Damião de Goes, 500 anos depois: Os Goes de Alenquer

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Damião de Goes, 500 anos depois

Os Goes de Alenquer

A nobre vila de Gois, enquadrada numa paisagem ambiental maravilhosa, deixando extasiado quem por ali passa, tão rica de história e tradição que honram a nossa pátria pelas figuras a ela aliadas, e também pelo património artístico e cultural notável que importa dignificar sempre. Ali me levou meu pai, sendo eu ainda jovem, para conhecer a linda terra que nos deu o nome e logo com grande gáudio e alguma emoção apreciei as suas belezas.

Decorridos bastantes anos, voltei lá percorrendo de novo aquelas paragens que evocavam um passado de euforia da vila e dos seus briosos habitantes, pelas suas qualidades cada vez mais empenhados no seu desenvolvimento.

Em tempos mais recentes, e mesmo actuais, tenho conhecimento da existência entre os seus naturais de pessoas de muito valor que têm feito de Gois um viveiro de gente trabalhadora e ilustre nos vários sectores da vida nacional. Isto me apraz registar com satisfação.

Porém uma coisa é passear sozinho ou apenas com a família ou amigos contemplando bonitos bosques, vergéis e obras de arte, outra conviver com pessoas, como me aconteceu o ano passado quando tive a felicidade de me encontrar numa sala cheia de gente interessante e interessada, sentindo o calor humano e bons sentimentos dos verdadeiros goienses.

Pela rainha D. Teresa e seu filho D. Afonso Henriques, neto materno este do rei D. Afonso VI e filho do Conde D. Henriques de Borgonha foi doado este termo a D. Anian, fidalgo asturiano, natural de San Vicente da la Barquera, que acompanhou o dito Conde D. Henriques nas empresas do seu tempo, batalhando contra mouros. Na sucessão deste se continuou o senhorio de Gois que, embora com algumas convulsões familiares, se manteve até à extinção, operada pelo regime liberal, de todos os senhorios e morgadios.

Destes antigos senhores recebeu Gois o seu foral e continuados benefícios, que a sua posição social e boa aceitação na corte lhe permitia auferir, transmitindo-os às suas gentes. Logo seu filho Martin Andreia, segundo senhor, foi alcaide de Coimbra, Diocese onde seu irmão João foi Bispo e esteve na batalha de campo de Ourique. Na mesma batalha esteve Gonçalo Dias de Gois, chamado o Cid por ser mui esforçado cavaleiro e foi quem aconselhou o rei D. Afonso Henriques a que fizesse o mosteiro de Santa Cruz em Coimbra. Ele, o primeiro a usar o nome de Goes.

Da mesma ilustre estirpe floresceram vários membros, dos quais sem preocupação de continuidade, passo a citar apenas Estevão Vasques de Goes, alcaide-mor de Lisboa, Nuno de Goes, que foi Prior do Crato, e depois de Mécia Vasques de Goes, com o apelido Lemos, e mais tarde com o apelido Silveira, tantos outros.

Através dos séculos foram os senhores de Goes acumulando títulos nobiliárquicos e a representação do nome e armas de várias distintas famílias, de que hoje é chefe o excelentíssimo senhor D. José Maria da Piedade de Lancastre e Távora.

Dos factos mais concretos se ocupam os historiadores dedicados a esses estudos e personalidades com grau académico superior ou pelo menos com capacidades carismáticas na matéria. Eu estou aqui despido desses atributos simplesmente pela, para mim, grata amabilidade do vosso consócio, engenheiro João Nogueira Ramos.

Foi por sua insistência que, embora reconhecendo o pouco mérito da minha intervenção, aceitei vir à presença de tão esclarecido auditório, na qualidade de descendente de alguma dessa antiga gente, o que dá responsabilidade acrescida, com a obrigação duma conduta moral e social digna e não, como alguns supõem, ter quaisquer motivos de vaidade ou sobranceria.

A propósito, lembro o facto de, no ano de 1938, no canal de Moçambique, ter aparecido um peixe raro, do qual os cientistas tinham notícia, mas supunham extinto há milhares de anos, no final do período cretácico, pelo que o acontecimento foi muito festejado. Tratava-se dum celacanto e claro, em qualquer peixaria não obteria melhor preço do que um vulgar cachucho. Valia pelo que representava. Sem falsa modéstia parece-me lícito neste caso estabelecer comparação paralela comigo. Aqui valho pelo que represento.

Pois, desta linhagem, se separou ainda no fim do século XIV um ramo para o meu querido concelho de Alenquer, onde tem permanecido até hoje, rodeado pela estima dos seus conterrâneos e, se Deus quiser, assim há-de continuar.

De facto, na sua “Crónica da Tomada de Ceuta”, acontecida a 21 de Agosto de 1415, o autor coevo Gomes Eanes de Zurara dá-nos conta da intrépida acção de Gomes Dias de Goes, fidalgo da Casa do Infante D. Henriques que decerto não seria nessa altura muito novo, pois já anteriormente servira os reis D. Fernando I e D. João I, cometendo actos de bravura e referindo ser ele natural de Alenquer.

Por ter grafia mais moderna cito, em “Brasões da sala de Sintra”, de Braamcamp Freire” …até que afinal os mouros dispersaram e pela porta da muralha interior, por onde fugiram, entraram de envolta com eles D. Henrique e mais quatro valentes portugueses. Eram estes Álvaro Fernandes Mascarenhas, Vasco Esteves Godinho, Gomes Dias de Goes… e finalmente Fernão Álvares. Os três primeiros fidalgos da casa do Infante, o último escudeiro d’el Rei.

Para esta descendência me valho de “ Inéditos Goesianos”, de Guilherme João Carlos Henriques, onde se reproduzem vários documentos da casa de São João, em Olhalvo.

Deste Gomes Dias de Goes sou décimo quarto neto, o que soma até mim dezasseis gerações e até às minhas netas dezoito. Isto torna rara tão longa permanência duma família, sempre radicada no mesmo concelho.

Do anterior foi filho Lopo Dias de Goes, que desenvolveu a indústria das saboarias cujo monopólio em alguns lugares comarcãos, em paga dos seus serviços, recebera seu pai, além de várias quantias e tenças.

Filho deste foi Rui Dias de Goes, cavaleiro–fidalgo que em 1500 era almoxarife em Alenquer, vila que pertencia à Casa das Rainhas, da Rainha D. Leonor, irmã del Rei D. Manuel I e mulher del Rei D. João II. Casou este Rui Dias de Goes quatro vezes, a primeira com Inês de Oliveira de Macedo, de quem houve ilustre descendência.

É curiosidade interessante notar que, por este casamento, foi Rui Dias, tio por afinidade, do grande Luiz Vaz de Camões, filho de Ana de Macedo, irmã desta sua mulher, casada com Simão Vaz de Camões, pais do insigne poeta, então residindo na vizinha vila de Azambuja. Mais uma achega em favor da corrente que entende ter sido aquele natural de Alenquer.

Realmente, além de várias outras referências e indícios que nos permitem esta opção, temos: “Criou-me Portugal na verde e cara pátria minha Alenquer…”, e na estância LXI canto dos “Lusíadas”, “já lhe obedece toda a estremadura, / Óbidos, Alenquer, por onde Soa, / O tom das Frescas águas, entre as pedras, / Que murmurando levam, e Torres Vedras”. Repare-se na citação seca às outras localidades, quiçá tão importantes, em comparação com o carinho que dedica a Alenquer.

Casou, segunda vez, Rui Dias com Filipa de Goes, sua prima, a qual igualmente seguiu descendência notável, entroncando em várias casas titulares.

Do terceiro casamento não houve geração.

Como a prole destes anteriores matrimónios não seguiu o nome de Goes e se ausentou de Alenquer, apenas a descendência do quarto, com Isabel Gomes de Limi, nos merece interesse, através de seus filhos:
No âmbito deste morgadio, ou em ligação com ele, encontramos uma pleiade de personalidades relevantes, como as seguintes:

    1- Manuel de Goes, fidalgo da casa Real, comendador da Ordem de Cristo, fez assinalados serviços em África e na Índia, percursor da indústria do papel para o que tomou de aforamento aos Frades de Alcobaça, a 1 de Outubro de 1537, uns moinhos no sítio da Fervença, para instalar os respectivos engenhos.
    2- O grande Damião de Goes, o português mais culto e viajado do seu tempo, humanista, estudioso nas mais importantes Universidades da Europa, escritor, músico, embaixador a várias cortes, desempenhando missões da maior responsabilidade, defensor do cêrco de Lovaina, comandando o Batalhão académico, cronista e guarda-mor da Torre do Tombo, etc. Teve brazão de armas novas concedidas pelo Imperador Carlos V e reconhecidas por el Rei D. Sebastião a 15 de Agosto de 1567.
    3- Baltazar Dias de Goes, comendador da Ordem de Cristo, tesoureiro do Cardeal D. Henrique, instituidor em 1547 do Morgadio do Monte de Loios.
    4- Nuno de Goes, alcaide-mor de Alenquer,
    5- Francisco de Almeida Sotomayor, que embarcou em sete armadas à sua custa, indo em socorro à vila de Mazagão, estando cercada, e ali ser ferido duma lançada debaixo do braço direito: filho deste Heitor de Almeida de Goes, fidalgo de cota de armas, capitão de infantaria na vila de Alenquer, “recebedor do consulado que se arrecada na Casa da Índia”,
    6- António de Goes Sotomayor, capitão–mor e superintendente da Coudelaria de Alenquer, a seu termo;
    7- Damião de Goes Sotomayor, fidalgo cavaleiro, combatente na Índia, morreu em Timor;
    8- Vicente Paulo de Figueiredo de Goes Sotomayor, oficial do regime de Setúbal, onde casou com Maria Agostinha, irmã mais velha e única de que subsiste geração do afamado e genial poeta Manuel Maria de Barbosa du Bocage;
    9- Francisco de Goes Sotomayor du Bocage, tenente do batalhão de Voluntários realistas de Alenquer;
    10- Francisco de Goes Sotomayor du Bocage, procurador, por Alenquer, à Junta Geral do Distrito de Lisboa;
    11- Francisco de Goes de Moraes du Bocage, último morgado, vereador eleito da Câmara Municipal de Alenquer, onde gozava de enorme prestígio.
    Todos, simultaneamente, quando possível, se dedicaram ao amanho das suas propriedades rurais, com agricultura diversificada.

E por aqui me fico, libertando-os das minhas palavras, não os querendo privar por mais tempo do privilégio de escutarem a lição do excelentíssimo senhor professor doutor Amadeu Rodrigues Torres, agradecendo o favor da vossa paciência e desejando a todos, sinceramente, as maiores felicidades.

(Discurso proferido na Casa de Góis, em Lisboa)

Francisco Goes_2

©Francisco Goes du Bocage (2002)
Representante de Damião de Goes
in Jornal D’Alenquer, 1 de Dezembro de 2002, p. 4





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