David e Denise

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David e Denise

Beja SantosPrevia-se uma manhã sem chuva naquele dia de janeiro, em Bruxelas. O André e eu acordámos num passeio pela Floresta de Soignes, depois do pequeno-almoço atravessámos o Boulevard du Souverain pouco passava das dez horas, vínhamos de Watermael-Boitfort, num instantinho desapareceu o bulício urbano, tínhamos à entrada do caminho um piso saibroso e alcantilado, por vezes passávamos pela berma para não nos enlamearmos, o sol timidamente começou por se infiltrar no arvoredo e desanuviar o céu de chumbo, tão frequente no período invernal.

Rondam os 5 º, pelo que procuramos estugar o passo nesta magnífica floresta que tem milhares de hectares, que atravessam Bruxelas, Flandres e a Valónia, um arvoredo soberbo, um silêncio cortado pelo voo dos corvos, dos lugarejos limítrofes surgem alguns pedestres encasacados, por vezes com os seus cães, o André nem parece ter 80 anos, vai bem embiocado e conta o que a Floresta de Soignes oferece aos amantes da natureza, em vegetação, casas de campo, flora prodigiosa que não desperdiça aqueles terrenos húmidos e férteis. Aqui e acolá despontam florinhas bravias. Que bela manhã, que belo passeio nas curtas férias da visita que viera fazer à Ika e ao André. Íamos com rumo certo, mesmo deambulando por veredas serpenteantes caminhamos em direção a um importante conjunto arquitetónico dentro da floresta, mas já no limiar de Auderghem, Rouge-Cloître, uma comunidade que foi de Agostinhos, tem pelo menos cinco séculos, belos edifícios cercados de lagos e charnecas, há para ali moinhos e terrenos agrícolas de que a comunidade se alimentava.

Vamos em conversa desopilante, aproveito para fazer perguntas sobre a Cité du Logis, o bairro onde vivem os meus anfitriões, casas classificadas do período entre as guerras, moradias com portadas verdes em ruas, todas elas, com nomes de pássaros. Quando chegamos a Rouge-Cloître a manhã aqueceu, paramos para ver os regatos que travessam prados encharcados, há para ali muitos lameiros, visitamos as velhas cavalariças, as dependências agrícolas, o espaço conventual em parte ocupado por artífices que se dedicam às artes do vidro, tecelagem, encadernação. E rumamos para Auderghem, já passa do meio-dia, apetece um bom café, contornamos Rouge-Cloître, ainda parámos para ver belas moradias antes de entrar nos arredores movimentados da velha comuna, outrora fora de Bruxelas. E entrámos no restaurante “Les Deux Petits Diables” que anuncia especialidades italianas, massas, saladas e carpaccio. Pedimos café no balcão, o patrão, sorridente convida-nos a sentarmo-nos, a clientela do almoço ainda não chegou, e tagarelamos os três.

O patrão chama-se David, é um quarentão ágil, enquanto conversa vai dando instruções, apercebe-se que estou curioso quanto à decoração, conta detalhes da compra destes objetos, muitos deles vieram de um empreendimento anterior, mantém a mesma sociedade com o mesmo sócio, está encantado com o bairro, tem fregueses fiéis, houve mesmo uma cliente que lhe deixou uma lembrança inesquecível, quando entrara no ramo da restauração, confessa, nunca suspeitara que há amizades insuspeitadas que superam a morte. Fez-se um silêncio constrangedor, senti-me picado pela curiosidade, de que amizade se tratava, que lembranças perenes ficaram? O patrão olha-me frontalmente, pergunta se temos ainda alguns minutos mais, claro que temos, não íamos sair daqui sem ver o enigma desvelado, e ele então desfiou a sua história.

“Aqui nas redondezas vivem muitos velhos, alguns deles completamente sós. É gente com meios, aqui não há pobreza, estas casas são dispendiosas. Mal abri o restaurante e um sábado, tocavam as badaladas do meio-dia no campanário, e entrou uma senhora, teria entre 85 e 90 anos. Pediu a carta, escolheu uma entrada, um prato principal, uma sobremesa, um copo de vinho e uma garrafa de água. Vinha só, a partir daí veio sempre só, nunca lhe conheci companhia. Uma mulher seca de carnes, mas sólida, desempenada, com um discurso muito lógico, cheia de lembranças, bem-humorada. Coisa rara, enquanto comia interpelava-me frequentemente, com o andar dos anos metia-se mesmo nas conversas entre mim e o meu sócio, gostava de dar opiniões. Nunca me disse adeus, disse-me sempre até breve, e nunca veio a não ser ao sábado, aparecia pontualmente ao meio-dia, gostava daquela mesa virada para o parque, almoçava, falava connosco e deixava-nos aí pelas três da tarde. Mas houve um sábado que não apareceu. Fiquei inquieto, nunca a vira fazer férias, pensei que estava adoentada. Claro que eu sabia onde ela vivia, o nome da rua e o número da moradia. Fui lá e bati à porta, ninguém respondeu. Voltei para aqui. E passei uma semana à espera da minha cliente. Acreditem que tinha saudades, senti um vago mal-estar. E no sábado seguinte voltou a não aparecer. Pela uma da tarde, apoderou-se de mim uma enorme angústia, voltei lá a casa, não houve resposta e bati à porta dos vizinhos mais próximos. Quem me abriu a porta era uma senhora de idade, assim que a interpelei o rosto ficou sombrio, o olhar triste:

    “A Denise morreu de noite, a meio da outra semana, a empregada deu com ela já morta na cama, quando chegou de manhã. O filho já tratou do funeral, estamos profundamente consternados, a Denise era uma vizinha amorosa, participava em várias iniciativas de solidariedade, visitava enfermos e gente que vivia tão só como ela. Perdemos uma grande amiga”.

Regressei melancólico, pus-me a trabalhar com uma grande mágoa, tinham sido pelo menos cinco anos a ouvir a porta abrir-se quando soavam as badaladas do meio-dia de sábado. O mais importante está para vir.

Passaram-se uns meses e um dia entra alguém que pergunta por mim. Pediu para nos sentarmos, escolhi a mesma mesa onde almoçava a Denise, não sei porquê. Tratava-se de uma herança, precisava de falar comigo em privado. E fui-o ouvindo de cara à banda, ele ia falando e tudo me parecia inacreditável:

    “Sou o filho único da Denise, aquela sua cliente que apreciava muito a vossa comida e o vosso ambiente. A minha mãe deixou no testamento o automóvel para si. Escreveu-me uma cartinha a explicar que aquele automóvel só tinha valor simbólico, funcionava muito bem, estava afinado, mas tinha escasso valor comercial. Ela ouvira uma conversa entre si e o seu sócio, parece que os dois por vezes tinham que disputar a única viatura do restaurante. Ela pensou vezes sem conta que lembrança lhe devia deixar, achou que não tinha sentido oferecer uma joia ou qualquer objeto decorativo, não conhecia os seus gostos, queria mesmo que fosse uma lembrança útil, que ficasse na memória. O carro está ali à porta, aqui tem a chave e toda a documentação. Agradeço-lhe a companhia que deu à Denise”.

O André e eu regressámos a Cité du Logis, tínhamos sopa, endívias com presunto e uns queijinhos para finalizar. Pela tarde, queria ir até ao centro da cidade. A história da Denise não nos largou, estávamos impressionados, há laços afetivos insondáveis. Mal sabia eu que essa tarde, num alfarrabista do Boulevard Anspach, a pretexto de umas grossas bátegas, iria encontrar, sublinhado e comentado o livro de contos “Objeto Quase”, de José Saramago, pertencera a alguém que se chamava Soraya. E por aqui nos ficamos, não há ninguém que não goste que a vida lhe reserve boas surpresas.



Beja Santos

©Mário Beja Santos (2014)
Professor Universitário
Cofundador da UGC, União Geral de Consumidores

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