Pós-Moderno

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Pós-Moderno

Este é um tema que centra muito bem o espírito dos tempos e se exprime como uma espécie de «Fenomenologia da Contemporaneidade». No tempo de transição em que vivemos – e que já é mais do que um tempo de fronteira -, é fundamental conhecer as categorias existenciais em que nos movemos e, por isso, é necessário reflectir sobre a ideia de pós-modernidade e sobre o novo processo de legitimação dos discursos que lhe está associado, sobretudo tendo em conta as reflexões inovadoras de Jean-François Lyotard, em «A condição pós-moderna» (1979), sobre o fim do velho processo narrativo de legitimação do saber (filosófico ou emancipativo) e sobre a necessária formulação das novas categorias legitimadoras que irromperam com a revolução tecnológica e com a pragmatização e laicização do saber. Porque ela representa a outra face da civilização pós-industrial, o desenvolvimento da sua textura social, cultural e existencial, centrando muito bem o espírito dos nossos tempos e exprimindo-se, retomando o Kant foucaultiano, como uma «Ontologia do Presente», num tempo em que começam a cair aquelas que foram as grandes traves mestras da modernidade, as «grandes narrações» e o discurso legitimador, a profundidade ambivalente da temporalidade histórica, o sentido do lugar e das fronteiras, o domínio do físico sobre o simulacral, do estável sobre o instável, da profundidade sobre a superfície, do compacto sobre o heterogéneo… Mas, sobretudo, e é isso que aqui me ocupa, evidenciando os grandes traços caracterizadores do pós-modernismo tal como estão formulados no estimulante ensaio de Fredric Jameson, «Postmodernism, or The Cultural Logic of Late Capitalism», New Left Review, 1984, ou seja, as várias formas de expressão cultural em que se exprime o pós-modernismo.

O que significa afirmar, neste registo, que a «civilização industrial» e a «modernidade» estão superadas ou em vias de superação? E que, com as suas categorias, já não é possível pensar os tempos em que em que nos situamos?

Do hardware ao thoughtware: pós-industrial
Significa o seguinte: que os sistemas produtivos próprios da civilização industrial estão a ser radical e inexoravelmente substituídos por sistemas fundados no software, saídos da revolução microelectrónica que teve o seu impulso decisivo no final dos anos quarenta. Que a apropriação da «mais-valia absoluta», que se apoiava na utilização de vínculos extra-económicos, deu lugar à apropriação da «mais-valia relativa», centrada no uso da ciência e da técnica para a intensificação da produtividade (veja-se Cerroni, U., Politica, Roma, NIS, 1986, pp 71-72). Que, consequentemente, ao hardware e aos sistemas mecânicos se segue o thoughtware e a robótica pós-industrial. Que da cadeia de montagem, do taylorismo e do operário de ganga azul se passou aos sistemas de robots de comportamento não determinístico, ao «assemblaggio», ao «condutor», de bata branca, que controla, em enormes espaços humanamente desérticos, a linha de robots. Que o «chip» se tornou a alma dos sistemas produtivos e comunicacionais. E que, com ele, o computador provocou, como diz Umberto Eco, uma verdadeira «mutação da espécie» e uma verdadeira revolução nos sistemas produtivo, cognitivo e comunicacional (remeto aqui para o meu ensaio «A Esquerda na Era Pós-Industrial», publicado em Finisterra 9/1992, Lisboa, pp. 63-76).

A microelectrónica fechou um ciclo e está a abrir um outro de que não se conhece a verdadeira configuração (é por isso que se usa o prefixo pós-). Fechou o ciclo onde continuava a ser central a relação sujeito-objecto, própria da civilização industrial e da modernidade, e abriu o ciclo das relações em rede, dos networks, da interactividade virtual. Tudo isto, como se sabe, está a produzir, nos campos económico e social, uma autêntica mutação genética que tende a intensificar inexoravelmente a assimetria entre crescimento e emprego, impossível de resolver com as receitas clássicas, uma vez que o uso progressivo do capital intensivo gera maior produtividade ao mesmo tempo que produz efeitos devastadores no plano do emprego. Mas os efeitos desta revolução são igualmente profundos no plano das relações sociais, cognitivas e comunicacionais. A tecnologia informacional, por exemplo, produz efeitos globais tão surpreendentes que não os poderemos compreender com os conceitos da modernidade. As auto-estradas informacionais são algo que escapa ao conceito, de matriz moderna, de conhecimento como representação, à relação sujeito-objecto, à lógica substancialista, à razão finalista. Todos eles módulos próprios da modernidade. Daquela que arranca decisivamente com a revolução científica dos séculos XVI-XVII, com a revolução liberal, com a revolução francesa e com a revolução industrial. As categorias com que já estamos a operar permitem-nos, sem dúvida, falar de civilização pós-industrial e de pós-modernidade, a outra face da mesma moeda.

As categorias da modernidade
De que modernidade falamos, pois? Não se trata, neste registo, como se compreende facilmente, daquela que inscreveu, de modo amplo, assumido e específico, nos seus anais os valores da liberdade, da propriedade, da solidariedade, da justiça e da igualdade. Simplesmente, porque estes valores são de sempre e são compatíveis com módulos cognitivos diferentes entre si. Porque do que aqui se trata – ao assumirmos o conceito de «pós-modernidade» – é de «esquemas conceptuais de referência» e não de valores. O que se pretende é delimitar temporal e historicamente a civilização que nasceu com o industrialismo e as grandes concentrações operárias. Com o domínio do trabalho mecânico. Com a irrupção e o domínio da civilização urbana de pequena ou média escala e que ainda respeitava uma linha de continuidade entre a geografia natural e a geometria urbana. Uma civilização onde os sujeitos se moviam segundo módulos cognitivos realistas e naturalistas e onde o reconhecimento recíproco sujeito-cidade ou cidade-sujeito estava centrado na representação, no realismo da relação e num conceito físico de espaço urbano. A civilização que instaurou e consolidou o Estado-Nação e as suas fronteiras terrestres, onde dominavam interacções e comunicações marcadas essencialmente por um registo de proximidade, onde o conhecimento social se confundia com a representação sob uma base empírica geral que era constituída por um substracto territorial urbano que se foi impondo decisivamente ao substracto rural. A civilização que deu origem às grandes organizações, pesadas e ideologicamente concentradas, aos grandes partidos orgânicos de massas, aos grandes sindicatos de classe ideologicamente finalizados, às grandes configurações e formações ideológicas, às grandes narrações, dizem agora os pós-modernos. Uma civilização que desenvolveu, por isso, uma lógica própria das grandes organizações que configurava o próprio tecido social em todas as suas dimensões.

Não é por acaso que, no plano estritamente político, os partidos e os sindicatos estão a conhecer, há muito, mutações radicais nos planos ideológico e organizativo, na base social, nas lógicas da comunicação política, nos programas. E que os grandes partidos começaram a despojar-se dos concentrados ideológicos e das narrativas utópicas, para abraçarem perspectivas temáticas. Que os grandes partidos de massas ou partidos-igreja deram lugar aos mais recentes «Catch all Parties», tal como os media deram origem aos mais recentes «Catch all Media», mantendo, é certo, a mesma estrutura lógica enquanto grandes organizações que permanecem, mas abdicando do peso orgânico e territorial e da carga ideológica que transportavam consigo.

As categorias da pós-modernidade
O conceito de pós-industrial é, tão-só, indicativo das profundas mutações que se viriam a verificar nestes módulos a que acabo de me referir. A revolução microelectrónica marca um passo decisivo na superação da lógica substancialista moderna e inscreve de forma difusa e alargada na história social, económica, cognitiva e comunicacional uma lógica de tipo relacional que relativiza a pretensão universalizante do velho sujeito moderno. É esta passagem que, a par do megaurbanismo ou urbanismo de grande escala, dá lugar à fragmentação da unidade totalizante e finalista perseguida pela razão moderna e que permite a emergência daquilo a que se vem chamando pós-modernismo.

O conceito de pós-moderno marca, portanto, uma ruptura com o racionalismo finalista moderno e sublinha o efectivo domínio – hoje – da lógica espacial sobre a lógica temporal (em profundidade), da superfície sobre a profundidade volumétrica, do presente sobre a profundidade histórica, da diferença, do heterogéneo, do fragmentário, do degradado, do residual sobre a unidade totalizante, perfeita e omnicompreensiva, do relativo, que retira ao Sujeito a centralidade que o finalismo lhe atribuía. Dá-nos conta do império do simulacro que vem ameaçando mortalmente a matéria empírica de que se alimentava a filosofia do sujeito e da representação. E permite, por isso mesmo, abrir caminho à descrição «fenomenológica» de um mundo que existe como tal: impuro, fragmentado, terreno, numa palavra, humano.

Do que se trata é de reconhecer a realidade com que nos confrontamos para que seja possível, aí sim, propor uma espécie de «cartografia cognitiva» (cognitive mapping – Jameson) em condições de nos tornar capazes de recompor o que se tornou fragmentário, heterogéneo, degradado. Mas sem pretensões totalizantes. Respeitando a diferença – que nos pode pôr em relação criativa.

Os conceitos de pós-moderno e de pós-industrial não são, pois, valores, mas instrumentos que servem para melhor conhecermos o mundo de hoje e sobre ele agirmos. Com os valores que, por opção interior, assumirmos. É claro que as assunções conceptuais supõem valores e induzem mundividências. E tal como a absolutização conceptual produz anemia axiológica, também a absolutização dos valores gera desertificação analítica ou conceptual. Ambas as posições são indesejáveis.

Jameson, o pós-modernismo e a lógica cultural do capitalismo tardio
«Esta omnipresença do pastiche não é, todavia, incompatível com um certo humour (nem isenta de paixões) ou, pelo menos, com uma necessidade, uma habituação – historicamente original – dos consumidores a um mundo transformado em puras imagens de si próprio ou a pseudo-eventos e “espectáculos” (para usar um termo dos situacionistas). É a objectos deste tipo que queríamos reservar a concepção platónica do “simulacro” – cópia idêntica de um original que nunca existiu. Pode-se dizer que a cultura do simulacro ganha vida numa sociedade onde o valor de troca se generalizou de tal modo que cancelou a própria memória do valor de uso, uma sociedade onde, como observou Guy Debord com uma frase extraordinária, “a imagem se tornou a forma final da reificação” (La société du spectacle). Ora, é lícito esperar que o novo espaço lógico do simulacro produza um efeito de relevo sobre aquilo que era o tempo histórico».

Fredric Jameson
Fredric Jameson, no excelente ensaio sobre Pós-modernismo (uso a edição italiana da Garzanti: Milano, 1989, pp. 110), propõe-nos uma sofisticada introdução à lógica cultural da moderna sociedade de massas, mas também mega-urbana e multinacional. A lógica cultural destas sociedades desenvolvidas e em contínua expansão «horizontal» é, como não podia deixar de ser, mais a lógica própria dos sistemas complexos do que a das comunidades micro-urbanas típicas dos inícios da modernidade. Ou melhor: estas sociedades vieram pôr fim à lógica substancialista destas comunidades simples, que se exprimia no moderno. Lógica que se fundava na relação imediata, empírica entre o substracto territorial urbano e os sujeitos que nele se moviam segundo um módulo realista, naturalista e ambiental; em suma, que se fundava numa relação onde o modo de reconhecimento recíproco estava centrado na representação, na imediatidade ou no realismo da relação. Se esta organização micro-urbana da sociedade se fundava ainda na continuidade entre a geografia natural e a geometria urbana e o seu conteúdo era constituído por sujeitos socialmente bem determinados e portadores exclusivos da capacidade de harmonizar a natureza aos fins humanos, nas modernas sociedades sistémicas não só sobreveio ou irrompeu uma solução de continuidade entre geografia natural e a geometria urbana ou humana, mas também o próprio sujeito desapareceu, desaparecendo com ele, por um lado, a própria capacidade humana de pôr fins na profundidade temporal do futuro e, por outro, a possibilidade de estabelecer a genealogia histórico-social dos indivíduos e dos grupos sociais na profundidade temporal do passado. As sociedades desenvolvidas, ao transformarem-se em sistemas, eliminaram a dimensão da profundidade histórica, quer em relação ao passado quer em relação ao futuro. É esta a razão pela qual, no meu entendimento, elas suscitaram lógicas interpretativas que tendem a postular o «fim da história». Se tudo se converte em lógica sistémica não há diacronia e se não há diacronia não há história. É a ditadura do presente sobre o passado e sobre o futuro: de facto, estes são «lidos» simplesmente em chave integrativa, comparativa, «intertextual». Jameson sublinha as várias dimensões da «coupure», da ruptura, do «gap» que deu origem ao pós-moderno, não como fenómeno meramente superestrutural, mas como movimento que exprime o ser próprio das sociedades complexas. Estas dimensões exprimem-se, em primeiro lugar, ou, pelo menos, com maior realismo e evidência, na arquitectura, já que, como diz Jameson, ela é, de todas as artes, aquela que constitutivamente está mais próxima da economia (1989: 15), do fluxo económico da sociedade, e, por isso, aquela que maior poder tem de configurar a geometria urbana segundo as reais tendências estruturais da sociedade. Em sociedades onde se deu a laicização integral e universal de todas as relações através desse ser-imediatamente-disponível que é a mercadoria universal, é lógico que a tendência pós-moderna em arquitectura se apresente sob a forma de um populismo estético que refuta a «austeridade elitista (e utópica) do grande moderno arquitectónico» (1989: 75). «Noutras palavras», diz Jameson, «geralmente afirma-se que, por um lado, estes novos edifícios (pós-modernos) são obras populares; e, por outro, que respeitam o vernáculo do tecido urbano americano, isto é, que já não tentam, como as obras-primas e os monumentos do moderno avançado, inserir uma linguagem diferente, distinta, elevada, nova e utópica, no sistema de signos comercial e manifesto da cidade circunstante, mas antes, pelo contrário, tentam falar essa mesma linguagem usando o seu léxico e a sua sintaxe, como emblematicamente se “aprendeu com Las Vegas”» (do livro-manifesto de Robert Venturi, Learning from Las Vegas, 1989: 75). Se o moderno avançado impôs prepotentemente uma ruptura na continuidade entre a geografia natural e a geometria urbana originária, o populismo pós-moderno tenta recuperar uma certa unidade, sem, todavia, regressar ao naturalismo das relações, imergindo-se totalmente nesse sistema de signos que se exprime como linguagem espontânea e universal do mundo mercantil, qual produto característico da própria modernidade. É, poder-se-ia dizer, um populismo mediado pelo laicismo integral que a linguagem mercantil introduziu nas sociedades desenvolvidas.

O fim de uma arquitectura construída originariamente a partir do modelo da relação comunitária simples e em continuidade harmoniosa com a natureza, provocado prepotentemente pelo moderno avançado, marca o início da auto-suficiência arquitectónica no duplo aspecto da relação humana não comunitária, abstracta e funcional, e com a natureza, não imediata. A expansão de tal lógica levou a que as relações sociais não pudessem funcionar com o sistema de reconhecimento fundado na representação, na identificação imediata da genealogia social dos indivíduos, mas sim através de códigos e sistemas de comunicação abstractos, sistemas de signos não apoiados imediatamente nas funções de reconhecimento empírico e territorial.

A abstractização da sociedade, a sua transformação em sistema, levou a que a lógica espacial não só se transformasse qualitativamente, mas também a que ela própria triunfasse sobre a lógica temporal. Não só o espaço urbano, social, passou a ser abstracto, geometrizante e convencional, em vez de se desenvolver segundo o traço do espaço natural, mas também passou a ser «invasivo», isto é, passou a funcionalizar o próprio ritmo temporal às suas exigências sincrónicas ou sistémicas. Daqui que, desaparecida a profundidade diacrónica ou histórica, também desapareça o fio condutor que harmoniza a sociedade, que a unifica tendencialmente e que lhe imprime a marca indelével da sua ancestralidade, da sua génese, da sua genealogia: como consequência, desprende-se a força do heterogéneo, do inessencial, do residual, do marginal, do fragmentário, do degradado, que irrompem por entre os destroços do finalismo histórico. Não que os sistemas (pós-)modernos não sejam formalmente unitários; é, todavia, no seu interior que tudo são variáveis independentes, embora reguladas por funções. Mas, nos limites do sistema, supostas as constantes, tudo é possível.

Até mesmo, como diz o Russell dos «Principia Mathematica», substituir Sócrates por uma torta e, portanto, a história da filosofia pela história da culinária. O «heterogéneo» é regulado por uma racionalidade imanente (ao sistema) que diz respeito não à substância, isto é, à condição da sua própria heterogeneidade, mas somente às suas relações, à forma. Quando a substância emerge, ela assume, portanto, um aspecto residual, fragmentário, inessencial, heterogéneo. Em tais sistemas o sujeito desaparece, dando lugar à função, ou melhor, o sujeito, quando emerge fora da função, surge como mero resíduo marginal, como fragmento, incapaz, portanto, de protagonismo histórico-social. E como, de facto, sem sujeito não há história, também a historicidade social se transforma em simples movimento aleatório e as relações dão virtualmente lugar à pura coexistência de amontoados de fragmentos inexpressivos, num espaço puramente plano, sem profundidade volumétrica. Tudo isto, obviamente, sob o pressuposto do funcionamento automático do sistema, enquanto auto-regulado, no plano formal.

A ausência do sujeito tem consequências significativas no próprio plano estético: desaparece, no plano intra-sistémico, a relação interno-externo e, por isso, desaparece a própria estética da expressão, como desaparece também a profundidade afectiva, dando lugar àquilo que Jameson designa por «intensities» ou «expressões afectivas», que, tal como o sujeito, são fragmentárias («que flutuam livremente» e que «são impessoais», 1989: 33). Pode-se falar de «descentração» do antigo espírito ou sujeito centrado (1989: 32), de um «espírito objectivo colectivo degradado» (1989: 51) ou mesmo do fim da distância crítica, sob a colonização sistémica do sujeito, do inconsciente e da própria natureza, restando como dispositivo final a «diferença que põe em relação» (ib.,61).

Cinco modelos de profundidade
Segundo Jameson, o mundo pós-moderno, ao pôr fim aos cinco grandes modelos de profundidade (os das relações interno-externo, essência-aparência, latente-manifesto, autenticidade-inautenticidade, significante-significado), suscita uma cultura da superfície ou das superfícies, das superfícies planas, onde a própria história pode aparecer, ou aparece mesmo, como um «imenso simulacro fotográfico» e onde os eventos se tornam pseudo-eventos ou «espectáculos», tudo se tornando, de facto, «cultural», desaparecida a lógica que suportava a cisão entre a alta cultura e a cultura de massas (e veja-se, a este respeito, Adorno e Horkheimer [1944], 1997, Dialettica dell’illuminismo, Torino, Einaudi), como veio a acontecer, em arquitectura, com o populismo estético. A produção estética passa, então, a subordinar-se integralmente à lógica sistémica da produção de mercadorias em geral (1989: 14).

Esta lógica supõe, sem dúvida, a atomização, a fragmentação social e uma espécie de desrealização do mundo circundante que é recuperada sistemicamente através da circulação capilar de imagens-eventos, quais elementos mediáticos da comunicação e alma da «representação» empírica do mundo. A sobreposição da imagem-evento, com a força da sua imediatidade, à actividade cognitiva autónoma do sujeito-fragmento pós-moderno transforma o real em simulacro e a história em imagética «intertextual». O sujeito-fragmento é envolvido pelo dilúvio imagético e mediada ou construída, sem distância crítica, a sua representação do real e da história.

O conceito que Jameson avança com pretensões resolutivas é o de uma cartografia cognitiva global (cognitive mapping) que, sob o modelo da auto-orientação na totalidade urbana complexa, possa reconstruir o sujeito-fragmento, transformando-o em sujeito cognitivo e activo dotado da capacidade de irromper como autoconsciência por entre a confusão espacial e social dominante (1989: 95-102), por entre o império de uma lógica espacial incapaz de dar conta das posições relativas dos diversos elementos que compõem a sociedade, de uma genealogia histórico-social. Incapaz, precisamente, porque em tal lógica impera o mundo do aleatório e do residual como conteúdo substancial, isto é, como conteúdo histórico-social, ou melhor, como seu conteúdo substitutivo.

Uma filosofia ou uma estética pós-modernas sem uma cartografia cognitiva arriscam-se, pois – parece sugerir Jameson – a serem elas próprias residuais.


Lisboa, 14 de Outubro de 2013.
in http://joaodealmeidasantos.com/2013/10/14/pos-moderno/




Joao_Almeida_Santos

©João Almeida Santos (2013)
Professor Catedrático
Director da Faculdade de Ciências Sociais, Educação e Administração da Universidade Lusófona.
Director do Dep de Ciência Política, Segurança e Relações Internacionais da Universidade Lusófona.



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