Nas asas do vento: Ciclo de actividades à volta dos moinhos

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Ciclo de actividades à volta dos moinhos
Nas asas do vento…

Alenculta


Alenculta (14/maio/2015) – NAS ASAS DO VENTO – Ciclo de actividades à volta dos moinhos
Alberto Santos (Secção de Património da Alenculta) guiou os convidados pela exposição.


“Nas asas do vento…” é o ciclo de actividades à volta dos moinhos que a Secção de Património da Alenculta levou a efeito ontem, 14 de maio de 2015, pelas 15,00 horas; Pedro Folgado, Presidente da Câmara Municipal de Alenquer inaugurou o certame. Foram igualmente convidados José Leitão Lourenço, Presidente da Assembleia Municipal, Hélder Miguel, presidente da ACICA, José Damião, Presidente da Associação Recreativa da Pocariça, e Ana Sofia Frazão e Luís António Costa, elementos do Rancho Folclórico da Pocariça, os “moleiros” que emolduraram esta sessão. Também esteve presente Miguel Nobre, gerente da empresa Arte ao Vento.

Alberto Santos, da Secção de Património da Alenculta fez uma apresentação orientada da exposição fotográfica “Moinhos, a beleza de um património abandonado”, traçando sucintamente o que representava cada uma das figuras emolduradas expostas.

Já no Auditório, o mesmo Alberto Santos segmentou a sua palestra “Desfraldar as velas… e conhecer os moinhos”, em seis grandes tópicos: a moagem e as suas técnicas ao longo da história, os moinhos de vento, os moinhos de vento em Portugal, os moinhos de vento em Alenquer, o que é um moinho de vento, e o Moleiro.

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Alenculta (14/maio/2015) – NAS ASAS DO VENTO – Ciclo de actividades à volta dos moinhos
Alberto Santos (Secção de Património da Alenculta) na conferência do programa


Perante uma assembleia bem composta, o conferencista iniciou a sua intervenção com “a moagem e as suas técnicas ao longo da História”, afirmando que o processo de moenda dos alimentos e a sua transformação em farinha teve a sua origem há cerca de 10 mil anos; desde o embate de uma pedra sobre um dormente, passando pelos moinhos manuais de rebolo e pelos sistemas pré-industriais de moagem até às actuais técnicas de farinação industrial, a civilização foi assimilando as mais diversas práticas conforme o progresso tecnológico de cada época.

Ainda dissertou sobre os diversos tipos de engenhos de moagem que apareceram nos últimos dois milénios: que todos eles dependiam de três variáveis fundamentais, como o tipo de energia disponível em cada região, os materiais aí existentes e o saber aí disponível.

Alberto Costa chamou “elemento nuclear” às mós por, ao longo dos tempos, serem presença obrigatória em todos os sistemas de produção de farinha, utilizem eles a fonte de energia humana, animal, hídrica, eólica ou eléctrica.

Sobre este primeiro tópico do programa, e sempre escutado com muita atenção, o conferencista concluiu que foi a capacidade técnica de utilizar de forma simplificada cada uma destas formas de energia que esteve o princípio das formas cada vez mais sofisticadas e mais complexas de moagem: das mós manuais, das atafonas, dos moinhos de rodízios, das azenhas e dos moinhos de maré, até aos moinhos de vento, o cume da sofisticação dos sistemas pré-industriais, no que se refere à progressão da complexidade do conhecimento e das técnicas utilizadas.

São precisamente os moinhos de vento o motivo do segundo tópico da reunião. A sua origem poderá estar na antiga Pérsia, actual Irão, no início do século X. Seria um “moinho horizontal”, constituído basicamente por um eixo de pás côncavas numa das extremidades e com as mós encravadas na extremidade oposta. O eixo vertical, solidário com a mó, imprimia-lhe um movimento rotativo directo, sem necessidade de qualquer engrenagem intermédia.

Se a nova técnica de moagem inicialmente era assim, a partir determinada altura desenvolve-se e complexifica-se na proporção directa da sua difusão e dos contributos que, em cada uma das novas regiões, se vão aperfeiçoando as técnicas iniciais.

Entretanto, disse-nos, a técnica de moagem encaminhou-se para a Europa por duas vias: uma, através da Rússia, para os países do Norte, da Escandinávia e do centro europeu; outra, provavelmente ligada à expansão muçulmana e às cruzadas, pelas margens do Mediterrâneo para a Europa do Sul, Portugal e Espanha incluídos.

A referência mais antiga sobre moinhos de vento é encontrada em França, em 1105. Em 1187 é referenciado o primeiro moinho de vento em Inglaterra. Ainda é no mesmo século que são encontrados registos de moinhos de vento na Holanda. É necessário esperar até ao século XIV para se encontrar registo de moinhos de vento na Bélgica, Polónia e Suécia.

Alberto Santos concluiu este segundo tópico, dizendo que, se inicialmente era um moinho horizontal, o tempo facilitou o avanço tecnológico que permitiu chegar ao moinho de vento vertical tal como o conhecemos hoje; com o mastro na horizontal, ligeiramente inclinado, e mantendo o eixo das mós na vertical.

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Alenculta (14/maio/2015) – NAS ASAS DO VENTO – Ciclo de actividades à volta dos moinhos
Hernâni de Lemos Figueiredo, Raquel Raposo e Alberto Santos (Alenculta), conversam com José Damião (Presidente da Associação Recreativa da Pocariça), Ana Sofia Frazão e Luís António Costa, (Rancho Folclórico da Pocariça), Pedro Folgado (Presidente da Câmara de Alenquer, Hélder Miguel (Presidente da ACICA) e Miguel Nobre (Gerente da Arte ao Vento)


Moinhos de vento em Portugal”, um tema aguardado com alguma curiosidade foi o terceiro tópico da conferência. E o palestrante expôs que “os moinhos de água e os moinhos de vento, quer pela quantidade, quer pela geografia da sua dispersão, constituem os sistemas de moagem mais difundidos da era pré-industrial”. Os moinhos de rodízio, de rodetes e as azenhas mais antigos, todos movidos a água, são herança árabe e romana; e a partir da Alta Idade Média sofreram a concorrência dos moinhos movidos a energia eólica.

Ficamos a saber que o registo do primeiro moinho de vento em Portugal se deve ao poeta árabe X Ibn Mugana que se refere a um moinho existente em Cascais como “Nora das nuvens”; no entanto, o primeiro escrito a mencionar claramente um moinho de vento é de 1182 e indica um apetrechamento doado ao Mosteiro de S. Vicente de Fora. São os cavaleiros de Malta que no século XVI introduzem em Portugal os moinhos de vento de eixo horizontal, muito mais evoluídos tecnicamente que os anteriores.

Alberto Santos explicou-nos que, “em simultâneo com a construção da torre fixa de alvenaria, a introdução da vela latina no mastro do moinho – que deve ter-se efectuado no final século XVII – tornou os moinhos de vento numas máquinas extremamente eficientes no aproveitamento da energia potencial do vento”.

E a finalizar este tópico, o palestrante afirmou que é a seguir ao Terramoto de 1755 que as zonas envolvente da cidade de Lisboa e de todo o litoral oeste albergam uma propagação de moinhos deste tipo; o panorama mantém-se até ao último quartel do século XIX quando começam a aparecer os equipamentos, movidos a vapor, instalados nos grandes complexos industriais de moagem, movimento reformador que é bastante mais lento na região oestina.

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Alenculta (14/maio/2015) – NAS ASAS DO VENTO – Ciclo de actividades à volta dos moinhos
Pedro Folgado, Presidente da Câmara Municipal de Alenquer, depois de inaugurar o evento.


Os “moinhos de vento em Alenquer” foi sem dúvida o tópico mais expectante da tarde. Segundo o conferencista, os inquéritos industriais de 1890 registavam 46 moinhos de vento no concelho de Alenquer. Actualmente, segundo afirmou, existem apenas seis moinhos recuperados e “visitáveis”. Dois, no Lugar da Serra, e um em cada uma das aldeias de Penedos de Alenquer, Lapaduços, Cabanas de Torres e Cabeços. Se um está musealizado, há outro adaptado a casa de turismo rural. Há dois para habitação e outros dois sem qualquer utilização aparente.

Depois de um debate aceso e participado, Alberto Santos concluiu este quarto tópico afirmando que o concelho está dotado de um vasto património molinológico que, na generalidade dos casos, está degradado e votado ao abandono.

Ainda acrescentou, se tratado devidamente este património poderia estabelecer um pólo interessante de valorização turística e constituir-se numa mais-valia diferenciadora do concelho. E, com algum investimento, mas, sobretudo, com um planeamento integrado e uma programação adequada, um pólo gerador de emprego e riqueza.

Concluiu este quarto tópico, explanando que, para tanto, seria necessário, antes de mais proceder ao levantamento completo e exaustivo desse património, estudá-lo e analisá-lo, e criar as formas mais adequadas para a sua integração num projecto turístico global que gerasse os proventos necessários à sua rentabilização e assegurasse a sua sustentabilidade.

O que é um Moinho de vento” foi o quinto tópico abordado. Aqui, Alberto Santos dissecou que o moinho de vento é muito mais complexo do que a descrição de Orlando Ribeiro deixa transparecer: “O moinho [de vento] é constituído por um corpo cónico de alvenaria, com telhado giratório, donde sai o eixo que suporta quatro pares de vergas perpendiculares, ligadas por cordas na extremidade; coloca-se em cada sector uma vela triangular. Às cordas atam-se púcaros, onde o ar assobia graças ao movimento giratório; os moinhos fazem assim ouvir através dos campos solitários uma toada lamentosa”.

O conferencista chamou a atenção do hábito que temos para subestimar a complexidade tecnológica deste engenho de moagem; e que isso se deve naturalmente ao desconhecimento que as pessoas têm desta autêntica “fábrica de farinha”. No entanto, no universo do sistema tradicional de moagem, onde se incluem também as azenhas, moinhos de maré, moinhos de rodízios e de rodetes, os moinhos de vento ocupam o lugar de topo na pirâmide da complexidade tecnológica.

Eles estão centrados no mecanismo de produção (que agrega três sistemas fundamentais, a funcionar em sincronia integrada: o mecanismo de moagem o aparelho motor externo e o mecanismo de transmissão), mas incluem igualmente instrumentos de controle (que incluem o mecanismo de orientação) e sistemas de controle de qualidade (onde se integram os instrumentos de medida). E Alberto Santos passou a enumerar as diversas peças que fazem parte destes mecanismos, o que motivou a intervenção de alguns dos presentes, que se mostraram bem conhecedores do assunto.

Mas a complexidade do moinho de vento não fica por aqui. Segundo explicou, terão que ser levados em consideração alguns conceitos para se obter a farinha, como a escolha do local (disponibilidades energéticas do meio, conhecimentos tecnológicos existentes e capacidade de construção existente), o planeamento e a construção do moinho, a compreensão dos princípios mecânicos, a organização da produção e, por último, o estatuto sócio profissional do moleiro.

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Alenculta (14/maio/2015) – NAS ASAS DO VENTO – Ciclo de actividades à volta dos moinhos
Os “Moleiros”, do Rancho Folclórico da Pocariça (Ana Sofia Frazão e Luís António Costa), foram convidados especiais. À conversa com José Lourenço (Presidente da Assembleia Municipal de Alenquer) e ladeados por Raquel Raposo (coordenadora da Secção de Património da Alenculta) e Hernâni de Lemos Figueiredo (Presidente da Direcção da Alenculta).

E foi precisamente pelo Moleiro, concretamente pelas actividades por este desempenhadas, que Alberto Santos entrou no último tópico desta conferência. E descreveu todas elas, segmentadas em três grandes categorias: as acções de controle e manipulação, as acções de manutenção com objectivos funcionais e as acções de manutenção com objectivos de durabilidade. Esta parte final da conferência também foi muito participada.

No final da reunião, o Presidente da Alenculta, Hernâni de Lemos Figueiredo, convidou os presentes para um “Alenquer de Honra” e assinarem o Livro de Honra, o que todos aceitaram de bom grado.


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Alenculta (14/maio/2015) – NAS ASAS DO VENTO – Ciclo de actividades à volta dos moinhos
Após uma reunião muito participada, houve o habitual ALENQUER DE HONRA, conceito que a Alenculta criou com o patrocínio da Viniquer.


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Alenculta (14/maio/2015) – NAS ASAS DO VENTO – Ciclo de actividades à volta dos moinhos
A habitual assinatura do Livro de Honra da Alenculta. Da esquerda para a direita: Ana Sofia Frazão e Luís António Costa (Rancho Folclórico da Pocariça; José Damião (Presidente da Associação Recreativa da Pocariça); Helder Miguel (Presidente da ACICA); Miguel Nobre (Gerente da Arte ao Vento) e Adérito Vicente (Artista plástico).[/caption

Alenquer, 15 de maio de 2015

Hernâni de Lemos Figueiredo
©Hernâni de Lemos Figueiredo (2015)

Programador Cultural

(Presidente da Alenculta)

hernani.figueiredo@sapo.pt

TM 965 523 785


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