Igreja de S. Pedro (Alenquer)

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Igreja de S. Pedro (Alenquer)

Ig S_PedroNão é conhecido o ano exacto da construção da Igreja de S. Pedro, em Alenquer, mas uma fonte documenta-a no século XIII, concretamente em 1239. Em 1758, nas Memórias Paroquiais, Pedro da Sylveira – Prior de São Pedro -, refere que a “Parrochia de Sam Pedro da villa de Alanquer he a segunda antiguidade das da dita villa, e que fica fora dos antigos muros da dita villa no sitio que algum dia se chamava arrabalde, mas hoje se reputa por parte principal della” (MARTINS; 2008: 35).

Foi, em tempos, uma das cinco igrejas paroquiais existentes na Vila. Em meados do século XVIII pertenciam-lhe os lugares de Pedra de Ouro e Casal do Trombeta, sendo mais tarde, em 1850, anexada à de Santo Estêvão. Arrasada pelo terramoto de 1755, houve a necessidade de proceder à sua reconstrução e, poucos anos depois, a Igreja de S. Pedro já se encontrava aberta ao público.

Segundo documenta o Padre Luís Cardoso, no seu Dicionário (MELO et alii; 1989: 184), antes do terramoto a igreja seria de uma só nave, a tribuna e capela-mor, majestosa, seria de talha dourada, com grande retábulo onde, num painel, S. Pedro se representaria recebendo as chaves das mãos de Cristo. Tinha dois altares laterais, e três capelas: uma dedicada a Santa Ana, outra a S. Francisco Xavier – administradas por Martinho de Sousa de Sá -, e outra, da parte do Evangelho, de Cristo Crucificado – administrada pelo Doutor Bernardo Pereira de Gusmão.

Em 1873, no Alenquer e Seu Concelho, Guilherme Henriques alude ao ar de tristeza e desolação apresentado pelo templo, o qual, segundo o próprio, se encontrava rapidamente cahindo em ruina (HENRIQUES; 2005: 179).

No ano de 1940 é alvo de novas execuções, ali tendo sido integrada a capela quinhentista da Igreja da Várzea, para onde foi trasladado, em 1941, o túmulo de Damião de Goes – classificado de Monumento Nacional em 16/6/1910 -, bem como todos os elementos da velha Igreja da Várzea relacionados com o humanista e sua esposa, Joana de Hargen. Sobre esta Capela, classificada de Imóvel de Interesse Público pelo Decreto nº 35443, de 2/1/1946, trataremos mais adiante.

Na Igreja há, ainda, a referir o tecto em madeira pintada, do século XVIII, onde se representa a “Santíssima Trindade”; no altar lateral esquerdo um “Cristo Crucificado” do século XVIII, uma “Pietá” de madeira policromada, atribuível ao século XVI, e uma imagem em madeira, representando o “Senhor morto”, do século XVII.

Na sacristia existe um arcaz onde se encontram uns painéis do século XVI representando “A Anunciação”, “Um Apóstolo”, “Um Santo”, “Dois Santos”; e uma pintura do mestre Álvaro Duarte de Almeida, contemporâneo. Ainda a acrescentar várias pinturas de cavalete com molduras em talha dourada. No baptistério, uma pia baptismal quinhentista, octogonal, com decoração em relevo.

A Capela, de planta rectangular, – originalmente edificada na Igreja de Santa Maria da Várzea cerca de 1560 – foi integrada na parede lateral da nave da Igreja de S. Pedro, do lado da Epístola. Aí, um arco de volta perfeita ladeado por contrafortes abre para o espaço, onde o pavimento, original, é de lajes de mármore vermelho e branco – aí se contra a sua laje tumular -. A janela, com pequenos colunelos e vitral, também são provenientes da Igreja da Várzea. É coberta por abóbada de nervuras decorada com florões nos bocetes. Ao centro apresenta um pequeno altar onde se observa a escultura do Ecce Homo, trazida da Flandres pelo cronista alenquerense.

Numa das paredes laterais encontra-se inserida uma cartela com a pedra de armas de Damião de Goes e de sua esposa. Esse conjunto, decorado com motivos grotescos, é rematado por uma cabeça alada. Na parede fronteira foi colocado o epitáfio tumular do humanista, escrito pelo próprio, o qual se encontra encimado por um tondo com o seu busto.

Em 2002, uma equipa multidisciplinar coordenada pelo arqueólogo Fernando Rodrigues Ferreira levou a cabo uma investigação arqueológica, de tipo médico-forense, exumando os supostos restos de Damião de Goes e sua esposa. O estudo permitiu aferir que os restos tidos como pertencentes ao cronista e sua esposa correspondiam a seis homens, duas mulheres e duas crianças, revelando que, aquando da trasladação, as ossadas haviam sido
colocadas de forma avulsa, desmentindo a cerimónia promovida pelo Estado Novo. Sobre esta matéria deverá consultar-se Causas de Morte de Damião de Goes, de Fernando Rodrigues Ferreira et alii (2006).

 

 
Raquel-Raposo

©Raquel Caçote Raposo (2015)
Arqueóloga
in academia.edu, Abril de 2015

 

 
 

 
Bibliografia

HENRIQUES, Guilherme João Carlos (2002) – A Vila de Alenquer, fac-simile de 1902, Arruda Editora, pp. 90-97.

HENRIQUES, Guilherme João Carlos (2005) – Alenquer e Seu Conselho, fac-similem de 1873, Arruda Editora, pp. 178-180.

MARTINS, José Eduardo (2008) – Alenquer 1758. O Actual Concelho nas Memórias Paroquiais, Arruda Editora, pp. 35-42.

MELO, António de Oliveira, GUAPO, António Rodrigues, MARTINS, José Eduardo (1989) – O Concelho de Alenquer. Subsídios para um roteiro de Arte e Etnografia, Vol 1, 2ª Edição, C. M. Alenquer, pp. 184-185.

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