu-se um espaço para perguntas, e a palavra foi dada ao público, tendo duas pessoas, que se identificaram como não comunistas, colocado questões a Domingos Abrantes. A primeira para afirmar que é inegável o papel histórico do PCP na luta contra a ditadura, mas questionou o seu papel durante o processo revolucionário e sobretudo quanto ao futuro, adiantando: “falou-se do passado e quanto ao futuro, quais são as vossas propostas?”. Um outro senhor perguntou qual era o papel que o PCP reservava na luta de classes aos quadros intermédios.

As respostas vieram do convidado num tom coloquial e cordial, onde não faltou uma pitada de humor, mas dentro da linha de visão do partido a que pertence, há já muitos anos.




Bento Luis



©Bento Luís (2000)
in Jornal D’Alenquer, 1 de Junho de 2000, p. 30

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