Mãe, espero que vossemecê faça o presépio ao pé do forno de lenha

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Mãe, espero que vossemecê faça o presépio ao pé do forno de lenha

Imagem extraída do blogue Olhar Viana do Castelo, com a devida vénia

Imagem extraída do blogue Olhar Viana do Castelo, com a devida vénia

Sei que as coisas aconteceram aí pela segunda semana de Dezembro, mas não sei precisar a data. Viera a Bambadinca depois de uma noite a montar segurança em Mato de Cão, os batelões, com a LDM à frente, entraram no Geba Estreito ao romper da alva, nem refleti duas vezes, pedi boleia para toda a minha malta, na viagem fui distribuindo tarefas: tu e tu vão tratar do material de transmissões; aquele e aqueloutro pegam nas requisições da comida e lembram ao vagomestre que voltaremos dentro de três dias, dali não sairemos sem uma caixa de bacalhau, traremos o “burrinho” até à margem do Geba; e vêm comigo sicrano e beltrano e vamos até à engenharia por causa dos sacos de cimento e dos prometidos rolos de arame-farpado.
Chegámos cedo, quando a CCS entrava em ebulição, e deu para avistar o comandante, saudei-o à distância, tinha mais que fazer. Discutia com o furriel Dário alguns outros materiais de construção quando avançou em pose Bala, o 19, a intendência do comandante, fez a continência, mostrou os dentes em ouro e anunciou: “Nosso comandante precisa de conversar com alfero, logo que esteja despachado vá ao gabinete, é coisa para tratar antes de partir para Missirá, sem falta”. Tudo levava a crer que, dentro do ritmo normal das coisas, se abria a perspetiva de: convocatória para uma operação; advertência para que não houvesse atrasos no pagamento do pré; mais uma sangria de uma seção das milícias para as novas tabancas em autodefesa, cenário de protestos meus e até pedidos para ser retirado daquela guerra de fantasia, a querer melhorar os quartéis, a abastecer imperativamente centena e meia de civis em duas tabancas e com gradual redução de efetivos. Chegara há pouco tempo e fartava-me de tanta omeleta sem ovos.
Mas não, o comandante recebeu-me não esfusiante mas estranhamente compreensivo, até parecia estar interessado com o andamento das escolas, a melhoria dos abrigos, transmitia-me que o régulo lhe viera agradecer pessoalmente os benefícios que estavam a ser introduzidos no seu território. E após este discurso amenizado, comunicou-me que houvera ali um desacato com um soldado básico, um abrutado que só tinha altura e peso, que comia arrobas de batata, arroz e massa e que, dois dias antes, numa estúpida discussão, enfiara uns sopapos valentes num cabo da manutenção das viaturas que tivera que dar baixa à enfermaria com os maxilares deslocados, ainda não era líquido que o homem não estivesse fraturado. “Faça-me o favor, leve-me aquela besta consigo, não lhe pode dar uma arma para as mãos, dê-lhe trabalhos de trolha, de carpintaria, coisas assim, não o ponha em reforços, é tão brutamontes que não percebe que não pode dormitar no posto, aqui não pode ficar mais tempo, aguente-o, converse com ele, fale-lhe maneirinho, é impossível trazê-lo à razão, o gajo deve ter serradura na cabeça. Daqui a um mês falamos, deixe passar o Natal, pode ser que o anormal se dê melhor lá no fim do mato do que aqui”.
Chamava-se Anastácio, era natural de um lugarejo perto de Pedrógão Grande, suspirava pelos campos de milho, as plantações de batata e o pastoreio das cabras. Frequentara sem nenhum sucesso a escola da freguesia de Vila Facaia, a professora sentiu-se derrotada, o Anastácio não queria nada com a tabuada, a leitura, a redação, nenhum trabalho escolar o impressionava, trabalho só os do campo. O corpo era uma desmesura, quase um metro e noventa, um volume de carnes a fazer pregas, umas manápulas que pareciam enxadas, um vozeirão cavo e quando soprava qualquer sílaba dilatavam-se-lhe as ventas, as sobrancelhas pilosas avançavam pela testa estreita, parecia mato abandonado.
O Anastácio acomodou-se, circulava pacífico, adorava ir buscar água à fonte de Cancumba, desmatou furiosamente, criou horta, fez bancos, conversava com os miúdos animadamente. Vieram reclamações do abrigo do Raposo, contrabandista no Marvão, o soldado básico emprestado a Missirá roncava como uma locomotiva, sacudiam-no, era o mesmo que nada.
Passavam-se os dias, e começou-se a discutir a festa de Natal, a consoada e o almoço do dia 25, primeiro para os homens grandes, depois para as mulheres e crianças, e depois para nós. O Anastácio ouvia tudo sem comentários. E um dia, a seguir ao almoço, acompanhou-me até à morança, e abordou-me:
– Meu alferes, quero que escreva à minha mãe, há coisas que não posso dizer pelas mãos dos outros.
– Olha, agora dava-me jeito, tenho que partir às quatro horas para Finete, antes ainda tenho uns papéis para assinar que seguirão para Bambadinca, entra, senta-te ali, tenho aerogramas que cheguem.
O Anastácio não cabia na cadeira, mandei-o sentar-se na minha cama, o folhelho gemia com aquele peso brutal.
– Então diz lá o que deve seguir para a tua mãe.
– Mãe, saúde e felicidades para vocês todos, quero que a minha irmã Ermelinda vá ao Troviscal dizer à avó Zulmira que compre roupa com aqueles duzentos mil réis que foram na carta que mandei em Novembro. E que não me faça mais camisas de lã porque aqui não fazem jeito. Passo a vida a pensar nos meus animais, na égua que o meu pai me deixou, na burra e nas cabrinhas, fico contente em saber que nada lhes aconteceu. O dinheiro que vossemecê recebe é para a vaca, mas também para a promessa que fizemos à Senhora da Confiança se nada me acontecer aqui nesta guerra. Estou agora num sítio onde não me chateiam, mas a comida é um castigo, a carne das cabras não serve para fazer chanfana, o chouriço não tem gosto e há poucos legumes, felizmente que podemos comer bacalhau de vez em quando. Como à gente de cá, farto-me de comer arroz se não passo fome.
Mãe, tenho um pedido para lhe fazer neste Natal. É o presépio que eu comprei na agência funerária da Sertã, tinha pouco dinheiro e só comprei o Jesus, a Senhora, S. José e aquela placa que lembra a casa dos animais. A vaca não me sai da cabeça, peço ao meu irmão Eduardo para pegar na mota a ir a Pedrógão à loja do Gil para comprar as figuras da vaca e do burro, nunca lhe perdoarei se ele não me fizer a vontade. E já que tem lembranças minhas, faça-me a vontade e tire essas roupas de preto, ainda não estou no cemitério, vista-se como se vestia antigamente. E tenho mais outro pedido, é fazer-me o presépio e pôr musgo, gostava que ele ficasse ao pé do forno de lenha para eu me lembrar das noites frias e de estar quentinho ali ao pé, já lhe disse noutras cartas que este calor não interessa a ninguém, estou sempre a transpirar, vejo-me obrigado a tomar banho todos os dias e mesmo assim não fico satisfeito porque logo a seguir vem os mosquitos.
Mãe, não sei o que é que hei de dizer mais, é um oficial quem está a escrever a carta dentro de uma cubata, aqui a gente é mais pobre do que nós, felizmente ninguém me diz coisas desagradáveis, posso adormecer a ouvir música que ninguém me diz palavrões.
Mãe, não se esqueça da promessa da vaca e do burro. Diga aos meus irmãos para me escrever. Vá estando atenta às vacas da feira de Pedrógão, eu quero um bicho gordo para recomeçar a minha vida quando para o ano para aí voltar. Não se esqueça que é ao pé do forno de lenha, ouviu?
– Desculpa lá, pá, já vamos em três aerogramas, estás-te a repetir com esta história da vaca e do burro e do forno de lenha, ainda tenho coisas para fazer, ficamos por aqui, está bem?
– Obrigado pela sua paciência. Falou ali à mesa que queria ir a Bafatá comprar peças do presépio. Se não houver lugar para mim, não se esqueça de comprar uma vaca e um burro que eu depois faço contas consigo, é um assunto meu.
O Anastácio montou o presépio. Na hora da consoada pôs o Menino Jesus em cima de umas palhinhas e avisou: “Agora vou buscar um fogareiro, é o que há de mais parecido com o fogão de lenha da casa onde eu nasci e para onde estou ansioso por regressar”.



Beja Santos

©Mário Beja Santos (2015)
Professor Universitário
Cofundador da UGC, União Geral de Consumidores

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