Camões e Alenquer (VI): A família paterna – outros dados

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Camões e Alenquer (VI)

A família paterna – outros dados

“Uns” Camões em Alenquer
Pelo que ficou exposto no número anterior (quer das informações de Severim de Faria (1), quer do esquema genealógico realizado a partir do que o mesmo autor escreveu), sobre a permanência em Alenquer da família de Camões, os únicos dados são os que se referem a Vasco Pires de Camões, feito alcaide-mor do castelo por D. Fernando, entre outras mercês. Repetindo, mais uma vez, Severim, «obrigado Vasco Pires destas mercês, seguiu depois as partes das rainhas D. Leonor e D. Beatriz contra el-rei D. João I de Portugal […] Pelo que sendo preso na batalha de Aljubarrota, perdeu todos os vassalos e fortalezas que tinha no Reino. E somente lhe deixou a benignidade real as terras e herdades que tinha em Estremoz e Avis e outros bens particulares que tinha em Alenquer e Lisboa, de que seus descendentes instituíram, depois, morgados rendosos […]».

Ora, um dos argumentos clássicos de quem propunha Alenquer como berço de Luís de Camões, como ficou demonstrado noutro número, era o de que parentes do Poeta teriam tido uma propriedade perto de Alenquer, que ainda no século XVIII era conhecida como Quinta de Camões. Não é difícil de aceitar que a Quinta de Camões fosse uma parte dos «bens particulares que [Vasco Pires] tinha em Alenquer». Mas quem foram os descendentes que a partir desses bens instituíram «morgados rendosos»?

Mesmo sem documentação ou bibliografia que o comprove, não podemos desvalorizar a informação de Severim, que aponta para a permanência de «uns» Camões em Alenquer, posteriores ao alcaide Vasco Pires.

Os Camões de Coimbra
Quando se tratou, na questão da naturalidade do Poeta, das pretensões de Coimbra, constatou-se que um dos argumentos em que se alicerçava essa teoria era o da residência da família Camões em Coimbra, durante séculos.

As investigações de Pinto Loureiro, na Biblioteca Municipal de Coimbra, vieram demonstrar a existência e estabelecer a genealogia do ramo coimbrão dos Camões, melhor dizendo, dos Vaz de Vila Franca, que, como diz o investigador, «os Vaz de Vila Franca parece não terem tido o apelido Camões em grande conta quási o tendo deixado em esquecimento» (2).

O esquema seguinte apresenta os resultados a que chegou:

Camões e Alenquer (VI) Os Camões de Coimbra

Camões e Alenquer (VI) – Os Camões de Coimbra

Para além de ser hipotética a filiação de Antão Vaz de Camões em João Vaz de Vila Franca, Pinto Loureiro estranha o facto de, quer sobre o mesmo Antão Vaz, quer sobre

Simão Vaz de Camões, avô e pai de Luís de Camões, não ter encontrado qualquer documento «num período em que a documentação é já abundante», e depois de muitos autores repetirem que em Coimbra passaram toda ou parte das suas vidas. E conclui: «Isso me leva à suposição de ser inventado tudo quanto se tem escrito, pelo menos relativamente à sua residência em Coimbra».

Os Camões flavienses
J. G. Calvão Borges publicou, em 1974, «A família flaviense de Camões», onde demonstra os resultados a que chegou a partir de um documento de 1598, a habilitação para o Santo Ofício do Doutor Pedro Álvares de Freitas, Prior de São Nicolau de Lisboa (3). Calvão Borges «descobre» os avós paternos de Luís de Camões em Vilar de Nantes, lugar junto a Chaves e propõe a genealogia seguinte:

Camões e Alenquer (VI) Os Camões Flavienses

Camões e Alenquer (VI) – Os Camões Flavienses

Assim se pode explicar, em Coimbra, a ausência de documentação que diga respeito a Antão e Simão Vaz de Camões. No entanto, as inquirições para a referida habilitação, relativas aos avós maternos do habilitando (Antão Vaz e Mécia Vaz) foram, em parte, realizadas em Coimbra, o que significa que estes seriam oriundos ou naturais daquela cidade.



    (1) Manuel Severim de Faria. “A vida de Camões”. Estudo introdutório e notas de Reis Brasil. Publicações Europa-América.

    (2) Pinto Loureiro. «Novos subsídios para a biografia de Camões». Edição de 1935. A partir das transcrições que dele faz J. G. Calvão Borges em «A família flaviense de Camões».

    (3) J. G. Calvão Borges. «A família flaviense de Camões», in Arqueologia e História. 9.ª série de publicações. Volume V. Lisboa, MCMLXXIV, pp. 165-230.


Filipe-Rogeiro

©Filipe Soares Rogeiro (2000)
Licenciado em História
in Jornal D’Alenquer, 1 de Junho de 2000, p. 39

1 Comentário

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  1. Tudo leva a querer que o nome de “Camões” não será um nome mas uma alcunha, tão natural na nossa região, o pai não tem este apelido e a mão também não, sabemos que aprendeu a escrever e a ler num local que foi antes residencia de monarcas, convento e hoje local de festa e casamentos, estou a falar do Varatojo. Do que li de “Camões” do que escreveu e do que escreveram dele, estou cada vez mais convicto que o nosso Luis Vaz era de Carmões, aldeia que pertenceu á comarca de Torres Vedras, segundo escritos do próprio as aldeias de dessa região eram por si sobejamente conhecidas,( a própria Galiza era terra vizinha), teve como paixão de toda a sua vida, a colega de escola, e irmã do rei, a quem seu tio, frade, ensinou ambos. Em toda a sua lirica, os nomes que usa são fictícios, mesmo assim não escapou a uma ida para Índia. Deve acrescentar-se que este passou a sua vida a correr atrás do sonho, que foi sempre para ele um pesadelo, foi essa angustia, esse desgosto, essa vontade de se mostrar merecedor que o levou a escrever uma obra impar, onde os Lusíadas, são apenas uma amostra da grandiosidade do Poeta. Dizer que é daqui, ou que é dali, ou dacolá pouco importa, o que importa é que é nosso, para mim um homem que ao escrever o que escreveu respirou certamente o ar do Montejunto, como aliás escreveu.

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