Arqueologia: A Idade do Ferro no Concelho de Alenquer

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A Idade do Ferro no Concelho de Alenquer

A Idade do Ferro (1) surge como uma consequência à introdução dos metais, à Idade do Bronze. Neste período experimentaram-se novos materiais, de forma a obter estruturas e objectos mais sólidos, mais resistentes.

Coincidindo com a expansão mediterrânica dos povos Fenício e Grego, com o estabelecimento de colonatos e de feitorias no território da Península Ibérica, a Idade do Ferro é, também, caracterizada por um forte incremento da actividade comercial. Foi esse intenso comércio, no qual as feitorias tiveram uma importância fulcral, que se tornou num dos melhores veículos de troca cultural. Claramente de precedência mediterrânica, por via comercial, são variados objectos de metal, como armas, fíbulas e placas de cinturão, peças de ourivesaria e cerâmicas típicas, nomeadamente as de verniz vermelho.

A penetração dos povos mediterrânicos tornou-se facilitada pelos grandes cursos fluviais, como foi o caso do Rio Tejo, o que proporcionou às populações das regiões adjacentes um contacto com essas mesmas populações, e também uma permuta de materiais. Essas matérias constituem-se, essencialmente, por peles, géneros, derivados lácteos, pesca, extracção de sal e exploração mineira. Esta última foi um dos motores da expansão dos povos mediterrânicos.

Contudo, os vestígios arqueológicos apresentam poucos elementos conclusivos. Os escassos elementos de que se dispõe para a região da Estremadura portuguesa apontam para uma continuidade relativamente ao período anterior. No entanto, as escavações arqueológicas demonstram um legado cultural orientalizante (2), sendo notórios o uso de novas técnicas, como é o caso da roda de olaria, e a adopção de novos motivos decorativos.

Pode-se, então, afirmar uma intensificação dos contactos com a área mediterrânica, o que contribuiu, segundo João Teixeira, « (…) para moldar a cultura material local sem, contudo, se verificar qualquer ruptura definitiva com as práticas do passado» (3).

A este período pertencerão, por certo, os escaravelhos-amuleto egípcios encontrados na nossa região. De fino recorte, estes objectos ter-se-ão difundido do Antigo Egipto a todo o Mar Egeu, propagando-se até Portugal numa fase em que os Gregos firmaram o seu posicionamento.

Segundo Fontes Clássicas, nos séculos V-IV a.C. assistiu-se à emigração de vários povos, que ocuparam sucessivamente algumas parcelas do nosso território, da qual Alenquer é exemplo. É o caso dos Celtas, oriundos da zona da Meseta, e dos Túrdulos, da Bética, e que transportaram consigo a cultura do reino tartéssico.

No Concelho de Alenquer são escassos os vestígios atribuídos a este período. Dois sítios com materiais possíveis de serem atribuídos à Idade do Ferro são o Castro da Ota e o Castro da Pedra de Ouro. No primeiro sítio enunciado, podem encontrar-se, entre os materiais recolhidos, variados objectos metálicos, nomeadamente um grande número de fíbulas, arreios de cavalo, pontas de lança, punhais, anzóis e agulhas. No Castro da Pedra de Ouro também foram recolhidos objectos metálicos, como uma ponta de lança, uma folha de punhal, serras e facas de sílex. Aí foi também recolhida cerâmica, claramente demonstrativa duma prática industrializada desse tipo de matéria, de que é exemplo o vaso mamilado, pela técnica do ” repuxado ” (4).

Apesar dos escassos vestígios deste período no Concelho, a região de Alenquer apresenta materiais atribuíveis à Idade do Ferro. Deram-se grandes deslocações populacionais, novos reordenamentos dos espaços e das estratégias económicas que se reflectiram no estabelecimento de instalações comerciais e na colonização de regiões pouco populosas, mas férteis, da orla mediterrânica ocidental, sobretudo no sul da Península Ibérica, inclusivamente aqui, no nosso Concelho.

    (1) Idade do Ferro – +/- 800 a.C. – Séc. I d.C.
    (2) Esta fase orientalizante integra-se na I Idade do Ferro ( 800 a.C.-450 a.C. ). Fase correspondente ao impacto provocado pelo estabelecimento de entrepostos comerciais fenícios e de possíveis colonizações, que levam à introdução de inovações.
    (3) TEIXEIRA, João António, Alenquer das Origens à Romanização, Trabalho Académico apresentado à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 1997.
    (4) Para mais informações acerca do Castro da Ota e do Castro da Pedra de Ouro devem consultar-se os números 3 e 4, de Março e de Abril, deste Jornal.



Raquel-Raposo

©Raquel Raposo (2000)
Arqueóloga
in Jornal D’Alenquer, 1 de Junho de 2000, p. 38

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